A caligrafia de Patroni

Este é o ofício manuscrito que Filipe Patroni endereçou ao presidente das cortes portuguesas, em Lisboa, em 14 de abril de 1821:
Tenho a honra de comunicar a V. Exa., para a comunicar ao Augusto Congresso, as razões que julgo devem resolver as Cortes a permitir em seu seio, extraordinariamente, Deputados da Província do Grão Pará.
A extensão demasiada desta Província torna impraticável o método das Eleições aqui proposto, ao menos dentro de um grande espaço de tempo. Entretanto, o Pará deve ter seus Representantes no Soberano Congresso.
Esses dois princípios abrangem inumeráveis consequências, que o tempo me-não permite expender neste papel: mas eles estão sobejamente declarados no impresso, que já tive a honra de entregar a V. Exa, e que se distribuiu para os Deputados.
Peço a V. Exa. que faça abreviar a decisão deste negócio: há navio a partir, julgo que dentro destes cinco dias. É absolutamente forçoso enviar-se já para a minha Província um novo plano de Eleições.

O Pará de Patroni

Publico abaixo um documento de grande importância para a história do Pará e da Amazônia, em particular da cabanagem e dos “motins políticos”. É uma carta que Felipe Patroni escreveu em 1817, quando tinha apenas 19anos. Fazia então o segundo ano jurídico na Universidade de Coimbra, em Portugal. A carta virou artigo e foi publicada no Jornal de Coimbra, no mesmo ano. Talvez seja inédita essa reprodução, possibilitada pela pesquisa da jornalisa Vilma Martins, que localizou o documento nas suas expedições arqueológicas pelos arquivos da terra lusitana e do Brasil, e o transcreveu. Vilminha merece medalhas por essa façanha.

Talvez seja uma das mais preciosas descrições feitas – com conhecimento de causa, acurácia, sensibilidade e humor – do Pará e da sua capital no início do século XIX, antes das sucessivas e graves comoções políticas que iria vivenciar. Com esse documento, não há mais dúvida que Patroni foi o grande ideólogo do processo que resultaria na erupção da revolta popular. Entre impulsos da vontade, fantasia e idealismo, ele tinha um projeto de libertação e crescimento do Pará, através da mudança do padrão cultural e econômico do futuro Estado (ainda na busca por essa utopia).

O documento é longo, mas pode ser  lido com fluência e prazer, além de enorme proveito. Limitei-me, por orta, a grifar alguns trechos.

Segue-se o texto de Vilma Reis.

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Dorme na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, o exemplar do Jornal de Coimbra publicado em 1817 onde foi publicada uma carta de Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente para seu amigo Salvador Rodrigues do Couto. Em setembro desse ano Patroni tinha apenas 19 anos e cursava o segundo ano do Curso de Direito na Universidade de Coimbra. 

Na missiva, de 23 páginas, ele traça um retrato incontornável da sua terra, o Pará, e inclui 20 notas de autor, nas quais esmiúça com uma riqueza de detalhes digno de um grande e futuro jornalista. Patroni aborda desde os contornos histórico-políticos portugueses na criação da capital paraense até o modo de vida doshabitates do Pará. 

A terminologia de Patroni aguça a curiosidade do leitor. Ele usa constantemente “Naturaes” e “Tapuias” para os que nasciam na terra brasileira, fala da gastronomia, da navegação, descreve generosamente a arquitetura de Belém “Os Templos são magníficos, e a Cathedral é talvez a mais magestosa não só do Brasil, mas também da Europa”. Explica a geografia do lugar “Grão-Pará é a versão pouco fiel do termo Paranáuassú (mar grande), que os Tapuias dão geralmente a todo o rio grande”.

Felipe explica a razão do equívoco da denominação de Mar ao  curso d’água que banha Belém, na suposição de ser o grandioso Amazonas, e se mostra crítico em vários momentos, desde aqueles que chamam a castanha de maranhense “A madeira do castanheiro especial para mastros, é o que produz as castanhas que em Portugal, sem razão se chamão do Maranhão, sendo que para ahí se exportão do Pará”.  

Até à preguiça daqueles que “indolentes” não pescam como deveriam, deixando o peixe sempre mais caro nos mercados. Patroni se assume um rigoroso ecologista “Desgraça certamente lamentável é a nossa que podendo aumentar o nosso paiz, servindo-nos das suas produções, por nossa negligencia o diminuímos, queimando as suas riquezas. Sendo tão vasta a extensão dos nossos bosques porque razão servimo-nos das andirobeiras para lenha?”

Enaltece a mandioca, fala da produção da “Caxaça” que à época tinha tons de azul por causa do uso de erva-doce em sua receita original”. E traduz muitos termos indígenas, como: “Pirí chamão os Naturaes às terras alagadas”; “Sipó é certo ligamento, que cresce nas árvores”.

Fala das madeiras e do uso correto de cada uma delas.  Traduz tudo com uma riqueza linguística bastante curiosa “Os beijús, semelhante no volume e figura a dés hóstias postas uma sobre a outra”. Ensina como fazer maniçoba de “Um arbusto chamado maniva, cujas poucas folhas soccadas ao pilão e cozidas com carne ou peixe, e ordinariamente com pés de vacca, tem o nome de manissóba”

Também explica pormenorizadamente como se faz a farinha e já coloca o “Uássahí” como rei entre todas as frutas da Amazônia, mas confessa que sua preferida é a mangaba. Também se assume fã de tucupi, chegando a dizer que caças e peixes, tudo fica mais saboroso com o licor da mandioca.

A carta de Felipe Patroni traz ainda imensos questionamentos, alguns perduram até hoje.

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JORNAL DE COIMBRA

1817

VOLUME XI. – PARTE II

LISBOA:

NA IMPRESSÃO RÉGIA

Com Licença.

(Página 369)

JORNAL DE COIMBRA

Num. L.X. Parte II.

Dedicada a todos os objectos, que não são de Sciencias Naturaes.

Art. I – Carta, que de Lisboa escreveo Filippe Alberto Patroni, natural do Pará, Estudante do segundo Anno Juridico na Universidade de Coimbra, a Savaldor Rodrigues do Couto, natural da mesma Cidade do Pará, e n’ella Presbitero Secular, e Capellão da Cathedral.

Lisboa 5 de Setembro de 1817.

Amigo, estou em Lisboa; tenho visto terras diferentes, outras gentes, outros costumes; e é por isso, que concebo o projecto de recordar-vos os interêsses das viagens.

João Antonio Martins, Joaquim Manoel, e os dois Aranhas[1], todos estes tem recebido a sua elevação imediatamente à sua retirada do Pará.

Germano Aranha, logo que completou o Curso Mathematico na Academia Marinha d’ésta Cidade, foi promovido a segundo Commandante d’uma embarcação de guerra, foi a Argel, desembarcou no Algarve, teve no mar um combate com os Hespanhoes insurgentes, e voltou a Lisboa, onde chegou no dia 29 do mez passado, tendo desesete mil réis de Soldo mensal, e uma ração diária: e tudo isto em breve tempo… Eis ahi elle já começa a sentir os bons efeitos da sua saída do Pará. Grande é o resultado estímulos da honra!

Muitas almas grandes há no Pará; há peitos generosos, espíritos nobres, mas não applicão os meios para o seu desenvolvimento. Respirar ares sadios influe principalmente na perfeição da saúde: são mais saos aquelles ares que se-modificão com a temperatura com a distancia do Equinocio: o desembaraço das faculdades intellectuaes anda ordinariamente a pár do das corpóreas: conclui pois, Amigo, se-convêm ou não afastarmo-nos por algum tempo dos ares pátrios, e entretanto ficai advertido de que se o vasto Imperio do Brasil todo elle é um tesouro; porém está oculto; é preciso pôr toda a diligencia para o-descobrir.

Em 1615, estando já ratificada a Paz de Maranhão com a França por meio dos Capitães d’ambas as Nações, Jeronimo d’Albuquerque, e Mr. Ravardiere, foi nomeado Francisco Caldeira de Castel-branco com a Patente de Capitão Mór para descobrir o Pará, de que Ravardiere tinha dado bastantes informações. Acompanhado de duzentos Soldados, e mais provimentos para tal empreza, entre este Chefe com a sua formidável Armada, composta de tres vazos, pela Barra de Seperará (hoje a da nossa Cidade), tendo embarcado em Maranhão em Novembro; e sem a menor resistência dos Naturaes e seu grande Exercito desembarca do dia 3 de Desembro do mesmo anno.

Jámais os Tapuias Paraenses, aliás bellicosos, tinhão visto Frota mais considerável, nem Exercito mais temível… Um patacho, um caravelão, e uma lancha, carregados todos de duzentos homens, tudo isto faz depor aos Tapuias o seu fervor, e sucumbindo ao terror, considerão desde então os Portuguezes, como homens d’outro Mundo.

Não podia oferecer-se ao Grande Caldeira ocasião  mais favorável para avançar nos seus projectos: mas deixa em distancia de sete léguas do lugar, que escolheo para o seu estabelecimento, a Ilha do Sol [baía do Sol, em Mosqueiro], cuja amenidade oferece o maior cómmodo para a fundação d’uma cidade: navega alguns dias pelo Guajará; retrocede, quer somente aproveitar-se da frouxidão dos Indios: edifica uma Fortaleza: funda a Cidade, à qual dá o nome de Grão-Pará[2] , por uma equivocação, pois supunha, que o Rio, que banha a frente da Cidade, era o Amazonas: e d’êsta sorte deixa-a no mesmo lugar, em que hoje está, com a invocação de Nossa Sênhora de Belém, e dado-lhe o titulo de Cabeça da feliz Lusitania.

O pantanoso do terreno, e a sua irregularidade para se defender, não fazem impressão ao ânimo d’este Heróe, que tudo mede pelas forças do seu espírito, não se lembrando com tudo, que não é mais respeitável um General, quando esforçado, que quando prudente. Funda Francisco Caldeira a Cidade em uma Peninsula, um gráo e trinta e cinco minutos ao Sul da linha: fortifica-se n’élla: promove o seu adiantamento: e ao mesmo tempo que não socega com as continuadas guerras com os Tapuias das Povoações amais distantes, não atende ao fim principal das suas fadigas, contentando-se com ter fundado uma Colonia para monumentos da sua fama.

Não intento deslustrar a memória de tão grande Heróe, quando não se lhe podem negar encómios pelo fervor de seu espirito, e esforço de seu braço: mas não posso deixar de notar, que elle se contentasse com os primeiros lances, e nada mais emprehendesse. A frouxidão, que se apossou do seu espirito para não olhar para o publico com a perpicacia, com que devia atender a infância de um Povo, que elle dominava, deo lugar a frustrar-se todas as esperanças de um Grande Heróe, achando-se preso por um Povo sublevado, e obrigado, á vista dum punhal, a meter os pés nos grilhões, pela inconsideração de não castigar a seu Sobrinho Antonio Cabral, aleivoso assassino do valente Alvaro Neto. Perdeo-se, por atender aos impulsos do sangue; não foi magnanimo.

O tempo passa, as famílias propagão-se, a População aumenta-se, aparecem novos edifícios, porém se trata de viver. No fim de dezoito annos, em 1633, é que Francisco Coelho, primeiro Governador do Estado do Maranhão, e Pará, atendendo a especiosidade da nossa Capitania, intenta edificar nova Capital. Seu filho, Feliciano Coelho, é por elle nomeado para ésta empreza, parte este para o Pará, munido de todos os seus poderes; mas que!… A sua actividade, o seu zelo, e a sua perícia, de nada serve: os Paraenses não querem deixar suas palhoças: assentão, que perdendo-as, perdem um grande tesouro, que jamais poderão recuperar em outra parte, e sem atender aos futuros interesses, querem antes ir vivendo sem incommodos, nem fadigas, ainda que se privem de grandes lucros, que d’estas sem proporção se podessem seguir.

Arrimados a este borsão, ao systema territorial, aproveitão-se os primeiros povoadores do Pará da situação das suas terras pelas suas vizinhanças; pois confiando esta Capitania pelo Norte de Cayenna, pelo Noroeste com Suriname, a Leste com o Maranhão, a Leste-oeste, subindo pelo Amazonas, com o Perú, querem antes atribuir-se a vanglória de ter navegado a vasta extensão do seu Paiz, estabelecendo-se nos vastos desertos, onde se intitulem senhores de muitas léguas de terras incultas, do que fazer florescer a sua Capital, cuja eterna infância jamais póde assegurar a vida, a fazenda dos seus Colonos.

É certo, que a extensão de muitas de nossas Villas não cede a de muitas Cidades da Europa: Camutá, Santarém, Óbidos, e Barcellos em nada são inferiores a CastelloBranco, Leiria e Coimbra: e se a Parthenple ilustra o Virgiliano sepulchro; monumento de maior glória para Camutá é guardar o deposito das cinzas de Francisco Coelho, primeiro Governador do Estado Unido Maragnense, e Paraénse, Heróe abalisado, de quem o Pará se deve sempre lembrar com gratidão. Do mesmo modo a nossa Capital não é com efeito desprezível: ella ainda que não ofereça ao longe uma deleitável perspectiva, com tudo excita o prazer, a quem se acha dentro d’ella [3]. A magnificência dos nossos Templos [4] das nossas Praças [5] , relação muito a formosura da nossa Cidade.

Não há com efeito essa prodigiosa quantidade de Templos, e Praças, que vemos nas Cidades, que são muito antigas; porém o menor número das nossas é superior ao maior de algumas da Europa, principalmente pela sua belleza.

As nossas ruas são formosas [6]; e o nosso Passeio Público talvez não seja inferior á Togleria di Napoli, pois participando do melhor de Veneza, e sendo as suas ruas espaçosas, formada de copados arvoredos, muito direitas e conduzidas desde o interior da Cidade até uma longa distancia dos seus subúrbios acompanhadas por ambos os lados de rios, se bem não tão caudalosos como os de Veneza, vem d’ésta forma a ser um obtecto muito aprazível. Quem diria, Amigo, que o pirí[7] em outro tempo navegável, hoje tinha de ser terra muito firme? A actividade d’alguns dos nossos generaes deve-se uma obra tao magnifica.

Que satisfação, meu Amigo, não experimenta qualquer n’este Passeio, quer seja amante do prazer, quer amigo da contemplação? A longa distancia, que media entre umas e outras estradas, deixa vastos terrenos em que se divisão pelas Quintas, deliciosos Jardins e vistosos Pomares [8] com edifícios magníficos. Os proprietarios sentem os efeitos da sua industria com os interesses acompanhados do prazer; e os viandantes deleitão a sua vista, e nutrem o seu espirito com a contemplação de objectos tão aprazíveis.

Notai porem que os que assim aformeiseião a nossa Cidade não tem n’ella o seu berço. Que vexame não deve ser para nós ver, que vem gentes d’outros Paizes mostrar-nos os diferentes modos, porque a natureza prodigalisou connosco os seus benefícios? E se nós nos aproveitássemos d’elles, como não estaria hoje florente o nosso Paiz? Deu-nos a Natureza produções especiosas, deliciosos fructos [9], um Paiz susceptivel de toda a cultura; mas elle não floresce, a nossa felicidade está emprazada; e a que causa se poderá atribuir isto? Conhecem outros, quanto a natureza se mostra pródiga connosco e só nós não o havemos conhecer? Se nós tivéssemos adquirido luzes, por cujo meio nos aproveitássemos das riquezas do nosso Paiz: se tendo frequentando os Sabios, soubéssemos promover a indústria dos Póvos; se nós mesmos enfim soubéssemos pôr em exercício a nossa aptidão, como não floresceria o nosso Paiz? É o sistema adoptado pelos nossos Avós a causa de tão terríveis efeitos: o horror que tiverão sempre os Paraenses a deixar sair seus filhos do seu sio, eis o princípio fundamental do seu atrazamento.

A indolência, que todos reconhecem ser propriedade nossa, não provém doutra causa, senão da rudeza, em que vivemos: no Pará muitos há, cujos espíritos se fossem cultivados, terião de florescer muito. De que serve, que um rapaz muito activo suceda no regime de sua casa a seu pai, se elle começando a sua carreira por casar, gasta toda a vida em plantar mandioca, arroz, milho e algodão, sem adiantar mais cousa alguma? Nasce, vive e morre estupido: de que serve tal actividade? Ficão os filhos, únicos frutos das suas diligencias; e tem outra semelhante vida; e assim sucedem uma série de activos inúteis, e prevalece a indolência.

Que fazem esses activos, quando por ocasião de cultivar as suas terras, a cada passo encontrarão preciosas madeiras [10] que forma o plano dos nossos bosques? Quanto não deve ser louvado João Antonio Martins pelo bom uso, que faz d’ellas [11] porque razão outros, que possão ter Navios no mar, não hão de seguir o exemplo? Desgraça certamente lamentável é a nossa que podendo aumentar o nosso paiz, servindo-nos das suas produções, por nossa negligencia o diminuímos, queimando as suas riquezas. Sendo tão vasta a extensão dos nossos bosques porque razão servimo-nos das andirobeiras para lenha? [12] Não posso deixar de atribuir ao systema do Paiz, o emprazamento da nossa felicidade: em um Paiz tão abundante, como é o nosso, não era de temer, que houvesse falta de mantimento mas que aproveita haver nos nossos matos tanta caça? [13] Abundam os nossos rios de excelente peixe [14] mas por ventura abunda de peixe a Cidade? Como não aparecem essas aves [15] que abrangem o numeroso concurso de habitadores das arvores, que enchem todo o nosso vasto Paiz? Nas vendas apparece apenas um pouco de carne sêcca, pirarucu, e peixeboi [16] e de resto ainda que haja dinheiro, não há o que comer.

Deis-ahí, meu Amigo, o resultado do nosso abandono: os Tapuios só querem ter dinheiro, quanto baste para beber caxaça: os Pretos só querem dormir; e os Brancos, vexados de exercer uma profissão desairosa, deixão só para os Roceiros, todas essas delicias que o Paiz occulta. Se os officios de caçador e pescador não fossem reputados incompatíveis com a nobreza dos Nacionaes, a Cidade seria mais farta, e o peixe não custaria tão caro [17] Com razão deve ser louvado João da Costa [18] que não se embaraçando com esse modo de pensar, todos os annos regala a Cidade com excelente peixe: Pescador tem sido muita gente boa, e S. Pedro se honrou com essa profissão.

Decorrem os annos porem nas ideias não há mudança: os pais transmitem aos filhos as mesmas maneiras de pensar; e aquillo mesmo que há de bom, cede ao poder do tempo, e d’esse modo em vez de prosperarmos, infelicitamo-nos cada vez mais. Quem diria, o Pará, reputando-se uma ilustre Academia, vinte annos atraz, tinha de chegar ao lastimoso estado, a que se acha reduzido? Morrerão os Veigas, Farias, Monteiros, e Silvas: ausentão-se os Baptistas, e Andrades: encanece-o o grande Lima [19] e os magestoso Templo de Sciencias, ainda que tem muitas colunnas, com tudo está principalmente apoiado sobre quatro, Moraes, Baena, Seixas, e Maia. [20]

A transcedencia do nosso systema se perpetúa, e desenvolvendo-se do berço á velhice, mil vezes lamento a nossa desgraça na consideração de não attendermos ao Evangelho, que nos clama: Non est prospheta sine honore, nisi is pátria sua, et in domo sua.

Meu Amigo, o systema territorial é a causa de tantos danos: deixem os nossos Patrícios os bafos das mais; saião do Pará, viagem aprendão, saibão distinguir o bem do mal, conheção a virtude. Não é só nas Aldeas, e nos desertos da Arabia, que se faz penitencia: nas Cortes dos herodes, e nos Palacios dos neros também houve Santos, bem como no Collegio Apostolico um Judas, e no mesmo Ceo um Lucifer.

Que interessa a inação d’um General, que espera dias e dias, e sempre teme atacar o inimigo? Insomnes e fatigados os Soldados deixão preocupar-se também o susto; são atacados da epidemia, desertão, morrem, e por fim, fica destroçado o exercito sem ação. Eis o resultado da indolência, que nos é própria, a maior parte nossa, atacada na nossa moléstia, não somos capazes de emprehender cousa alguma grande, outros de nós, se emprehendemos, e se nos poem algum obstáculo, immediatamente desistimos da empreza.

Eu sinto intimamente ver, que no Pará perdem-se muitos rapazes, quem se cultivassem as suas faculdades, pisão concorrer muito para a felicidade de sua Pátria. È moléstia, ainda tem cura, vão tomar ares para fora, os da Europa são mais sadios, venhão a Portugal, Inglaterra, Hespanha, Alemanha, Italia ou França: venhão instruir-se para saberem, como hão de utilisar a sai, aos seus, á Pátria, á Nação, venham ao mesmo tempo recrear-se.

Não se pode duvidar que a Europa offerece aos olhos dos homens as cousas mais admiraveis e aos seus gostos os objetos mais deleitáveis. Haverá melhor estado que poder o Homem saborear suas fadigas com o gozo dos prazeres? Sentem os nossos Patrícios deixar o seio de suas famílias, porem não ficará tal perda sobejamente ressarcida com o gozo das delicias da Europa? Os que tem riquezas, melhor as empregarão nas cousas da Europa? E os que são pobres, nem por isso hão de deixar de passar na Europa tão bem, como no Pará.

Meu Amigo, não posso ouvir dizer aos nossos patrícios, que por falta de dinheiro não se atrevem a sair do Pará: não é este o motivo: a única razão é, porque queremos sempre passar com pompa, e ostentação. Eu vejo em Lisboa muitos da primeira grandeza passarem com moderação: Valeré, esse General, cuja memoria é illustre, caminhava a pe de Elvas para Lisboa: eu tenho carruagem ás minhas ordens, mas nunca me servi d’ellas: vou de casa, que é na rua do Sol junto ao Campo d’Ourique, em distancia de mais de uma légua ao Beato Antonio, e volto para ella, prolongando a jornada por diferentes caminhos: vou ao Campo Grande, quasi uma légua, volto por Telheiras, atravesso Campolide, e Palhavá, e depois d’esta jornada faria outra se preciso fosse, e em fim corro muita parte de Lisboa, gastando quatro e cinco horas a andar, sem tomar assento em parte alguma, ao mesmo tempo que alguns achão ser a minha casa muito longe do meio do Salitre. Isto porém sem precisão; pelo gosto somente de ver, e examinar alguma cousa de Lisboa. Eis ahí como são diferentes os systemas de vida, que cadaúm quer adoptar.

Ora se aquelles dos nossos patrícios, que desejarem felicitar-se, e felicitar algum dia a sua Pátria, levados dos sentimentos da honra, e da glóra, vierem seguir o Curso Mathemático na Academia de Lisboa (gastão somente três annos, no fim d’elles sentão praça de Voluntarios na Marinha, embarcão, começão logo a ganhar um Soldo tão avantajado, como já notei a respeito do Aranha) que avultados interesses não terão eles em uma carreira tão gloriosa? Quem se propõe á vida marítima, deve estudar Mathemática antes em Lisboa, que em Coimbra: porque, além de não ter já a Formatura dos antigos privilégios, em Lisboa gastão-se so três annos, e fazem-se muito menos despezas, em vista das melhores comodidades para a vida humana.

Porem, como nem todos podem seguir uma só carreira; em que os nossos Patrícios devem cuidar, é na sua instrução. Frequentar os Sabios em qualquer parte; adquirir conhecimentos de literatura, eis o ponto, em que devemos fixar nossas vistas. O nosso Paiz há de prosperar á vista dos Sabios: nós seremos felizes, se soubermos promover a nossa felicidade.

Vós, por tanto, meu Amigo, como abonador das emprezas honrozas, e Pregador da sã verdade, chamai aos nossos Patrícios, a fim de que despertem do lethargo, e que jazem: certificai-lhes, que, sendo a manifestação da Glória de Deos o ultimo fim do homem, nada mais devem buscar, senão o que for de serviço do seo Creador; e que tendo eles estas intenções somente, Deos não lhes há de faltar com o cumprimento dos seus desejos: Quarite primum regnum Dei, et, haec omnia adjicientur vobis.

Finalmente a falta do dinheiro não lhes sirva d’obstáculo: adquirão proteções: venção essas dificuldades: fação diligencia, diligencia, d’esta maneira se consegue tudo.


[1] João Antonio Rodrigues Martins é o primeiro filho do Pará, que tem subido aos mais eminente grão d’elevação. Viajou pela América Portugueza, e Franceza; esteve em Portugal; e hoje vê-se condecorado com o Posto de Bigadeiro, e Commenda da Ordem de Christo. Joaquim Manoel Pereira Pinto surcou no tempo do imortal Coutinho a Costa de Cayenna, onde aprezou algumas embarcações aos Francezes: achou-se na Conquista d’ésta Colonia, correo a America Portugueza; e com a mesma brevidade, que foi elevado a Brigadeiro, morreo no começo da sua virilidade.

Francisco Ricardo de Sousa Leal Aranha offereceo-se para a Conquista de Cayenna, e estribado em seu merecimento foi marchando em Postos, e hoje é Capitão de Linha, e Ajudante d’Ordens do Estado.

Seu irmão, Germano Maximo de Sousa Leal Aranha esteve muito tempo em qualidade de Capellão da Cathedral, até que veio para Lisboa, e achando todo o acolhimento na bondade do Illustre Desembargador José Bonifácio d’Andrada, tem feito os rápidos progressos n’ésta carta mencionados; obra ésta de cuja execução forão instrumentos o referido Francisco Ricardo, e o benemérito Magistrado do Pará José Ricardo d’Andrada.

[2] Grão-Pará é a versão pouco fiel do termo Paranáuassú (mar grande), que os Tapuias dão geralmente a todo o rio grande. O que banha a frente da Cidade, chama-se Guajará, soberbo pelas águas de confluência dos três rios Guamá, Acará e Mojú.

[3] O pentagono, que se apresenta a sua frente, formado pelo Reducto de Santo Antonio; pelo Fortim das Mercês; pelo Castello, Carmo, e Porto do Sal, é cousa bem vistosa. As ruas mui aceiadas, e muito planas, estimulão ao prazer do passeio, e é quasi planície uma única subida do largo das Mercês para a Rua de Santo Antonio. Os edifícios não muito soberbos pela sua elevação, nem humildes demais pela sua baixeza, guardando uma suficiente proporção, dão bem a demostrar a grave seriedade dos seus moradores: e estando hoje quasi esquecida a Architectura dos antiquários Paraenses, já nas Salas das visitas não se divisão as escápolas, nem nas imediatas aparecem no meio dos esteios.

O esmero dos antigos Paraenses na construção dos seus edifícios consistia em fazer grandes concavidades, em forma de nichos, para colocarem as Imagens Sagradas; em pôr escapolas, ou certos pedaços de madeira nas paredes, para atar n’ellas, e nos esteios, que ficão no meio das casas, as redes, a fim de acomodar-se muitas na mesma casa. Todos sabem que as macas no Brasil se chamão redes.

[4] Os Templos são magníficos, e a Cathedral é talvez a mais magestosa não só do Brasil, mas também da Europa, pela sua nobilíssima Architectura. A Sede Episcopal, servida de seis Conegos Presbiteros, quatro Diáconos, e quatro Subdiáconos, e de quatro Dignidades, Arcediago, que é o Presidente do cabido, Arcipreste, Chantre, e Mestre-Escolla, influe de maneira na pratica do Curso Sagrado, que me atrevo a dizer, que talvez sejão muito poucas as Cathedrais, que entendam tanto de Liturgia como a do Pará, ao menos é certo que nenhum outro Clero, dos que tenho visto apresenta um exterior tão grave, como o do Pará, onde nunca se vê um Clerigo com outro vestido, que não seja o talar.

Há com efeito alguns Templos, que por muito velhos menos atenção merecem, como são: a Misericordia velha, que em outro tempo foi freguesia do Bairro da Campina, a Igreja da Senhora do Rosario; e a do Collegio dos Jesuitas: porem são magnificas as Igrejas de S. João, de Santa Anna, e os Conventos de Santo Antonio dos Capuchos, dos Carmelitas Descalços e das Mercês: estes três Conventos edificados á borda do mar, respirão sumptuosidade.

O Templo da Senhora de Nazareth, distante da Cidade um quarto de légua, e para onde se conduz a excelente estrada (á qual elle dá o nome), formada de casas, e arvoredos, é formoso: e a Igreja do Espirito Santo, edificada sobre um elevado Outeirinho, e concluída pelo zelo do infatigável Seabra, cujo Nome durará para sempre, é a cousa mais prasenteira, que dar-se pode, não só pela amenidade do sítio, mas também por ser a m eta, para onde se dirigem todas as ruas, travessas e passeios da Cidade.

Esta Igreja, supõe-se, erigir-se-há cedo em terceira Parochia, pois hoje são já muito extensas as duas dos dois Bairros, de que consta a Cidade, denominados da Cidade, cuja Freguezia é a da Sé; e a da Campina, cuja Matriz é a Igreja de Santa Anna.

[5] Largo do Palacio nada inveja ao Rocio de Lisboa; pois que sendo fechado em quadratura por belos edifícios, ao seu lado do Norte se admira o delicioso jardim, cercado d’excellentes grades, com um magestoso aqueducto, e onde se dão plantas medicinaes a quem as pede. O Palácio do Governo, edificado pelo Capitão General d’esse Estado, Fernando da Costa d’Ataíde Teive, para habitação do seu Successor Francisco Xavier, é obra magestosa: n’elle estão os Tribunaes das Juntas da Fazenda, e Justiça; o Erario; e nos fundos, pela parte da Igreja de S. João Batista, um grande quintal, com excelente pomar, e horta.

Este Palacio fica ao lado Oriental, e do lado oposto fica a Ribeira, vulgo Casa das Canoas, onde estão os Armazéns dos provimentos do Exército, e Marinha, administrados por um Almoxerife, e regidos pelo Intendente da Marinha, que é hoje o III. Alexandre de Sousa Malheiros, cuja actividade e prudencia tem dado grave tom ao regime marítimo. D’este mesmo lado da Ribeira está o edifico dos extinctos Jesuitas, o qual é hoje dividido em quatro partes; pela da praia, algum tempo Alfandega, hoje é o Armazem Real, correndo do Nascente ao Poente é o Seminario o qual, dobrando para Sul, comunica com o Paço Episcopal, Obra magestosa, fronteira á Cathedral, e a cujo lado Oriental fica a Igreja dos Jesuítas, que chamão o Collegio, onde hoje está a Confraria da Misericordia.

Todas as Praças são vistosas, tanto pela sua extensão, como pela nobreza dos seus edifícios: são dignas de menção a das Mercês, de Santo Antonio, do Carmo, da Sé, conservando todavia o título de Largos.

A Praça das Mercês era antigamente a do Mercado, em nada inferior á da Figueira de Lisboa: n’ella se vião a vender carnes, peixes e de todas as qualidades de fructas, e bebidas feitas d’ellas, em certas casinholas, cobertas, sem paredes, a que chamão Quitandas. O Exmo. D. Francisco de Sousa Coutinho, que sempre attendeo á boa policia da Cidade, mudou-as para a borda do mar na frente da rua da praia. Mandou elle tirar as telhas, para aliviar o pêso; e sem desprezar o mais pequeno pedaço de madeira, transplantou essa extensão de Quitandas para o lugar, em que hoje estão, sendo elle o primeiro, que começou a levantai-as a fim de animar o Povo com o seu exemplo a por em execução uma empresa, que parecia dificultosa. Conservão-se hoje no mesmo estado; e as Quitandeiras (todas Pretas) pagão certo rendimento mensal ao Senado, segundo a quantidade das Quitandas, que occupão.

O Largo da Sé é tanto mais magestoso, quanto mais nobres são os edifícios que o cercão. A Cathedral, o Paço Episcopal, o Castello, dois Hospitaes, um Real, outro dos Pobres, vulgo da Charidade e três grandes ruas, que n’elle desembocão, ennobrecem-o muito.

A construção do Hospital da Charidade deve-se ao zelo do infatigável Exm. D. Fr. Caetano Brandão. Este venerado Prelado saía á rua com os Seminaristas, e entoando devotas Antiphonas, pedia escolas edificando o povo com a manifestação das suas virtudes. A Charidade dos Fieis aumentou as rendas d’esta casa de maneira, que em poucos annos veio a ser a mais poderosa d’aquelle Estado: é proprietária de muitas moradas de casas na Cidade, muitas fazendas fora d’ella, e particularmente da Ilha de caviana, que é a maior de todas as compreendidas na Ilha grande de Joannes, vulgo Marajó. Conservou-se este Hospital no Poder Ecclesiástico por algum tempo; até que a Meza da Misericordia resolvendo as ordenações do Reino, sujeitou-o a sua jurisdição em que hoje persevera.

[6] A planície e a limpeza faz na verdade formosas todas as ruas do Pará, ao mesmo tempo que as principaes, como a da Praia; a de Santo António; a da Cadêa; do Açougue: dos Cavaleiros; do Espírito Santo; a Formosa, vulgo do Paixão; e a do Norte, são magestosas não só pelo seu comprimento, e largura, mas também pela nobreza dos seus edifícios. De todas porem a mais notável é a do Norte, tanto porque está á borda do mar, como porque se conduz em linha sempre muito recta desde o Castello, onde começa, até o Convento do Carmo, onde acaba.

[7] Pirí chamão os Naturaes ás terras alagadas. Até o governo do Exm. D. Marcos de Noronha, Conde d’Arcos, podia navegar-se em montarias (Canoa pequena sem quilha) desde o Arsenal até ao Largo do Palacio: este Governador porem aplicado totalmente á felicidade dos Povos, no curto espaço de três annos, que durou o seu governo, augmentou muito a Cidade do Pará, fazendo entulhar a vasta extensão do pirí, e formando n’elle belíssimas ruas de arvoredos, excelente passeio, que os Naturaes chamão as estradas. As ruas tem um declívio para os lados, a fim de lançarem as aguas das chuvas para as valas, que sendo navegadas pelas montarias, merecem bem o nome de rios.

É na verdade este passeio objeto assas deleitável: elle é unido á Cidade em igual extensão á mesma Cidade; e porque o pentagono que á frente d’ella apresenta, aos olhos d’um topographo menos rigoroso é uma curva; correspondendo á esta pela parte oposta á estrada de S. José, que se estende desde as Obras do Recolhimento até ao Largo da Polvora, Têrmo da Cidade pelo Norte, vem o Passeio fazer com a Cidade um perfeito circulo, cujo diâmetro é a longa estrada, que se conduz em linha recta desde o recolhimento até mesmo ao Largo da Polvora. Todas as estradas são famosas, porém esta é mais, pois ainda que sua formatura corresponda ás outras, com tudo, extendendo-se em linha muito recta desde o recolhimento até a Igreja do espírito santo, e d’ahí com muita pouca declinação até o Largo da Polvora, é o centro, para onde se conduzem todas as mais. Cinco estradas principaes saem do interior da Cidade para o Passeio; e entre ellas é a mais notável, a que vai do Jardim do Largo do Palacio em linha recta até a Igreja de São José, e cortando a do Centro, forma com ella uma bem feita cruz, que é defendida pela Guarda, chamada de Cancellas, a quela vigia continuamente o mesmo lugar, em que se encrusão as duas estradas. Uma porta levadiça, junto ás Obras do Recolhimento á entrada do canal, que leva as aguas aos rios, que banhão as beiras das estradas, impede as enchentes alagarem ás Quintas, Hortas, e Pomares, que cercão as mesmas estradas; mas apezar deste obstáculo, as águas da chuva, e ainda as que entrão a furto pelo canal, tornão as valas capazes da navegação das montarias, que surgindo, além da ponte d’Alfama, vão ancorar ás Cancellas.

Á boca da longa estrada que é o diamentro da Cidade, e Passeio, divisão-se algumas paredes principiadas, que recordão aos Paraenses a saudosa memoria do venerável Bispo D. frei Caetano Brandão. Este Pastor bom, buscando a felicidade das suas ovelhas, quis ahi fundar um Recolhimento, ou Convento de Freiras mas a sua retirada para o Arcebispado de Braga fez, com que esta Obra não fosse concluída: e o lugar, que tinha de ser dedicado á habitação das Virgens consagradas ao Senhor, veio a ser mais que profano, pelo estabelecimento do Açougue, pertencente á Fazenda R., que n’elle se tem conservado até hoje. Há também outro Açougue da marchantaria, o qual fica na rua, a que dá o nome, junto ao Convento das mercês. Este Convento, pela extincção dos seus Frades, passou a ser Alfandega, e Quartel do regimento d’Extremoz, conhecido pelo nome de Chicorros. Além d’este há outro no fundo da Cidade e principio do Passeio, onde está aquartelado o Corpo de Tropa, que foi de Pernambuco para a conquista de Cayenna, mas que por mui fortes razões não se achou n’essa acção; e também o Regimento, denominado da Cidade, por ser ahi que elle se formalisou. É conhecido este Aquartelamento pelo nome de Quarteis da Cidade. Há mais outro nos fundos do Passeio, onde se acha o Corpo d’Artilheria: é conhecido com o título de S. José, que dá o nome á famosa estrada, de que já se fez menção. Tal é a Guarnição da Cidade composta de dois regimentos de Milicias, conhecidos com o nome de Auxiliares da Cidade, e da Campina, e um da Chuçadeira. Tem a Cidade quatro Fortalezas, a Barra, que defende a sua entrada, bem municiada de gente, e peças, feitas sobre o mar, e distante da terra; o Reducto, junto ao Convento de Santo Antonio; o Fortim, junto ao das Mercês; e o Castello, sobre o mar, unido porém á Cidade, obra defensável pela mesma natureza, por ser alto morro. Também hána Cidade um corpo inútil de Tropa de Pretos, conhecido com o nome de Bombeiros, e em Portugal, dos Henriques. Por todos os rios e villas há Milicianos; e algumas tem alem disso Chuçadeiros. As Villas de Macapá e Chaves tem Tropa de Linha, Regimento denominado de Macapá. O Marajó tem uma Legião, composta de Cavalleria e Infateria; e comandada por um Coronel, que é hoje o mesmo Inspector dessa Ilha, Antonio Joaquim de Barros, cuja actividadese tem distinguido muito no governo d’ella.

[8] As Quintas (os Naturaes chamão Rocinhas, com a diferença das que ficão fora da Cidade, as quaes dão o nome de roças ou sítios) dão muito interesse, não só pelas hortaliças, mas também pelas outras produções, especialmente o Girofle, e a Canella. A Fazenda Real tem grande extensão de terreno plantado de Canelleiras, e que já chegou a lucrar quinze mil cruzados dentro d’hum só anno. Ordinariamente são as Quintas cercadas de páo a pique; outras de muros, e muitas de jasmineiros, planta estimada não só pela sua grande, alva, e odorífera flor chamada jasmim de General, mas também pela sua flexibilidade para os mesmos intreicheiramentos, que em Portugal se fazem do buxo. Note-se com tudo, que a maior parte dos Proprietários das Quintas não são Paraenses.

[9] Não cabe nos estreitos limites de uma Nota dar exacta relação de todas as fructas, de que abunda o Pará; pelo que proponho-me fazer menção das ais ordinárias, limitando-me a descrever as de maior ponderação, devendo notar-se que todos os vocábulos, porque ellas se designarem, acabados em i, ou em u, tem a última carregada, dos que acabão em e, só caffé, e dos acabados em a, só tem a última carregada ananá, arassá, biribá, cará, cutitiribá, itoá, inajá, mucajá, murucujá, piquiá, taperebá, tucumá, uarcá, pataca: todos os mais, bem como os acabados em o, tem a penúltima longa.

São muitas e differentes as maneiras, porque os Naturaes fazem uso das fructas do seu Paiz. Servem-se do uássahí, bacaba e pataoá, depois de reduzidas a vinhos: põe a amolecer em água quente estas fructas, que são graúdas sementes (a que chamão caroço nome especial de algumas), cubertas de certa massa tenra, delgada por extremo, e oleosa sobre a qual está a casca, que é mais compacta e secca: molificada esta massa á força da quentura d’água, amassão-a; e liquidando-a com agua fria, extrahem as fezes por uma peneira (que chamão gurupema, feita de guarumá, certa cana, cuja casca, limpa do amago é semelhante á palhinha de que se fazem os assentos das cadeiras); e d’esta forma é purificado o vinho, que todos bebem com farinha de pao em porção suficiente; e uns além disto com assuçar, outros com sal, porém este é mais usado no vinho de bacaba. D’estes vinhos, nenhum dos quaes tem espirito, nenhum dos quaes tem espirito, o mais usado é o de uássahí, por causa da sua abundancia em todo o anno; tem muita acceitacão e de muitas pessoas e ordinario sustento, principalmente das pobres, a quem a indigencia obriga a saciar se com uma cuia (certa fructa de figura espherica que serrada ao meio, e limpa certa massa inutil, que tem dentro , serve de vazo, para por elle tomar-se toda a qualidade da bebidas: cada metade é uma cuia é o copo do Pará), cheia de meia canada nelle . Na cor differem estes vinhos: o de bacaca, e patoá, é branco: o de uássahí, é rôxo.

As suas arvores assemelhão-se nos braços, por serem palmas:  differencando-se porém no tronco, torna o uássahí a ter dobrada estimação, porque a sua arvore, cortada e partida em quatra achas (que chamão jussára), serve para envarar as paredes de madeira, e para o taboado dos girãos (assim chamão todo o sobrado feito de jussáras. Os Lavradores fazem bastante uso destes sobrados, quer sejão pobres, e neste caso até o mesmo sobrado da casa, em que habitão, é girão: quer sejão ricos, e então para poupar mais despezas, fazem grandes girãos junto aos armazens das suas lavouras, a fim de pôr ao Sol sobre elles as suas colheitas, para d’este modo escaparem ao estrago dos animaes domesticos. Os que são feitos para este fim sómente, chamão-se tendaes). Do muvutí, inajá, mucajá, e tucumá também fazem vinhos: porem deste último mais se usa nos mingaus. Chamão mingua geralmente toda a fructa, que sendo amassada e liquidada com água, ferve-se ao lume: especialemente porem a farinha fervida ao lume em agua e sal: da-se um nome particular a cadaúm, conforme a mistura, que leva e assim diz-se mingau de uássahí, de bacaba, de tucumá, etc. quando além da farinha fervida em água e sal, se lhe ajunta o vinho do uássahí, de bacaba, e tucumá, etc. devendo notar-se que o de tucumá é o mais usado no mingau de arroz e que a farinha de páo, simplesmente com água, sem sal,  e sem ir ao lume, chamão tiquara, e os Tapuios jacúba, caffé ordinário dos Pretos e Tapuios, bem como nos Certões o guaraná é dos Brancos. O minguau é o almoço ordinário dos pobres e crianças, especialmente escravos.

As arvores d’estas quatro fructas há pouco mencionadas, murutí, inajá, mucajá, e tucumá são palmeiras e ainda que inúteis, com tudo nos braços do muritizeiro os rapazes fazem gaiolas e ainda alguns anciãos servem-se deles para as paredes divisórias dos seus gabinetes. A moleza demasiada da sua substancia, muita sujeita á corrupção, torna o muruti incapaz d’obra alguma, motivo porque os Naturaes não fazem uso do mututi, que, sendo madeira muito mais forte e dura que o murutí, é com tudo semelhante ao pinho europeu.

Algumas peras de conde tenho comido, que me tem sabido a mangaba. Esta é a fructa mais deliciosa do Pará, no meu conceito, a sua doçura, a falta de semente, a massa bastantemente oleosa, a casca mais tenra, e enfim a sua mediana grandeza, como uma pera de conde, tudo isso excita muito o apetite.

O cutitiribá, diverso da mangaba, somente no saber e demasiada secura da sua massa, é excelente mas requer grande cuidado a fim de não fazer engasgar pela falta de saliva. A guaiaba, semelhante ao figo na multiplicidade das sementes, mas diverso pela solidez de sua massa, é o pomo delicioso dos rapazes, e d’ella fabricão-se os doces de caixa, que se transportarão á Europa com o nome de guaiabada. O arassá é uma espécie de guaiaba, porém muito azeda. Do cupuassú, cajú e taperebá fazem-se também preciosos vinhos, sendo que este ultimo excita o apetite da comida.

O bacate (outros dizem abacate) semelhante a uma pequena garrafa, com bojo, e pescoço, tem uma grande semente, mas apezar disso é bastante a sua massa, e tem excelente sabor, especialmente comido com assucar, é oleoso, e diz-se ser aphrodisiaco.

O bacorí, pela sua grande casca e semente, apezar de ser saborisissimo, não deve ser muito apetecível porque apenas tem uma muito delgada massa, que cobre as sementes. O mesmo sucede a respeito do umarí e piquiá.

O ananá é das melhores fructas, não só pelo sabor doce, mas também por ser a de maior massa, pois sendo da grandeza de uma pequena melancia, tirada a casca, tudo o mais é comestível.

A banana /mais conhecida no Pará como o nome de pacóva) corresponde ao uássahí na sua abundancia: apezar disto não se lhe pode negar o seu merecimento; e se os Europeos tivessem bananas, não importarião queijos ao Brasil, porque a pacóva com queijo é um manjar muito delicioso. É a pacóva o pão dos Escravos em Cayenna, e no Pará usa-se d’ella crua, assada e cosida. Assada, com assucar, e com manteiga do Reino (digo assim para diferenças das manteigas de tartaruga, e peixeboi, de que no Pará se faz uso, não só nos candieiros, mas também nas panellas: é a da tartaruga com especialidade o tempero de todas as viandas) é excelente doce, feito de repente, cozida porém, e amassada em água é vinho primoroso. Há differentes espécies de pacóvas, e concordando todas sem er compridas, como os paios, as que tem o maior comprimento, chamão-se especial e simplesmente pacóvas: as que tem o menor, pacóva de S. Thomé, e as que guardão a mediania, pacóvas de Cayenna, por serem indígenas d’este Paiz.

A batata, macaxeira e cará são raízes doces, motivo porque não se comem com carne.

O copioso licor, que as canas, (nome particular ás d’assucar no Pará) sendo esmagadas nos engenhos expellem, é o que se chama garápa, que sendo bebida em quantidade promove a disenteria. Em quanto é doce, sendo posta a ferver ao lume até certo ponto, , fica mel (o qual em Portugal se chama melaço, para a diferença do mel de abelha, que no Pará se chama mel de páo): este se reduz a assucar, tendo passado por outros pontos e vazilhas. Querendo porém fazer-se aguardente, fica a garápa a azedar por oito a dez dias, e depois vai aos alambiques, os quaes postos ao lume, destilão um liquido claro, e espirituoso, que chamão caxaça, agoardente de muita estimação e interesse para o Estado, pela recompensa da falta do vinho Europeo.

A caxaça, destillada novamente com herva-doce chama-se aguardente de aniz, por ficar algum tanto da cor do anil.

As utilidades da cana, o mel, a assucar, caxaça, e aniz abrangem todo o systema do grande commercio do Pará: a grande exportação para outros Estados, especialmente o consumo no mesmo Paiz fazem haver falta na mesma abundancia, com particularidade da caxaça: os Pretos e Tapuias são verdadeiros toneis onde se depositão todos os annos muitos mil almudes de caxaça.

O cacáo, ramo principal do commercio do Pará com a Europa, é de figura oval, do comprimento quasi d’um palmo: a casca de substancia muito compacta e grossa, mas vidrosa e fácil de quebrar-se; e um agregado de sementes cobertas de certa massa muito delgada e aquosa, ei-ahi o que constitui a sua essência. Faz-se d’elle excelente vinho, amassando-se as sementes (como já notei a respeito de todos os mais vinhos, os quaes nunca são espirituosos, por não serem fermentados, e quando sucede estarem azedos, não os bebem, nem continuão em mais operações): poem-nas depois a secar ao Sol, e então é que entrão em commercio. Também fazem d’elle excelente chocolate.

A sua árvore (cacoeiro) seria excelente lenha, por ser muito sécca, se disso não resultasse a estagnação do cmmercio; por cujo motivo não se aplica a esse fim: com tudo dois pedacinhos d’ella, esfregados um no outro tem a propriedade de ferir lume.

A cinza da casca da fruta de cacao serve para fazer sabão; porem não é tão usada como a da árvore chamada Chiriubeira.

Não descrevo outras fructas ordinárias, ou por serem de menor ponderação, com o abió, a jaca, manga, ata, o jambo, a pupunha, e outras, ou por muito conhecidas na Europa, como côco, a laranja, o limão, melão, melancia, abobra, etc.: mas posso falar da mandióca, fazendo uma exacta descripção de todas as utilidades, que os Naturaes tirão d’ella.

Um arbusto chamado maniva, cujas poucas folhas soccadas ao pilão (gral muito grande feito de madeira, onde os Naturaes pisão, ou sóccão o arroz, caffé, etc), e cozidas com carne ou peixe, e ordinariamente com pés de vacca, tem o nome de manissóba, eis o que produz a raiz tão conhecida com o nome de mandióca, que tendo ordinariamente o comprimento e grossura do braço d’um homem gordo.

Propondo-se os Roceiros (nome que no Pará dá-se aos Lavradores; bem como em Pernambuco matulos; na Bahia, taboréos; em Coimbra, lapónios) a fazer farinha arrancão a mandióca poe-na de molho em poços por oito ou quatro dias, até ficar muito molle. Tira-se-lhe a casca, que é inútil, amassão-a e estando ligada a uma só massa, espremem-a em tipitis (uma espécie de sacco comprido, redondo e meio palmo de diâmetro, feito de guaramá, de que já falei quando tratei dos gurupémas: o seu tecido é quasi igual ao d’estas, e diferençando-se em não ter buracos, a fim de não cahir a massa para os lados, tem a propriedade da elasticidade, para que comprimindo-se e dilatando-se, faça expelir o licor, de que abunda mesma massa): e depois de ter lançado todo o líquido, que tinha, e inteiramente sécca, passão-a por grandes gurupemas, a fim de purifica-la de alguns pedaços duros vindo d’esta maneira a ficar semelhante ao trigo moído. Então é que a lanção nos fornos, abertos por baixo para conservarem lume, e descobertos por sima, e por conseguinte totalmente diversos dos de pão da Europa: e mexendo-a cuidadosamente com o rudo (remo cuja pá é posta transversalmente), deste modo se vai endurecendo para uma multiplicidade de grãos, em cujo agregado consiste o pão do Pará, onde é sempre conhecido com o nome de farinha d’água; para a distinção do pão de trigo, ao qual reservão especialmente o nome de pão. Tal é o modo de fabricar a farinha d’água, que, não entrando em commercio marítimo, é o pão de toda a qualidade de pessoas no Pará, apezar de provocar muito a azia, como eu o experimentei: a sua grande quantidade consome-se toda no Paiz, e só exporta a farinha de Tapioca, e a sécca, tão conhecida em Portugal com o nome de farinha de páo. E’sta) no Pará chamada farinha sécca) na sua factura difere da d’água, em não ir aos poços: mas logo que é arrancada a mandióca; descasca-se, ralla-se e ficando por isso uma só massa sempre aquosa, vai aos tititís: e então segue todos os termos da outra, ficando com a cor branca, em razão de não ter-se corrompido nos poços; o que dá motivo a que a d’água seja amarela, ou pálida, ou escura, segundo a maior ou menor putrefacção, proveniente da demora na água. D’aqui infere-se que o motivo de chamar-se sécca, é por não ter estado de molho nos poços a mandióca, como sucede para fazer a d’água.

O licor, que a mandióca espremida nos tipitis, destilla, é amarello: mas nem todo elle serve, pois o que sae da mandióca, preparada para a farinha d’água é inútil em razão da sua podridão; poém o que se destila a que se prepara para a farinha sécca, é excelente, sendo fervido, e se chama tucupí, molho saborosíssimo para caças, e especialmente peixes.

O tucupí, antes de ser fervido, consolidando-se no espaço de muitas horas, apresenta uma massa sólida, aquosa e muito alva, a que chamão tapióca; da qual também fazem faringha, a que ella dá o nome, e é a que com a sécca do Pará se exporta para Portugal, onde se usa d’ella para os caldos chamados de tapióca.

D’ésta fazem-se também os pós de goma, tendo-se posto a secar ao Sol: é outro ramo do commercio ainda que pouco interessante, e d’elles fazem os naturaes não só goma, mas também biscoitos, que supprem no caffé a falta de trigo.

Da tapióca, finalmente fervida em água e sal, fazem os naturaes certa goma, mais sólida que a de roupa, chamada tacacá, que borrifada com o molho de tucupí, é bebida deliciosíssima até para os Estrangeiros.

Os beijús, semelhante no volume e figura a dés hóstias postas uma sobre a outra, fazem-se da mesma massa da mandióca já preparada e pronta no forno para a farinha, cozendo-se cada porção na sua fôrma da mesma figura. Segundo a qualidade da farinha, assim é a do beijú, chamando-se beijú de tapioca, o que é feito da massa preparada para a farinha de tapióca, em especial e simplesmente beijú, o que se faz da que é para farinha secca; o qual, sendo torrado com manteiga é melhor para o caffé, do que as fatias.

O beijú que se faz da massa preparada para a farinha d’água, chama-se beijú-uassú (uassú é termo dos Tapuias, e quer dizer grande: com propriedade se dá tal nome a este beijú, pois tendo ordinariamente palmo e meio até dois de comprido, é maior que os dois primeiros): é deste que se destila a famosa agoardente denominada de beijú, a mais forte, que hoje se conhece; e d’ele se faz também o vinho, chamando simplesmente beijúassú, único do Pará, de quem se pode dizer, que laetificat cor hominis, estando algum tempo azedo.

Taes são as vantajosas utilidades, extrahidas da mandióca; e apezar de ter em seu desabono provocar a azia, isso tudo com só nota-se na farinha d´água, pois a sécca extigue-a e fortalece o estomago. Por esta razão não posso deixar de lamentar ainda uma vez a nossa negligencia, em não usarmos d’ésta, somente para pouparmo-nos á maior dificuldade de sua fábrica.

Assentão alguns ser veneno a mandióca crua, e Mr. De Beuchamp erradamente o assevera. É certo, que o tucupí, e todas as mais obras feitas d’ella, enquanto não são fervidas, causão morte: porém quando estar em ser a mesma raiz, é pasto dos viados e do gado, e passando por lume, é o excelente pão, e único, de que mais utilidades se conhecem.

[10] Abunda no Pará de madeiras excelentes para toda a qualidade d’obras: para Embarcações são especialmente escolhidos o angelim, cumará, piquiá, páo de roza, e castanheiro. O páo de roza também se aplica a obras finas; e o castanheiro especial para mastros, é o que produz as castanhas que em Portugal, sem razão se chamão do maranhão, sendo que para ahí se exportão do Pará: d’elle se tira a estopa para calafetar as Embarcações. O uacapú tem tal duração, que avança séculos, d’elle se fazem as obras, que prometem mais consistência, como são as portas e janelas principaes, os vigamentos, etc. : é madeira muito pezada e dura, impenetrável á serra, e só lavrada a machado: as paredes formadas de seu esteio sustentão os maiores edifícios. Os taboados ordinários são de loiro, e os forros das casas de marapaúba, madeira leve, de que os Marcineiros fazem muito uso. Para obras finas são especiaes o páo amarelo; o páo roxo; a marapinima, quasi preta; e a macacaúba, que é vermelha com veas roxas.

[11] O único filho do Pará, que lá tem feito Navios, é João Antonio Rodrigues Martins, o mesmo de quem já fiz menção na primeira nota.

[12] Andirobeiras são árvores, que produzem a castanha da Andiroba, de que se fabrica azeite excellente para al.uz, e muito medicinal. Podia este ser um ramo principal de commercio: mas há tanta falta d’actividade, que até muitos derrubão as suas arvores para lenhga, por ser muito combustível.

[13] Viado, paca, cutia, taititú, anta, porco, tatú, capivara, mucura, guariba. Há porcos domésticos, e do mato: desses é espécie o taititú. A guariba é espécie de macaco, e ainda que ambos não sejam muito usados, com tudo os caldos da guariba aplicão-se ordinariamente para fortalecer os enfermos. O tatú faz-se notável, pela dura concha que o cobre, e a mucúra, não só por ter deibaixo do ventro o saco, onde recebe os filhos, mas também por ser a raposa do Pará. É éta o sariguê de Buffon, o Opossum de Linneo, Tom. 1º pag. 109. Ed. Conim. I. O taititú, bem como o porco do mato (este chamão os Naturaes taiassú) tem sobre o dorso certa cartilagem, que segrega um fluido fétido, e é o que os Naturaes chamão catinga; e Linneo cystis liquore costoreum fere olente referta, Tom. 1º pag. 254. E jusd. Ed.: porém tirada ella a sua carne é deliciosa, especialmente sendo de tucupí. Sobre a paca diz Marcgr. Hist. Bras. Pag. 224: carnem habet eximiam et pinguem, ita ut non habeat opus lardo, quando assatar, unde Lusitanis Caça Real vocatur illorum venatio. Eu o confirmo avançando que ella toma dobrada estimação, sendo de tucupí.

De todas essas caças faz-se mais uso do veado, da paca, cutia, taititú, anta, e porco: as outras ordinariamente são só para os Escravos, apezar de que muitos Brancos gostão d’ellas, com especialidade da mucúra que dizem ter o sabor de gallinha.

[14] Há grande quantidade de peixes não só nos rios, mas também nos lagos: aos que habitam nos lagos, chamão os Naturaes peixes do mato. Dos peixes ordinários dos rios a piraíba é o maior, pois tem uma até duas varas de comprido: sempre é muito gorda e tem grande volume: é espécie sua o filhote. O tucunaré, dourado, acará, bacú, pacú e bagre são excelentes. Geralmente todos os peixes, sendo de tucupí são muito saborosos; e os do mato, muito mais; distinguindo-se entre estes a tariira e o tamuatá. O bacú é notável, por ter o ventre muito volumoso, em cuja alusão aos homens barrigudos no Pará chamam bacú, avançando a metáphora aos frouxos e negligentes.

[15] As aves, que estão no número das caças, são o mutúm, jacumi, cujubí, arára, marréca, pato, sururina, pomba, papagaio e inambú. Há pombas e patos de casa e do mato: é espécie d’estes a marréca, que abunda em Marajó, d’onde se exportão para a Cidade: é a ave mais saborosa no meu conceito; com tudo o inambú é reputado a perdiz do Pará.

[16] Conserva-se muitos mezes no Pará a carne e o peixe, salgando-se e secando-se. Dos Certões, onde há grande abundancia de peixes, especialmente do pirarucu, e peixeboi (semelhante ao boi na grandeza), todos os annos se transportão para a Cidade muitas mil arrobas d’estes, principalmente do pirarucu, que é o bacalháo do Pará, e ordinário sustento dos Escravos. O pirarucu, o cacao, o cravo, e a salsa abrangem o systema comercial dos certões, permutando-se especialmente pela caxaça, e mais fazendas, devendo notar-se que nos certões não se admitem engenhos de agoardente, porque d’ésta forma estagnar-se-hía o commercio da Cidade, pois na caxaça está todo o alento d’aquelles Povos.

O Rio Negro abunda de tartarugas, e ahí se fazem excelente

[17] Certa quantidade de peixes, ordinariamente deseseis, enfiados em um sipó, é o chamão cambada de peixe: cadaúma custa uma pataca, isto é, deseseis vinténs; d’onde chamão peixes de cambada aquelles, que pelo seu pequeno volume são capazes d’este artefacto. Sipó é certo ligamento, que cresce nas árvores: é muito flexível; e d’elle se servem os Naturaes, como de cordas: há muitas espécies e a mais notável é o timbó-titica, corda ordinária com que atão tudo, até os esteios das casas, em lugar de pregos. Há um arbusto, chamado timbó, cuja raiz esmagada nos igarapés, lança um veneno, que faz com que os peixes fiquem atordoados; e é então opportuna ocasião de os apanhar. Igarapé chamão os Naturaes aos rios mais estreitos.

[18] É natural do Faial, e hoje está estabelecido e casado no Pará, é activo, e o único pescador de nome na Cidade, mas com tanta infelicidade dos seus habitantes, que não exercita sempre seu officio. Applicado á Aggricultura, não se emprega actualemnte na Pesca, e só nas quatro festas principaes do anno vem com a sua rede mostrar aos da Cidade, que por sua negligencia não são fartos de peixe. Há outros pescadores, mas não tão famosos: são Tapuios, miseráveis, cuja diligencia não pode fazer abundancia na Cidade.

[19] Florescerão as Sciencias no Pará por algum tempo com escolas publicas, onmde Sabios Professores repartião as suas luzes com a estudiosa mocidade: mas o tempo, que tudo arruina, deixou-nos apenas vestígios da antiga Athenas. O Grande Veiga, Religioso mercenário, e consumado Philosopho; o judicioso Joaquim José de Faria, Arcediago da Cathedral, vir prudens, et sapiens, o activo, e vigilante José Monteiro de Noronha, Arcipeste da Cathedral, Vigario geral, e Capitular em Sé vaga, Jurisconsulto abalisado, e Juiz recto, João da Silva, Clerigo Secular, Grande na musica e órgão, o primeiro filho do Pará, que entendeo a fundo estas duas artes, e fez belíssimas composições, que o fleugma do Paiz não tem sabido aplaudir, todos estes acabarão.

João Baptista excelente professor de Eloquencia, e Joaquim Rodrigues de Andrade, de Desenho, conhecendo o auge da indolência da mocidade, deixarão os livros e pegarão no arado. José Eugenio d’Aragão e Lima, Clerigo Secular, de bom caracter, bastantemente literato, Professor de Philosophia, esteve muitos annos fora de sua Cadeira; e quando tornou a occupa-la achava-se já em tão provecta idade, que, por mais que quizesse impossível totalmente lhe era fructificar nos seus ouvintes.

[20] Joaquim Pedro de Moraes Bitancourt, de sangue illustre, Chantre da Cathedral, irreprehenssivel Ministro do Altar, e assas instruído, ensina alternativamente Theologia Moral, e Dogmatica; e Philosophia Racional, e Moral, com grande satisfação dos seus Concidadãos, que o venerão em extremo, até pelas suas amáveis qualidades.

Antonio Ladislau Monteiro Baena, Quartel Mestre do Corpo d’Artilheria, é interinamente Lente de Mathematica, e oxalá seja sempre! A profusão dos seus vastos conhecimentos de Literatura e a sua sinceridade merecem os maiores elogios. Amante do mérito, e contate abonador das emprezas honrosas, posto que difficeis, promove a felicidade alheia, nada mais querendo, que ter ocasião de promove-la. Suas virtudes sociais preponderão a tudo: e a ellas devo inspiração das mesmas ideias, que desejo sugerir aos meus Patricios.

Romualdo Antonio de Seixas, conhecido entre os seus desde a infância pelo seu raro talento, depois de frequentar as Escolas do Pará, veio a Lisboa, onde teve a felicidade de ouvir as instrucções do Padre Theodoro de Almeida: no fim de poucos annos voltou para o Pará, onde ensinou sucessivamente Latim, Rethorica, Poetica, e Philosophia Racional, tendo eu a felicidade de ser um dos seus ouvinte.

Com a chegada de S. M. ao Rio de Janeiro foi cumprimenta-lo da parte do Exm. Bispo, e correndo a America Portugueza, tornou ao Pará, provido em um Canonicato Diaconal, que hoje occupa com plena satisfação de todos: ensina alternativamente Theologia, e Philosophia Racional e Moral: é instruído bastantemente nas Bellas Letras, o que bem se colige dos papeis, que tem publicado, como é o Roteiro da sua viagem, impresso no Num. XXX. D’este Jorn., além de vários sermões.

Antonio Marcello da maia, Grande Professor da Musica, toca flauta, e Orgão. Com a morte do Padre João da Silva ficarão emprazados os conhecimentos d’éstas Artes: renascem agora n’elle, não só pela Theoria, mas também pela Prática, dando á luz harmoniosas e trabalhadas composições, ás quaes talvez não succeda o mesmo, que, já na nota antecedente disse que, succedeo ás de João da Silva. De todos os Músicos de profissão no Pará, elle é o único, que pode fallar sôbre Música; e é de esperar, que repartindo as suas luzes, como faz com effeito, dê nova forma á Musica Paraense.

Há outros Literatos, como o Douto Romualdo de Sousa Coelho, e Raimundo Sanches de Brito. É provável, que este, mostrando-se sensível aos dons, de que o instruio o Author da Natireza, de quem recebeo grande talento, e genio raro, magono, magnoque systemati non amplius adhaerens, venha á Europa frequentar os Sabios, em vez de jazer embrenhado nos Certões; a fim de que (como por igual occasião diziz S. Jer. a Paul), qui Athenis magíster est, et potens, cujusque doctrinam Academiae gymnasia personalt, fiat peregrinus atque discipulus: malens aliena verecinde discere; quan sua impudenter ingerere.

Não nego portanto o merecimento a muitos outros; mas como não se exercitão em repartir as suas luzes com os seus semelhantes: por isso digo, que estes quatro são, os que sustem o arruinado Templo de Minerva: e é d’esperar, que não o deixem cair, fazendo muito fructo á custa da sua diligência.

Biografia de Angelim

A única biografia de Eduardo Angelim foi escrito por sua bisneta, Dilke de Barbosa Rodrigues. É A vida singular de Angelim (A CABANAGEM), publicada em 1933 com prefácio do acadêmico Pedro Calmon, pela Irmãos Pongetti, editora então sediada na rua Mem de Sá, na Lapa, no Rio de Janeiro. Nunca foi reeditado. Nem houve prosseguimento em uma biografia mais completa, segura e bem fundamentada.

Essa parece ter sido a impressão de Lauro Sodré ao fim da leitura atenta do livro (com muitas anotações e marcas), que lhe foi doado e autografado pela autora, no mesmo ano da publicação. Datado de maio de 1933, do Rio de Janeiro, o autógrafo é dirigido ao ex-governador e à sua esposa, dona Yayá, “ilustres filhos desse Pará maravilhoso”.

O livro é dedicado a Cacilda Enéas Martins, esposa de outro ex-governador, e Maria Antonieta de Barbosa e Silva, provavelmente tia da biógrafa. O tio de Dilke, Thomaz Pará Barbosa e Silva, então auditor de Guerra de São Paulo, escreveu a apresentação. O livro integra a coleção de obras raras da Biblioteca Pública do Pará.

Para completar o registro, reproduzo artigo que escrevi em 2015.

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O livro da bisneta de Angelim

Para Gonçalves Dias, o cearense Eduardo Nogueira Angelim foi “o tipo do brasileiro mais perfeito”. O poeta maranhense pretendia dedicar-lhe uma “gloriosa epopeia”, mas nunca esse plano tomou forma escrita. Apesar de toda sua importância, o líder da cabanagem mereceu, até hoje, apenas uma biografia, escrita por sua bisneta, Dilke de Barbosa Rodrigues (A vida singular de Angelim – A CABANAGEM, Pongetti, Rio de Janeiro, 1933). O livro nunca foi reeditado, se transformando em raridade bibliográfica. Não pelo seu valor intrínseco, mas por sua circunstância de produto único.

O esforço de Dilke é convencer seu leitor que Angelim foi um intelectual e o verdadeiro líder político da revolta que eclodiu em Belém, em 7 de janeiro de 1835, e terminou no Amazonas, em 1840, com a anistia aos revoltosos dada pelo imperador Pedro II. Segundo ela, seu bisavô leu bastante e tinha ideias avançadas para o seu tempo, que tentou pôr em prática durante a rebelião, sem sucesso. Seus sonhos foram desfeitos em violência e sangue no fragor das lutas entre cabanos e as tropas legais.

Dilke tenta compor a figura de um herói sem mácula e projetá-lo como um mito, o maior do seu tempo. Parece querer compensar os dois volumes que Angelim escreveu no exílio com seu testemunho sobre tudo que viveu. Os originais do livro se perderam em Fernando de Noronha, onde Angelim.

Como o livro de Dilke é singular, conforme diz o título, vale a pena anotar algumas das observações mais originais que ela faz, como uma contribuição da família – sujeita às limitações desse tipo de análise, mas de valia para a compreensão do personagem.

Pela ótica de Dilke, a predestinação de Angelim seria precoce. Ele tinha 12 anos quando houve a grande seca de 1827 no Nordeste. Apesar de tão novo, teria sido ele quem sugeriu que a família se retirasse do Ceará e fosse no rumo da Amazônia, se estabelecendo no Acará.

Trabalhando como guarda-livros (contador) numa casa comercial em Belém, conseguiu juntar dinheiro suficiente para arrendar terras do coronel Félix Clemente Malcher, às margens do rio Acará, uma das regiões mais importantes do Pará, com suas plantações de cana e engenhos de açúcar. Já era um proprietário rural e pequeno citadino quando se casou com Luiza Clara, a jovem viúva de um rico comerciante português (seu segundo marido), que algumas pessoas diziam ter sido morto por Angelim, o que ele sempre negou.

Luiza Clara casou pela primeira vez quando tinha 15 anos com um militar. Enviuvou precocemente e dois anos depois era a mulher de Angelim, seu terceiro marido. Do casamento resultaram sete filhos: Maria, América, Brasília, Pelópidas, Epaminondas e Filomena Clara. A união com Luiza Clara o modificara. “Imerso em sonhos de amor e tranquilidade, Angelim afastara-se do local político e somente chamado voltava a socorrer os amigos”.

Cultivou amizade muito forte com o irmão Geraldo, o primeiro da família a se engajar em movimentos contra a ordem estabelecida. Mas se recusou a aceitar os primeiros convites para segui-lo. Aos 19 anos, sua única preocupação era desenvolver seu talento e crescer. Já acumulava algumas economias e em pouco tempo estaria em condições de viajar, percorrer centros de cultura. Seu tempo se dividia entre o trabalho, o trato das suas terras e os estudos.

A neta assegura que ele leu Aristóteles e estava a par das ideias do filósofo grego sobre a construção da república. Numa de suas proclamações, citou o escritor francês René Chateaubriand: “Não se deve servir a um governo para que sustentar a ordem precisa oprimir a liberdade e para manter a esta se expõe e cai em anarquia”.

Mas na tarde de abril de 1833, quando chegou à loja para trabalhar, já o aguardavam algumas pessoas, dentre elas seu irmão, Geraldo. Vinham convidá-lo para chefiar o movimento que iriam desencadear. Ficou surpreso pela iniciativa, mas imediatamente aceitou. A bisneta diz que Angelim mudou de comportamento, deixando de recusar ao chamado, por ver a oportunidade de realizar seus projetos: liberdade dos escravos, mudança de regime na corte, independência do domínio estrangeiro.

Um desenho feito por ele tinha um índio atirando uma flecha em direção ao sol, no ocaso, significando o brasileiro livre, exterminando a monarquia e criando a nação dos Estados Unidos da América do Sul. No entanto, a própria Dilke admite que o bisavô só não aceitava escravos e mulheres na sua tropa, porque “lhe afiguravam fraqueza, e os fracos não devem lutar”. Uma das várias contradições aparentes de Angelim.

Sua participação na revolta de abril de 1833, na qual as forças do comerciante Afonso de Jales contra as do presidente, Machado d’Oliveira, foi tal nesse primeiro combate, por sua bravura, que ganhou o apelido de Angelim, madeira amazônica muito rija, que nunca mais deixou de usar. O irmão, igualmente valente, passou a ser Geraldo Gavião. Mas não aceitou o comando das armas, que lhe ofereceu Félix Malcher, primeiro presidente cabano, porque não foi proclamada a abolição da escravatura. Não quis nem assinar as atas de reconhecimento de Malcher como presidente. Seus companheiros ficaram desconfiados e insatisfeitos.

Quando Malcher foi deposto (e morto em seguida), Angelim se recusou a substituí-lo. “Foi o único homem de bem que conheci”, diria Malcher antes da deposição e morte. Francisco Vinagre assumiu e foi então que Angelim decidiu atuar politicamente.

Se a massa dos cabanos não tivesse se mantido em atividade, a cabanagem teria sido extinta durante o governo do marechal Jorge Rodrigues. Os líderes admitiram que eles já não comandavam as ações e nada fizeram para ampliá-las. O retorno de Angelim ao comando foi mais consequência da pressão da massa do que iniciativa da liderança.

Quando o marechal chegou a Belém, os líderes lhe entregaram imediatamente “a capital de que se achavam de posse, seus terrenos e todo o material de guerra”, conforme o próprio Angelim informaria na sua proclamação aos paraenses, em 29 de junho de 1835.

O novo presidente prendeu então Vinagre e mais de 300 paraenses. Angelim foi outra vez procurado e reagiu com uma proclamação convidando os paraenses a pegar em armas e fazer “guerra de morte” ao marechal.

Ele foi aclamado presidente em 26 de agosto de 1835. Tinha 21 anos. Foi o 13º administrador do Pará, o melhor de todos, segundo alguns autores. No poder, “pretendeu levar de frente as reivindicações da província, sob as quais assentavam seus ideais liberais, que pretendia dar corpo, mas preferiu entregar o Pará à lei que, na verdade, sempre a estimou”, observa Dilke.

Ela diz que a cabanagem arruinou Angelim, que perdeu todos os bens que conseguira acumular. Com seu dinheiro, pagou o funcionalismo e alimentou a população.

Ele ficou preso na Fortaleza da Barra de 1837 a 1840. Foi mandado para o Rio de Janeiro e libertado. Presente em uma sessão da câmara dos deputados, deu vivas a Antonio Carlos de Andrada. Chamado à atenção, continuou a se manifestar, foi preso ao sair do paço da câmara. Ficou em Fernando de Noronha de 1841 a 1851. Sem processo. Soltaram-no em 5 de maio de 1852. Passou por Recife e seguiu viagem de volta a Belém, onde chegou a 13 de maio.

Luiza Clara morreu em 1878 e ele em 1882, aos 67 anos. Antes de morrer, quase afônico, pediu que abrissem as janelas que davam para o rio. Morreu no sítio Madre de Deus. “Deus seja comigo”, foram suas últimas palavras. Eram 11 horas de 20 de julho.

O monumento do barão

(Texto de 2008)

Antônio Olinto tinha uma coluna sobre livros em O Globo, que se chamava ‘À Porta da Livraria’. Stanislaw Ponte Preta, que não o tinha em boa conta, certo dia lhe deu um conselho: por que o distinto colunista não entrava de uma vez na droga da livraria, comprava o diabo do livro e tratava de lê-lo? A graça tinha sua razão de ser: Olinto resenhava livros pelas suas ‘orelhas’ e pelo material de divulgação distribuído pelas editoras. Raramente avançava sobre o conteúdo da publicação.

Uma das primeiras livrarias em que entrei para comprar meu próprio livro, com o dinheiro dado pelo meu pai, foi o ‘sebo’ do Dudu, a Livraria Econômica, de Eduardo Failache, na travessa Campos Sales, em frente à Biblioteca e Arquivo Público (hoje só arquivo). A partir dos 12 anos, comprei seguidas edições de almanaques, principalmente o Bertrand e o do Porto – lusitanos, estamos a ver.

Eu lia todas as seções de curiosidades da imprensa, incluídas as do Rio e São Paulo, e daquela cultura que hoje consideramos inútil, mas que pode atiçar a curiosidade para buscas mais profundas.

Havia uma página dominical na Folha do Norte, escrita pelo Alberto Queiroz, que só não era meu sonho editorial porque, modéstia à parte, me considerava mais bem armado para escrever uma, com meu vasto paiol de munição de curiosidades. Tinha vários dicionários e enciclopédias dessa especialidade, graças ao caixa aberto pelo pai para as necessárias aquisições.

Os almanaques portugueses tinham um fascínio à parte. Havia neles jogos para armar e desenvolver, e um estoque de informações a reunir, reagrupar e enriquecer. Anos depois de começar a comprar o Bertrand e o Porto, descobri que eles possuíam um cliente muito mais ilustre: várias das histórias de João Guimarães Rosa tinham sua origem nos “causos” dos almanaques, burilados e expandidos pela sintaxe do escritor mineiro.

Volumes isolados

No ‘sebo’ do Dudu criei e aperfeiçoei as técnicas de lidar com a revenda de livros usados e raros, aprendizado que se aproxima do meio século de prática. Tornou-se um conhecimento bem íntimo, sobretudo quando a queda na capacidade de compra e, no sentido inverso, a elevação quase proibitiva nos preços dos livros novos, me obrigaram a quase só girar pelo mercado secundário.

Ainda mais porque desisti de ser um crítico de livros, exatamente por partilhar a opinião de Sérgio Porto, de que só se deve escrever sobre o livro que, de fato, foi lido. Para me estabelecer na praça, eu teria que ler muita coisa que não tinha interesse direto para mim. Não sobraria tempo para usar a leitura como catapulta para a escrita. Ficaria pelo meio do caminho, se ao meio conseguisse chegar.

Todo esse ‘nariz de cera’ é para apresentar uma nova seção deste jornal, que alternarei com a “Caderneta de Repórter”. Nela, partilharei com meus leitores as (a)venturas dos livros velhos, aquelas relíquias, pepitas ou preciosidades, que se consegue localizar depois de se cascavilhar durante anos por ‘sebos’ espalhados pelo país e o mundo.

Comete erro primário quem entra nessas livrarias atrás de um livro determinado e por tempo certo. O ‘sebo’ é a confluência da cultura, seu depósito, seu almoxarifado e, por vezes, sua lata de lixo. Parte considerável da história está neles armazenada. Reencontrá-la e dividi-la com o leitor, é o meu propósito.

Nesta primeira coluna vou tratar de um dos mais importantes livros escritos por um paraense. Livro que honra não só a cultura do Pará, mas do Brasil. E não ficaria em má posição junto a clássicos da historiografia mundial. É um clássico, que merece o grande título que tem: Motins Políticos – ou história dos principais acontecimentos políticos do Pará desde o ano de 1821 até 1835, de Domingos Antônio Raiol, o Barão de Guajará, por obra e graça de D. Pedro II.

Originalmente, a obra saiu em cinco volumes, ao longo de quase um quarto de século, entre 1856 e 1890, com nada menos do que 2.243 páginas. É a maior e mais fecunda fonte de informações sobre a Cabanagem até hoje. Começou a ser publicada quando o final do movimento, com a anistia geral dos cabanos que ainda sobreviviam, não alcançara 20 anos.

Raiol tinha motivos para execrar os cabanos, que em 1835 executaram seu pai, vereador na Vigia, quando o filho estava com apenas cinco anos de idade. Ele se lançou sobre o tema logo que pode, mas seu acerto de contas não foi pessoal, com os assassinos do pai: foi um acerto com a história. Quase todas as informações primárias que circulam pelas análises secundárias feitas desde então se baseiam nos milhares de documentos que ele consultou para compor essa polifonia historiográfica.

Ao longo do tempo, consegui formar duas coleções completas dos cinco volumes originais e também reuni volumes isolados O 1º volume (o único reeditado ainda no século XIX), com 320 páginas, foi publicado no Rio de Janeiro, na tipografia Hamburguesa do Lobão, na rua do Hospício. O 2º volume foi editado em São Luiz do Maranhão, em 1868, com 413 páginas. O 3º (com 498 páginas, em 1883) e o 4º volume (500 páginas, 1884) voltaram a ser impressos no Rio. Já último volume saiu em Belém, pela Imprensa Tavares Cardoso, em 1890, com 542 páginas, culminando esse monumento da história brasileira em plena ‘era da borracha’.

Notas preciosas

O futuro governador Justo Chermont foi uma das pessoas que comprou a obra completa no momento mesmo em que ela foi sendo lançada. Consegui quatro dos cinco volumes que foram dele (faltou-me apenas o 1º volume). Na folha de rosto do 2º volume dos Motins Políticos, Justo Chermont anotou: Recife, 1º de julho de 1878. A edição é de dez anos antes, 1868, impressa em São Luiz do Maranhão. Na página seguinte, onde começa o texto, JC fez outra anotação. Assinalou o período de governo do Visconde de Goiana na província do Grão Pará: 19 de julho de 1831 a 7 de agosto de 1831. Destacou com um traço lateral alguns trechos das primeiras 35 páginas do livro.

Acrescentou um comentário ao trecho que destacou na página 35, quando o barão do Guajará diz:

“Havia dois princípios em luta, duas opiniões que alimentavam os partidos em todo o império, era o passado que tratava de fazer ainda vingar os seus erros, e não queria ceder à ideia que acabava de triunfar; era o presente que tratava de conquistar terreno e fazia tudo para extinguir até às bases o domínio da metrópole; era a ideia que o tempo tinha amadurecido e queria inteiramente emancipar-se para também reinar por sua vez!”.

Comentário de Justo Chermont: “Distinção mais razoável, não verdadeira. Ainda hoje existe, 1879”.

Na página seguinte fez uma observação mais longa: “Ainda hoje no Pará existe uma mesma política de corrupção, que se ocupa em último lugar daquilo que justamente é o principal objeto da ciência – o engrandecimento da pátria. Política torpe, em que à ideia substitui o homem, ao bem geral o interesse privado, à riqueza publica a fortuna particular. Luta mesquinha: pugilato de homens, nunca o combate da ideia. Questão de homens, não luta incruenta de princípios. Paralisia social – é o resultado final”. Ainda hoje, sem dúvida.

Justo Chermont colou, na página 80 do 5º volume, recorte de jornal com um soneto de Odorico Mendes, “feito em nome do marechal Jorge Rodrigues, que ao mesmo tempo perdia um filho em combate era demitido de comandante das armas do Pará”. Sob o título Parnaso, a publicação diz que essa poesia do escritor maranhense integra uma “coleção de sonetos escolhidos dentre os melhores publicados em língua portuguesa”. É a seguinte:

Sempre a teu mando pronto obedecendo,

Hei com meu sangue minha fé selado;

Arrostei firme, ouvi desassombrado

Da marcial trovoada o ruído horrendo.

Hoje que a triste campa vou descendo

Queres-me ver, ó pátria, desonrado?

Dás-me este prêmio, quando nobre e ousado,

O último bocejar te voto e rendo?

Ah, bem que estou no inverno tenebroso

A minha espada é cortadora e forte,

O braço duro, o coração brioso

Mas nem se me permite – indigna sorte!

Que após meu filho intrépido e ditoso

Alcance ao menos uma ilustre morte.

Apenas uma observação de Chermont no 3º volume sobre a morte de Malcher, mas se limitou a escrever o nome do primeiro presidente cabano. Nada no 4º volume. No 5º, muitas marcas ao texto, com uma linha grossa horizontal, mas sem qualquer comentário. Teve o cuidado, porém, de assinalar todas as erratas.

A única reedição completa dos Motins Políticos é de 1970, promovida por José da Silveira Neto, quando reitor da Universidade Federal do Pará, sob a supervisão do amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis.

É uma boa edição, mas complicada de ler, por causa da desconexão entre o texto principal e as numerosíssimas notas de pé de página. É preciso sempre voltar páginas porque as notas avançam muito além do trecho ao qual se referem. A UFPA podia encomendar uma nova e ainda melhor edição para 2010, tendo como referência 1890, quando a obra foi concluída. Passados 120 anos, os Motins continuam a ser o momento mais elevado da historiografia paraense. Merecem a comemoração.

Presos na fortaleza da Barra

Havia 179 pessoas cadastradas, em 25 de agosto de 1835, para receber ração no 5º corpo de artilharia de posição de 1ª linha na fortaleza da Barra. A tropa era composta por: major comandante (Anselmo Joaquim da Silva), um ajudante (que então estava preso), quatro 1ºs tenentes (mais um do 5º batalhão de caçadores), sargento ajudante, sargento quartel mestre, furriel, corneta, 32 soldados artilheiros (mais quatro do 5º batalhão). Havia 11 familiares de oficiais. Estavam presos o capitão Varella e 13 soldados sentenciados ou por sentenciar. Mais 95 familiares e 10 escravos de algumas dessas famílias.

(Códice 526 do Arquivo Público do Pará)

Cabanagem: documentos da história (1)

Criei esta seção para divulgar e interpretar os valiosos documentos que Ricardo Condurú tem divulgado, com estoicismo, generosidade e elevado espírito público, no seu blog Cabanagem Redescoberta. Assim fazendo, espero ampliar o interesse e a participação dos leitores na revelação desse ainda desconhecido, mal divulgado ou incorretamente interpretado capítulo da história brasileira. Sem que donos do tema o monopolizem.

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Proclamação dos cabanos do Acará

A proclamação, originalmente datada de 24 de outubro de 1834, mas só oficializada pelo reconhecimento cartorial em 3 de novembro, é assinada pelo “tenente coronel comandante” Felix Antônio Clemente Malcher. Ele estava no Engenho do Desterro, no qual diz estar o “acampamento das forças federais”. O documento contém todos os ingredientes que irão se manifestar pouco mais de um mês depois.

O inimigo é o “déspota presidente” da província, Bernardo Lobo de Souza, acusado de governar “com a dura vara de ferro do infame despotismo”. “Atemorizado” pelas “flechas e baionetas” dos rebeldes, ele fugiu para bordo da corveta Bertioga.

Ao ser abandonado pelo “pequeno rebanho de escravos que o arrodeavam”, teve que fugir, deixando nos cabanos “o dissabor, de não o colher as mãos para que fosse aqui mesmo punido os seus horrorosos crimes”.

Malcher informa que já havia um destacamento na paragem, denominada Goiabal, com 130 “patriotas brasileiros valorosos”, comandados pelo capitão José Agostinho d’Oliveira, “patriota bem conhecido recheado de probidade patriotismo, e coragem”.

Malcher deixa claro que os rebeldes já se autodenominavam cabanos, pelo menos nesse ano, ao contrário do entendimento de que o termo só veio a ser usado quando o movimento já fora extinto.

Nos vivas com os quais finaliza a proclamação, o comandante cabano saúda a constituição imperial, a federação e a regência em nome do imperador. Logo, não pensa no rompimento da unidade nacional nem na negação do regime vivente. O movimento se torna armado porque a tropa paraense “sabe manter os seus sagrados direitos”. É a grande aspiração contra os despóticos representantes, como Lobo de Souza, mandados pelo Rio de Janeiro para governar o povo no Pará.

O documento foi publicado originalmente no jornal Correio Official Paraense e republicada no Diário de Pernambuco, nº 589, de 26 de janeiro de 1835, folha 3. Ao contrário de Condurú, atualizei a grafia para permitir melhor leitura do texto. Mas mantendo integralmente o seu formato, garantindo a autenticidade do documento.

Proclamação dos Cabanos Sublevados no Rio Acará

Proclamação – Valorosos patriotas Paraenses, tenho a satisfação de vos comunicar, que o Déspota Presidente, atemorizado de nossas valorosas flechas e baionetas, já existe abordo da Corveta Bertioga, de maneira que já não vem a terra, e também porque se vê solitário; pois o pequeno rebanho de escravos que o arrodeavam, já o abandonou, e o único recurso, que resta a esse malvado Presidente é fugir, ficando-nos assim o dissabor, de não o colher as mãos, para que fosse aqui mesmo punido os seus horrorosos crimes.

Paraenses já temos um destacamento da paragem denominada – Goiabal – de cento e trinta patriotas Brasileiros valorosos, de que é digno Comandante o Capitão José Agostinho d’Oliveira, patriota bem conhecido recheado de probidade patriotismo, e coragem, digno em fim do doce nome de Brasileiro Liberal. Vós sois testemunhas dos Brasileiros que aqui existem expostos antes a morrer, do que serem novamente governados, com a dura vara de ferro do infame Despotismo.

Viva a Santa Religião Católica Romana que professamos; Viva o Povo e Tropa Paraense, que sabe manter os seus sagrados direitos; Viva a Constituição e Santa Federação; Viva a Regência em nome do Imperador! Viva S. M. I. e Constitucional o nosso Jovem Patrício, o Snr. D. Pedro II. Engenho do Desterro, e Acampamento das forças Federais 24 de outubro de 1834. – O Tenente Coronel Comandante Felix Antônio Clemente Malcher.
Reconheço o sinal da Proclamação supra ser de Felix Clemente Malcher por ter todo o conhecimento do mesmo, e por semelhante que vi. Pará 3 de Novembro de 1834. – Em testemunho de verdade estava o sinal público. – Paulo Maria Perdigão. Está conforme. – Miguel Antônio Nobre Oficial Maior.

(Do Correio Official Paraense)