Um garimpo de história

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 296, de janeiro de 2003)

Cabanagem (documentos ingleses), editado pela Secretaria de Cultura e a Imprensa Oficial do Estado (274 páginas) e lançado no último dia 30, em Belém, é o mais importante livro sobre a Cabanagem desde que Domingos Antônio Raiol concluiu o quinto volume de Os Motins Políticos, 130 anos atrás. O traço de união entre as duas obras, e o que as valoriza na bibliografia sobre o acontecimento, é a quantidade de documentos primários que nelas está contido.

Contemporâneo do movimento social que irrompeu em 1835 e se prolongou até 1840, provocando a morte de pelo menos 20% dos 150 mil habitantes da província do Grão-Pará e Rio Negro, o Barão de Guajará foi o maior de todos os divulgadores da documentação nacional. Agora, graças ao historiador David Cleary, estamos tendo acesso a uma valiosa porção dos papéis oficiais produzidos na época por representantes do império britânico.

A partir de agora, ninguém poderá escrever sobre a Cabanagem sem levar em consideração os documentos do Ministério das Relações Exteriores e da Marinha da Inglaterra, recolhidos ao arquivo público de Londres (o Public Record Office, um “paraíso para historiadores”, segundo Cleary) e reproduzidos no livro. Há cinco anos esse material está à disposição dos pesquisadores mais ansiosos e à espera de aparecer na forma impressa, tantas vezes anunciada quantas postergada, sem justificação plausível.

Ao ver esses papéis pela primeira vez, a mim apresentados pelo então diretor do Arquivo Público do Pará, Márcio Meira, fiquei em estado de choque. Li sofregamente todos os documentos, mas com estarrecimento uma carta do embaixador inglês no Rio ao ministro do exterior do seu país, lorde Palmerston, relatando proposta – secreta e confidencial – do padre Diogo Antônio Feijó para que a Inglaterra reprimisse com suas tropas os cabanos rebelados (e que divulguei nacionalmente, em artigo de página inteira, no jornal O Estado de S. Paulo).

Essa carta e os demais documentos não permitem uma visão conclusiva sobre a Cabanagem, nem são suficientes para exprimi-la convincentemente, mesmo porque ainda há arquivos a vasculhar, no Brasil e nos Estados Unidos, Portugal, Inglaterra, França e, talvez, Holanda.

Mas esses papéis põem abaixo muitos mitos e distorções ideológicas sobre o que, na litania petista do prefeito Edmilson Rodrigues, por exemplo, seria a expressão mais pura da revolução dos oprimidos contra os opressores, dos que não têm contra os que têm (na bela frase de Handelmann), dos nacionais contra os estrangeiros, da aldeia cabana (ainda que de concreto) contra a urbe neoliberal e a globalização.

Ao invés de provocar polêmica e discussão, a despeito dos vários artigos que meu irmão, Elias Pinto, e eu escrevemos, a preciosa documentação inglesa continuou abandonada nos porões do Arquivo Público em Belém, ignorada pela intelectualidade e guardada com certa negligência por seus responsáveis oficiais.

Talvez porque essa documentação primária, ouro puro depois de tanto cascalho interpretativo, exija uma completa revisão conceitual, um recomeçar (se não do começo, ao menos de muito atrás) e trabalho de verdadeiro historiador, aquele que revela e não apenas reinterpreta, retrabalhando fontes secundárias, dizendo de outra forma o que já foi dito antes (nem sempre citando a fonte original).

Agora, esse silêncio conveniente será quebrado. Os documentos chegam finalmente à rua, ao domínio público. A pressa e as circunstâncias, infelizmente, provocaram danos à obra. A apresentação de Geraldo Coelho, diretor do arquivo, é dispensável. Parece ter sido escrita com desinteresse e certo relaxamento.

A rica introdução de David Cleary, escrita no melhor estilo do ensaísmo inglês, com humor e clareza, se ressente de uma revisão. Por causa da falta de pleno domínio do português de seu autor, o texto devia ter sido ajustado para que incorreções naturais no trato da língua por um estrangeiro fossem expurgadas. Ainda assim, Cleary ajuda seu leitor na leitura dos documentos e na compreensão do seu significado, iluminando o pano de fundo do acontecimento histórico.

A leitura do livro é dificultada pelo tipo pequeno das letras, pela falta de contraste no papel (de indesejada transparência), pela mancha de impressão demasiadamente grande, que reduziu as margens. Ainda assim, a obra tem tanto valor que logo deverá estar numa segunda edição, corrigida e melhorada, como ela merece e todos nós merecemos [o que, infelizmente, não aconteceu até hoje].

Mais do que todos, merece esse complexo e fascinante momento da nossa história. Cabanagem (documentos ingleses), liberto dos porões do Arquivo Público, provocará impacto em Belém, no Rio de Janeiro, em Londres e em várias outras praças, nacionais e estrangeiras. Pelo simples fato de restabelecer a vida a um acontecimento de significado para a história da humanidade, tão vivo antes quanto agora.

Na fortaleza da Barra

De 1967 a 1978, com alguns longos intervalos nesse período, fiz pesquisas nos códices manuscritos da Biblioteca e Arquivo Público do Pará (hoje, só arquivo) sobre a cabanagem.  Quase diariamente entre 1971 e 1973. Acumulei milhares de páginas de anotações e cópias. Pretendia escrever um trabalho de maior fôlego sobre a guerra civil paraense, que se tornaria amazônica. As conjunturas, porém, me afastaram dessa direção. Tenho tentado retornar a ela, sem muito sucesso. Um dos efeitos dessa tentativa é este blog, que resultou de uma edição especial sobre o tema do Jornal Pessoal.

Agora, em doses homeopáticas (pelo mesmo motivo), vou dar vazão a essas anotações e documentos, muitos deles ainda inéditos. Como este registro, contido no códice 526, que guarda a correspondência de diversos com o governo, um pequeno retrato de parte da elite da época, incluindo nomes de famílias que perduram até hoje. 

Muitas pessoas, fugindo dos cabanos, se abrigaram na fortaleza da Barra (localizada em frente a Belém, que desapareceria um século depois, numa explosão acidental), que ficou lotada. Aos poucos, os civis foram sendo evacuados. A única comida era a ração dos militares, que era distribuída entre todos.

Lamentava o comandante da fortaleza, major Anselmo Joaquim da Silva, que “já não há aquela abundância de peixe. Isso foi bom no tempo da paz, quando passavam canoas e montarias carregadas de peixe”. Os próprios soldados nem mesmo pescar podiam.

Estavam abrigadas na fortaleza 55 pessoas, em setembro de 1835:

* Joaquim Mariano d’Oliveira Cordovil, major reformado de 1ª linha, com sua mulher, Luiza Rosa Mendes Cordovil, e 28 anos, e o afilhado Vitorino dos Santos, de dois anos e meio.

* Gertrudes Bolonha Picar, de 40 anos, viúva de Pedro Adrião Picar, com os filhos: Ana Joaquina, de 13 anos, Antônia da Conceição, de 12, e Pedro Ribeiro, de quatro.

* Carlos Manoel de Souza Trovão, capitão reformado de 1ª linha, de 43 anos, com sua mulher, Ana Jacinta Cordeiro, de 33 anos, e os agregados Maria Francisca, de 14 anos, e Tomazia Maria, de 15.

* Maria Jacinta Coelho, de 21 anos,  mulher do 1º tenente Higino, com seus filhos Higino Jacinto José Coelho, de dois anos e meio, e Higino José Coelho, de cinco meses.

* Maria da Conceição Cordeiro, de 20 anos, mulher do 1º tenente Cordeiro, mais a mãe do militar, Maria Perpétua Vergino, de 54 anos, sua irmã, Joana Drotéia Cordeiro, e o filho, Manoel Cordeiro, de 4 anos.

* Padre Gaspar Cerqueira de Gueiros, de 35 anos, professor de latim, com a mãe, Josefa Maria de Nazaré, de 50 anos.

* João Hilário Watrin, escrivão do crime, de 40 anos, com sua mulher, Guiomar Maria Watrin, de 27 anos, com Maria Francisca, solteira, órfã, de 14 anos, Maria José, de 15 anos, solteira, agregada, e Jesuína Vitória, de 12 anos, sobrinha.

* Lúcio José, de 32 anos, paisano.

* Bernardo Antônio, de 25 anos.

* José Saraiva da Rocha, de 45 anos, avaliador do conselho.

* Francisco Jose Silva, de 28 anos.

* Tereza de Jesus, de 33 anos, viúva de Manoel Vicente.

* José Pedro Freire, de 50 anos.

* Leonor de Loureiro Lima, de 50 anos, casada com Francisco Gonçalves Lima Penante, que permaneceu em Belém. Com os filhos Antônio, de 30 anos, Francisca, de 15, e Alexandrina, de 4.

* João Roberto Carneiro, major de 1ª linha, 39 anos, com sua mulher, Henriqueta, de 24 anis, e os filhos Claudino Augusto, de 12, Pedro Augusto, de 9, Gentil Augusto, de um ano e meio, Josefa Carolina, de 10, e Maria Amélia, de 6.

* Estevão José dos Reis, 36 anos, empregado da alfândega.

* Claudia Tereza, de 18 anos, mulher do tenente de 1ª linha Varela, preso na fortaleza. Com sua mãe, Prudenciana Francisca, de 50 anos, sua tia, Luíza Caetano, de 40, a irmã Francisca Eduarda, de 20, e a prima, Francisca Camila, de 22.

* Francisco José Leal, de 46 anos.

* José Francisco, de 18 anos.

Antônio Valente Cordeiro, de 64 anos. Major reformado de 1ª linha.

* Lourenço Antônio Rodrigues Martins.

* Joana Maria, 30 anos.

Um garimpo de história

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 296, de janeiro de 2003)

Cabanagem (documentos ingleses), editado pela Secretaria de Cultura e a Imprensa Oficial do Estado (274 páginas) e lançado no último dia 30, em Belém, é o mais importante livro sobre a Cabanagem desde que Domingos Antônio Rayol concluiu o quinto volume de Os Motins Políticos, 130 anos atrás. O traço de união entre as duas obras, e o que as valoriza na bibliografia sobre o acontecimento, é a quantidade de documentos primários que nelas está contido.

Contemporâneo do movimento social que irrompeu em 1835 e se prolongou até 1840, provocando a morte de pelo menos 20% dos 150 mil habitantes da província do Grão-Pará e Rio Negro, o Barão de Guajará foi o maior de todos os divulgadores da documentação nacional. Agora, graças ao historiador David Cleary, estamos tendo acesso a uma valiosa porção dos papéis oficiais produzidos na época por representantes do império britânico.

A partir de agora, ninguém poderá escrever sobre a Cabanagem sem levar em consideração os documentos do Ministério das Relações Exteriores e da Marinha da Inglaterra, recolhidos no arquivo público de Londres (o Public Record Office, um “paraíso para historiadores”, segundo Cleary) e reproduzidos no livro. Há cinco anos esse material está à disposição dos pesquisadores mais ansiosos e à espera de aparecer na forma impressa, tantas vezes anunciada quantas postergada, sem justificação plausível.

Ao ver esses papéis pela primeira vez, apresentados pelo então diretor do Arquivo Público do Pará, Márcio Meira, fiquei em estado de choque. Li sofregamente todos os documentos, mas com estarrecimento uma carta do embaixador inglês no Rio ao ministro do exterior do seu país, lorde Palmerston, relatando proposta – secreta e confidencial – do padre Diogo Antônio Feijó para que a Inglaterra reprimisse com suas tropas os cabanos rebelados (e que divulguei nacionalmente, em artigo de página inteira, no jornal O Estado de S. Paulo).

Essa carta e os demais documentos não permitem uma visão conclusiva sobre a Cabanagem, nem são suficientes para exprimi-la convincentemente, mesmo porque ainda há arquivos a vascular, no Brasil e nos Estados Unidos, Portugal, Inglaterra, França e, talvez, Holanda. Mas esses papéis põem abaixo muitos mitos e distorções ideológicas sobre o que, na litania petista do prefeito Edmilson Rodrigues, por exemplo, seria a expressão mais pura da revolução dos oprimidos contra os opressores, dos que não têm contra os que têm (na bela frase de Handelmann), dos nacionais contra os estrangeiros, da aldeia cabana (ainda que de concreto) contra a urbe neoliberal e a globalização.

Ao invés de provocar polêmica e discussão, a despeito dos vários artigos que meu irmão, Elias Pinto, e eu escrevemos, a preciosa documentação inglesa continuou abandonada nos porões do Arquivo Público em Belém, ignorada pela intelectualidade e guardada com certa negligência por seus responsáveis oficiais. Talvez porque essa documentação primária, ouro puro depois de tanto cascalho interpretativo, exija uma completa revisão conceitual, um recomeçar (se não do começo, ao menos de muito atrás) e trabalho de verdadeiro historiador, aquele que revela e não apenas reinterpreta, retrabalhando fontes secundárias, dizendo de outra forma o que já foi dito antes (nem sempre citando a fonte original).

Agora esse silêncio conveniente será quebrado. Os documentos chegam finalmente à rua, ao domínio público. A pressa e as circunstâncias, infelizmente, provocaram danos à obra. A apresentação de Geraldo Coelho, diretor do arquivo, é dispensável. Parece ter sido escrita com desinteresse e certo relaxamento.

A rica introdução de David Cleary, escrita no melhor estilo do ensaísmo inglês, com humor e clareza, se ressente de uma revisão. Por causa da falta de pleno domínio do português de seu autor, o texto devia ter sido ajustado para que incorreções naturais no trato da língua por um estrangeiro fossem expurgadas. Ainda assim, Cleary ajuda seu leitor na leitura dos documentos e na compreensão do seu significado, iluminando o pano de fundo do acontecimento histórico.

A leitura do livro é dificultada pelo tipo pequeno das letras, pela falta de contraste no papel (de indesejada transparência), pela mancha de impressão demasiadamente grande, que reduziu as margens. Mas ainda assim a obra tem tanto valor que logo deverá estar numa segunda edição, corrigida e melhorada, como ela merece e todos nós merecemos.

Mais do que todos, merece esse complexo e fascinante momento da nossa história. Cabanagem (documentos ingleses), liberto dos porões do Arquivo Público, provocará impacto em Belém, no Rio de Janeiro, em Londres e em várias outras praças, nacionais e estrangeiras. Pelo simples fato de restabelecer a vida a um acontecimento de significado para a história da humanidade, tão vivo antes quanto agora.

Teses de jornalista revisam a história

O jornalista paraense Sérgio Buarque de Gusmão lançou em São Paulo, onde mora há 45 anos, Nova Historia da Cabanagem – seis teses revisam a insurreição que incendiou o Grão-Pará em 1835, em edição (com 374 páginas) por ele mesmo assumida. É um livro que pode provocar debates fecundos entre os paraenses e as pessoas que acompanham essa que foi a maior revolta do império e das maiores da história brasileira.

Como convite à leitura do livro, reproduzo um texto escrito por José Carlos Ruy, em seguida, o meu, que serviu de prefácio ao livro, e o do autor. Espero que renovem a discussão sobre o tema.

 

Texto de José Carlos Ruy

 

A Cabanagem – levante popular que conflagrou o Grão-Pará na segunda metade da década de 1830 – é um episódio da história da luta popular no Brasil envolvido em inúmeros mitos. E que são agora enfrentados em Nova Historia da Cabanagem – seis teses revisam a insurreição que incendiou o Grão-Pará em 1835, de autoria do jornalista e historiador Sérgio Buarque de Gusmão.

O livro, que acaba de ser lançado, examina em profundidade a bibliografia existente (que já é farta, embora repetitiva) sobre a Cabanagem, e compara suas informações com documentos existentes nos arquivos públicos do Pará. A larga experiência jornalística do autor é visível na linguagem clara e direta que o livro revela. Não há exercícios retóricos ou metodológicos mas a intenção de comunicar aos leitores as ideias nele discutidas, sem qualquer artificialismo. E sem deixar de lado o necessário rigor científico que uma empreitada dessa natureza exige.

Esse rigor que une as atividades do historiador e do jornalista é o firme e constante respeito ao fato – acontecido no presente ou no passado longínquo mas documentados da forma mais precisa possível. “Convém ponderar que História (e Jornalismo, o ofício do autor) dependem do fato”, diz Sérgio na Nota do autor que abre o livro. “A interpretação é essencial para dar sentido contextualizado ao fato, expressão que dá visibilidade ao acontecimento”. Mas ela, insiste, “ainda que oxigenada por teorias e métodos mais elucidativos, é escrava do fato”.

Com base nesse rigor factual, ele desmonta inúmeros mitos e interpretações subjetivas daquele acontecimento histórico central não apenas para a história da Amazônia mas sobretudo brasileira dadas as contradições que enfrentou há quase dois séculos.

Um desses mitos diz respeito ao número de mortos repetido à exaustão pela historiografia, que fala em 30.000 a 40.000. A rebelião, e a repressão contra ela, foram sanguinárias e cruéis, não pode haver dúvida. Mas o exame da documentação e da bibliografia, a soma das perdas em batalhas e confrontos, não autoriza aquele número que, assegura Sérgio, “é fruto de exercício da arte divinatória”.

Há ainda a consideração do caráter daquela luta. Motim, revolta, revolução, levante – estas foram algumas das maneiras tradicionalmente usadas para definir a Cabanagem. Muitos disseram que houve desorientação entre os cabanos, que não teriam um programa. Tiveram; foi “o das lideranças, executado a ferro e fogo”, diz ele.

Sérgio Buarque de Gusmão mostra que o programa da insurreição popular – que envolveu desde grandes fazendeiros até índios, negros e o povo pobre – pode ser definido como democrático (era contra o despotismo vigente) e de libertação nacional (defendia a independência, contra o domínio português, e rejeitou influências estrangeiras).

A história da luta popular, democrática e nacional no Brasil precisa estar baseada nos fatos para que as interpretações que inspiram tenha efetividade nos enfrentamentos cotidianos do presente. Esta talvez seja a grande lição que Sérgio Buarque extrai dos acontecimentos ocorridos no Grão Pará. A amplitude daquela luta foi extensa – vai desde os enfrentamentos pela Independência, em 1822-1823, até a derrota final e sangrenta da Cabanagem, no final da década de 1840. E foi uma luta cujo programa não pode ficar preso aos sonhos e fantasias de seus intérpretes atuais – por mais bem intencionados que sejam. A verdade é revolucionária – este é um truísmo muito repetido. E. quando se conta a história, a verdade precisa estar amparada rigorosamente nos fatos. Apenas sendo assim é que a atividade de contar a história faz com que a história que realmente acontece entre os homens caminhe para frente.

 

Meu texto

 

Sérgio Roberto Buarque de Gusmão pertence a uma geração de jornalistas que já ultrapassaram a marca dos 60 anos, ainda com energia e sem perder a dignidade jamais (nem – ainda bem – o humor). Buarque, como alguns outros da turma, fez com brilho duas transições decisivas: da provinciana Belém do Pará para a metropolitana São Paulo; e de um jornalismo em sentido muito restrito para uma forma de jornalismo que, sendo sempre jornalismo, foi muito além dos parâmetros sob os quais essa geração se iniciou na profissão.

O adjetivo acompanhante desse tipo de jornalismo varia, conforme quem o define: jornalismo cultural, novo jornalismo, jornalismo investigativo, jornalismo científico e outros mais e quetais. Acho que todos os que o praticam se satisfariam em chamá-lo simplesmente de jornalismo. Conscientes, porém, de que fazer jornalismo não é simples nem fácil, embora pareça exatamente isso. Talvez porque o jeito e engenho de fazê-lo possui um forte componente de vocação, de amor e de paixão.

Não deixa de ser paradoxal que o envolvimento desses elementos subjetivos não contamine e muito menos prejudique a objetividade, o troféu maior perseguido pelos que praticam esse gênero de atividade, quando – e se – ela é realmente um exercício intelectual. Buarque e geração recebem como maná as declarações dos que os consideram operários das letras, sem a comiseração poética do coleguinha Vinícius de Moraes. O texto sai azeitado pela paixão, o amor, a vocação. Todos esses sentimentos, contudo, recebem a voz união da objetividade.

Nem Buarque nem seus companheiros de viagem perdem tempo com elucubrações aristotélicas sobre a expressão. Resolve-se o problema como Gringo com seu revólver mágico: objetividade é fato; fato é a ossatura dos acontecimentos humanos, a pauta de um jornalista, demasiadamente humanos, demasiadamente complexos. Podemos nos tornar brilhantes em devaneios filosóficos à margem da tessitura dos fatos, em narrativas sutis e descrições primorosas. Mas isso é o glacê do que interessa: a espinha factual (e dorsal).

Elementar, não? Não. Quantas vezes esse jornalista descobre, ao final de uma viagem como enviado especial da publicação que o emprega, ao arrumar as anotações feitas, que lhe faltou um fato vital. Nem sempre é um número, uma declaração. Pode ser um detalhe. Mas o gigante não se conhece pelo dedo e tudo morre pela falta do detalhe? A longa matéria está maravilhosa, mas não fecha. Ou melhor: pode ser fechada, mas no tapa. Pode agradar a todos os leitores, menos ao jornalista que a escreveu – e mesmo assim esse texto pode lhe dar a glória exterior; não a sua, interna, íntima. Ao vencedor, as batatas.

Monitorar os fatos relevantes, os que a imprensa tem que divulgar no dia a dia (não depois, quando der, porque a opinião pública tem que alimentar a sua agenda para poder fazer história no cotidiano), e seguir-lhe as pistas como um detetive incansável e fatal, implacável e certeiro. Sabe-se muito bem que essa arte resulta de muitos anos de um trabalho constante e cumulativo.

Digo tudo isto porque inegavelmente estamos diante de um livro de jornalismo escrito por jornalista. Mas que livro! E digo isto incorporando o preconceito acadêmico: não pode haver um grande livro escrito por jornalista. Jornalismo é impressionismo, empirismo, “achismo”. Não é ciência. Não merece ser referido por verdadeiros cientistas. Tem que ser expurgado das bibliografias acadêmicas.

De fato, quando jornalistas como Buarque começaram, as redações eram dominadas por um tipo de profissional, frequentemente brilhante e sedutor, que aplicava todas as suas faculdades na criação de textos de impacto, com estilo, em linguagem fluente, fosforescente, até antológicos, inesquecíveis. Os fatos, os dados e as informações eram rigorosamente detalhes. Havia renúncia tácita à exatidão e à fidelidade se elas prejudicavam a composição da história, vendida ao público com embrulho de luxo. O jornalismo ainda era literário. Como literatura, conquistava momentos sublimes. Como jornalismo, nem tanto. São lindos na cercadura de um jornal arquivado em qualquer centro de memória, a poeira do tempo.

O rigor desses jornalistas que agora gravitam pelos 60 anos consistiu em se apropriar de métodos (ou criá-los) que lhes permitiam chegar aos fatos. Nada de mais ou menos ou aproximadamente: a exatidão, o fato descarnado. Depois, quem sabe, conforme as aptidões e competências individuais, o glacê era magnífico. Jornalismo passou a ser fonte de consulta e jornalistas, um número crescente dos quais chegou às universidades, passaram a escrever livros como este.

Com ele, Sérgio Buarque acerta as contas com a esfinge da Cabanagem, um tema que há décadas está engasgado na garganta da compreensão de gerações de amazônicas e, felizmente, nos últimos tempos, com os brasileiros. Meticuloso, paciente e amoroso como sempre, Buarque sonda os fatos, penetra até o mais íntimo das verdades estabelecidas para submetê-las ao questionamento maiêutico.

Sua dialética não é apenas para despojar as informações da sua roupagem, muitas vezes mambembe, falsa, grandiloquente e oca. Ele checa o que já parecia insuscetível a qualquer dúvida e nessa verificação nos aponta o erro consolidado, o mito e, de acordo com seu entendimento, a novidade resultante de uma nova forma de ver e abordar.

É enganosa a forma que adotou para se expressar sobre esse incrível acontecimento histórico do Grão-Pará, a última – e maior – parcela do território nacional a aderir a este enigmático Brasil. Buarque formulou teses. Mesmo que essa escolha implique certas repetições na narrativa, ela é honesta e correta. Ao final de uma exaustiva pesquisa em todas as fontes disponíveis, o grande mérito do autor deste livro é enquadrar suas conclusões na formulação de teses. Não teses arbitrárias e soltas, mas sedimentadas em documentos de época e nas reconstruções e interpretações feitas depois do fato.

Sérgio Buarque de Gusmão rasga o manto diáfano das fantasias em torno da Cabanagem e reenquadra a suíte da história com seus sólidos enunciados interpretativos. Um trabalho meticuloso, árduo e rigoroso expurga a craca incrustada em livros e mais livros que se foram acumulando na bibliografia cabana, uns repetindo os outros em seus acertos e erros (estes, númerosos e graves). Como bom repórter, Buarque foi checar cada afirmativa e, uma vez desfeitos os mitos, retornou à tradição com as pérolas recuperadas através do seu mergulho nos documentos, submetidos a testes de consistência, à dúvida seminal.

A Cabanagem não teve um ideólogo nem realmente um programa de governo. Nenhum dos seus heróis foi indispensável. Não há, aliás, um cavaleiro sem jaça e sem mácula. A luta política é rasteira. Quanto menos ideias a amparam, mais violenta ela se torna – tanto nos atos quanto nas palavras. Mas será que realmente os números de mortos, de 30 mil a 40 mil, representando quase 30% da população do Grão-Pará, merecem fé? Ou a contagem foi inflacionada pelo ardor da patriotada regional? E quem, num momento, podia ser visto como revolucionário, republicano ou antiescravocrata, visto em outra situação contradiz essas definições. O que podia ser grandeza vira coisa rasteira.

Buarque refez a base sobre a qual a partir de agora devem continuar os esforços para reconstituir, entender e interpretar a Cabanagem. Seu livro provocativo e arguto não pode ser ignorado pelos que vierem a seguir, interessados no tema. Ainda faltam argumentos e provas para muitas perguntas e diversas suposições. Mas, ao contrário do que facilmente se proclama, o que não faltam são documentos. O que falta mesmo é disposição e método para enfrentá-los, como Buarque fez, limitado por um empreendimento individual de puro devotamento intelectual.

É bem sugestivo que a melhor definição sobre a Cabanagem tenha sido dada por um historiador alemão que nunca veio ao Brasil. Heinrich Handelmann cometeu muitos erros factuais no seu trabalho, que Buarque aponta, por seu método indireto, mas acertou em cheio na intuição profissional: foi a revolta dos que não têm contra os que têm. Uma autêntica luta entre opostos – de classe, de raça e de condição humana.

Quando cessaram as muitas diferenças pessoais, políticas e, com mais raridade, ideológicas, o que sobrou da Cabanagem foi o ódio acumulado e a desesperança dos que sempre foram explorados por aqueles que sempre os exploraram. Já sem líderes, heróis ou personagens diferenciadas, o que se seguiu foi brutalidade, selvageria, sangue e um grito de indignação e fúria. Foi quando o morticínio se tornou maior e muitos morreram, às centenas, no brigue-presídio, nos hospitais, no meio da rua e perdidos pela selva.

A “pacificação” foi pior do que na repressão aos insurgentes. Foi assim e continua a ser assim até hoje nas relações desequilibradas entre a Amazônia dominada e o Brasil (e mais além) que a domina. Por isso, a Cabanagem continua a ser um episódio marginal e secundário na historiografia nacional, muito falada e pouco compreendida, como a própria Amazônia dos nossos dias.

 

 

Texto do autor

 

Sérgio Buarque de Gusmão pertence a uma geração de que a Cabanagem foi sequestrada. Nos estudos que fez no Pará, nem no Ginásio Industrial Oliveira Brito, em Capanema, nem no curso Clássico do Colégio Estadual Paes de Carvalho, ouviu falar da grande insurreição regional da década de 1830. A cabanagem fora varrida da História.

Havia em Belém uma praça em homenagem a um precursor da Cabanagem, o advogado Filipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, personagem principal nos acontecimentos em torno da independência do Brasil (que se desligou do Pará bem antes da eclosão da revolta, em 1835), mas não havia um só logradouro ou monumento público a lembrar os cabanos – ao contrário, só existia, como ainda existe, a Rua Treze de Maio, a celebrar a data do desembarque do general que esmagou a insurreição, Francisco de Andreia, também homenageado com um monumento no Largo de Santo Antônio.

A exceção era um retrato de Eduardo Angelim pendurado desde 1936 no Instituto Histórico e Geográfico. Ainda circulava um livreto escolar de Dionísio João Hage, História do Pará (Editora do Brasil, 1962), para o “terceiro ano primário”, baseado em obras fora de circulação, como as de Jorge Hurley. O jornalista Carlos Roque, que iria ser o reanimador do interesse pela Cabanagem, começando a reabilitá-la em 1967 na sua Enciclopédia da Amazônia. A obra-catedral, os Motins Políticos de Domingos Antônio Raiol, barão de Guajará, publicada em cinco volumes entre 1865 e 1890, só seria reeditada em 1970 (em três volumes mal ordenados), para continuar a ser, como ainda é, o melhor trabalho sobre a insurreição.

Desde a reedição dos Motins, uma estante de livros tratou da insurreição do Pará. Embora a maioria dos autores beba na caudalosa fonte de Raiol, escrevem com a tinta da ingratidão. Fazem reparos ideológicos à obra do barão conservador e crítico severo da insurreição. Posto em ponta ideológica inversa, tais reparos desqualificariam as obras que canonizam os cabanos – com a agravante metodológica de que usam o material coletado por Raiol.

A artimanha já foi identificada por Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores conhecedores do assunto, a quem o autor deve as primeiras menções judiciosas da Cabanagem, e no lugar mais apropriado: o Arquivo Público da Rua Campos Sales onde ele e Lenil, sua mulher, pesquisavam a insurreição. Anos depois, insatisfeito com a bibliografia, Lúcio apontou “o sociologismo reducionista dessas obras, que aflige também a geografia, bitolada pela geopolítica de claro viés ideológico, que tudo explica com pouca demonstração factual e grande vazio informativo”, diz ele, acrescentando: “Simpáticos e altissonantes, sensíveis à participação dos humilhados e ofendidos, mas sem a densidade da obra máxima do barão.” 1

À historicidade do historiador não se pode cobrar isenção, tampouco a omissão de seus pontos de vista. Mas o leitor tem o direito de recusar a substituição do fato pela interpretação e, no caso da Cabanagem, distorção de episódios de que a única e sumária fonte é Raiol. Em Cabanagem – A Revolução Popular da Amazônia (Cejup, 1986), à parte o esforço de atualização metodológica, Pasquale Di Paulo usa exaustivamente o material de Raiol, muitas vezes, como tem sido regra, sem citá-lo ao longo de páginas, como se a pesquisa fosse sua. Embora reconhecendo em rodapé “o imenso valor da historiográfica de Raiol”, acusa-o de “leviandade” e distorções a que seu livro não está imune em numerosas tessituras ficcionais derivadas de um erro fatal: dissociar os acontecimentos de uma época, trazendo-as para a contemporaneidade sem a relativização devida ao passar do tempo.

A ficção chegou ao auge em Décio Freitas com A Miserável Revolução das Classes Infames (Record, 2005) em que o historiador gaúcho simplesmente inventou uma personagem, o revolucionário francês Jean-Jacques Berthier, transplantando-o do exílio na Guiana ao Grão-Pará, para testemunhar a Cabanagem e escrever cartas imaginárias exclusivas para o livro de Freitas. Ao contrário dos fabuladores, Raiol teve a ventura dos sonhos de um historiador: como Heródoto, o Pai da História, que inaugurou a prática, entrevistou protagonistas dos acontecimentos que narrava: Eduardo Angelim, Francisco Vinagre, Sousa Franco e numerosas “testemunhas oculares” arroladas nos Motins Políticos. O importante na obra deste grande historiador do Império não é a interpretação preconcebida, mas a reconstituição dos episódios a par da opulenta documentação que reuniu e legou à posteridade como ata do fato histórico.

A memória da Cabanagem é uma dádiva de Raiol.

Além de perscrutar a bibliografia disponível, o autor obteve documentos na Biblioteca e no Arquivo nacionais e no Serviço de Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro, no Centro de Documentação e Informação da Câmara dos Deputados e no Projeto Resgate, que reúne na internet documentação do Brasil colonial e imperial. No Arquivo Público do Estado do Pará pôde cotejar com as cópias ali guardadas transcrições de documentos oficiais já publicadas em livros, sobretudo nos de Domingos Raiol, Palma Muniz e Jorge Hurley.

Algumas fontes históricas aqui citadas não são inéditas, mas a releitura desvendou novidades, iluminou dados, senão episódios fartamente reproduzidos, cuja importância, e sobretudo conexões no processo histórico, não foram percebidas pelos que os transcreveram primeiro. Os documentos encerram mistérios. Nem sempre se esgotam, isto é, não se mostram inteiramente, na primeira visada ou interpretação; ao contrário, repousam na poeira dos arquivos ou no amarelecimento dos microfilmes à espera do cotejo de quem os relê e estuda com novas ferramentas de entendimentos e conhecimentos indisponíveis na época em que foram gerados.

O que um analista obscurece, outro clareia. Onde dois viram uma ninharia, um terceiro enxerga um tesouro. O que foi reduzido a pouco em uma leitura isolada agiganta-se no entrelaço do conjunto. O reexame de uma transcrição parcial e seletiva pode desfazer uma intervenção na narrativa dos acontecimentos, em geral feita para melhor sustentação de uma tese ou suporte à interpretação. Se a História é uma ciência, distingue-se de outras, sobretudo das Exatas, em que o resultado da pesquisa, refeita por outro cientista em idênticas condições, deve ser rigorosamente exato ao original.

Convém ponderar que História (como o Jornalismo, o ofício do autor) depende do fato. A interpretação, ainda que oxigenada por teorias e métodos mais elucidativos, é escrava do fato. Daí porque, tanto no Jornalismo como na História, o fato tem de ser autêntico e robusto, para legitimar a interpretação e autorizar a conclusão. A interpretação não se pode basear em elementos impertinentes, imaginados pelo historiador. Quem é do ramo, como Roger Chartier, adverte: Numa época em que nossa relação com o passado está ameaçada pela forte tentação de criar histórias imaginadas ou imaginárias, é fundamental e urgente a reflexão sobre as condições que permitem sustentar um discurso histórico como representação e explicação adequadas da realidade que foi (A História ou a Leitura do Tempo, Autêntica, 2009).

Há de se conservar a ambivalência indiciária do método analítico, ou seja, um equilíbrio entre fato e interpretação. Por isso não se adota aqui o repúdio à velha historiografia nutrida de nomes, datas e episódios, embora, ao contrário do muito que se diz, interpretativa. Nem se cai no canto da sereia metodológica dos que utilizam categorias baseadas na determinação com a obsessão de inserir qualquer sucesso histórico em um  modo de produção ou interesse de classe.

Tais considerações ilustram as contestações e reparos que as teses aqui apresentadas opõem a fatos ou e/ou conjuntos de fatos inscritos na narrativa da Cabanagem como verdades acabadas. Verifica-se que interpretações, ilações, suposições lastrearam conclusões sem fatos que as autorizassem. Outras foram baseadas em dados distorcidos e até falsificados. O próprio autor, em raro artigo sobre a Cabanagem, publicado na ligeireza da internet, embarcou no trem fantasma das incorreções impenitentes.2

O rol de impropriedades repisadas e cristalizadas na narrativa da Cabanagem começa pelo nome, pois a designação cabanos não tem filiação etimológica à moradia dos insurretos, e passa pela trajetória dos protagonistas: o cônego Batista Campos não foi “ideólogo” da insurreição nem o tribuno popular que figura em seu panegírico, o renegado presidente Félix Clemente Malcher não foi um anticabano e seu sucessor Francisco Vinagre não foi um quadro heroico. Ao contrário da fantasia construída como tradição, a Cabanagem teve sim um programa, o das lideranças, executado a ferro e fogo. Já o número de mortos, esticado de 30.000 a 40.000 pessoas, é puro exercício de arte especulativa, ainda que praticada por tantos autores, alguns deles levados na conta de sérios (uns raros sendo, de fato, sérios, mas não perfeitos).

A pesquisa documental e o cotejo de obras conduziram a resultados antagônicos ao que virou senso comum. Nessa trajetória, o sentido adotado de tese é mais de antítese do que uma proposição teórica preliminar. Ensaio talvez fosse mais apropriado, pois, se os seis pontos temáticos abordados poderiam ser bordados em poucas páginas, estenderam-se em  longa  linha narrativa para costurar um manto historiográfico talhado em revisões factuais. Para que cada tese-capítulo tivesse autonomia relativa, muitos episódios foram mencionados e contextualizados mais de uma vez. A fórmula permitiu ao autor recontar e reinterpretar processos importantes da insurreição, seus antecedentes e consequências, para oferecer uma outra história do que foi – e do que não foi – a insurreição que galvanizou o Grão-Pará na década de 1830.

São Paulo, 2014, ano do centenário do estadista precoce Eduardo Angelim

 

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1 – Jornal Pessoal, n.º 523, 2ª quinzena de outubro de 2012, p. 11.

2 – Nos Desvãos da Cabanagem, disponível em www.contracorrente.org/indice/nos-desvaos-da-cabanagem.html

Desordem amazônica

O cônego Batista Campos foi a mais ativa liderança do período dos “motins políticos” no Pará, um dos mais importantes da história brasileira. Os acontecimentos que se sucederam entre 1821 e 1836, culminando com a cabanagem, provocaram mais de 30 mil mortes (numa época em que a Amazônia tinha 150 mil habitantes), até a anistia, dada pelo imperador, em 1840, quando os últimos cabanos ainda estavam com as armas nas mãos.

Batista Campos ercorreu masmorras por causa do que publicou nos primeiros jornais da província, desafiando o monolítico domínio português sobre mais da metade do território nacional, que se manteve intacto mesmo depois da independência política do país.

Sua cabeça foi colocada na boca de um canhão, pronto para disparar, com o mourão aceso, quando a execução foi milagrosamente suspensa, por interferência do bispo. Escapou de atentados e espancamentos. Mas acabaria morrendo prosaicamente: um corte de navalha numa espinha carnal, quando fazia a barba, gangrenou.

Fugindo pela mata da perseguição determinada pelo governador-geral da província, não teve atendimento adequado. Morreu uma semana antes de estourar a cabanagem, em 31 de dezembro de 1834. Deixou de colher o que plantou ao longo de 13 anos.

No olho do furacão quem ficou foi um cearense de 21 anos, que chegou ao Pará apenas oito anos antes, fugindo de mais uma seca inclemente no agreste nordestino. Eduardo era tão valente, com sua coragem demonstrada no sangrento levante dos comerciantes portugueses de 1833, que deixou de ser conhecido pelo sobrenome, Nogueira. Passou a ser Eduardo Angelim, rebatizado com a designação de uma madeira rija da Amazônia, pau de dar em doido, como se poderia dizer depois.

Antes de abandonar Belém, onde os revoltosos já não mais se podiam manter, devido ao rigoroso cerco da cidade pelas tropas do governo imperial, Angelim chamou o bispo, dom Romualdo. Entregou-lhe mais de 95 contos de réis, dinheiro do tesouro, para repassar ao marechal Soares de Andréa, quando ele ocupasse a cidade. O tirânico Andréa recebeu o dinheiro. Outros 16 contos, que Angelim deixou com um outro religioso, que eram seus, foram confiscados.

Grandes personagens, esses. Mas eles entram e saem ilesos de Desordem (Editora Record, Rio de Janeiro, 252 páginas, R$ 25), o segundo romance da tetralogia concebida por Márcio Souza para retratar ficcionalmente esse período decisivo da história da Amazônia, um dos mais maltratados da história brasileira, ainda pouco referido nos manuais e mesmo nos livros especializados.

O segundo livro é um pouco melhor do que Lealdade, o volume inaugural da série, também relançado pela Record, que promete bancar os dois volumes que ainda faltam para completar o ciclo (Revolta e Derrota). Mas está bem abaixo dos melhores momentos do escritor amazonense, cada vez mais distantes. E é um pálido reflexo literário dos acontecimentos e da gente do Grão-Pará na decisiva primeira metade do século XIX.

Como fez questão de assinalar, Márcio Souza começou a escrever Desordem em Manaus, no dia 2 de fevereiro de 1998, e o concluiu “no Delmonico Hotel, New York, no dia 26 de março de 2000”. Dispôs, portanto, de mais de dois anos para realizar a obra. Mas ela dá a impressão de texto apressado, sem uma pesquisa documental correspondente à importância e complexidade do tema – e sem uma revisão à altura do conceito do autor de Galvez, o imperador do Acre e A resistível ascensão do boto Tucuxi, livros que o tornaram conhecido nacionalmente, permitindo-lhe sair dos limites da sua provinciana Manaus, onde nasceu.

Revisão bem feita teria impedido que a um período terminado com “final” sucedesse outra oração, iniciada com “Finalmente”, por exemplo, sem o propósito de aliteração, nem eufonia. Ou uma linguagem de dramalhão mexicano para descrever o estado de espírito de Anne-Marie Presle de Senna: “um vazio terrível abria-se em meu peito como uma cratera e a realidade da perda me esbofeteava a cara”. Pura dramaturgia Record ou SBT.

Mas isso, para quem lê Márcio Souza de há muito, embora com decrescente prazer nos trabalhos mais recentes, é o que menos conta. Ele não é propriamente um mestre da língua. O que impressiona é vê-lo colocar na boca de Batista Campos, um “filho da floresta”, ciente de que “a selva tudo dá”, a observação: “Em outubro as águas iam baixando rapidamente e os rios começavam a secar nas suas cabeceiras”.

Em Belém, Barcarena ou no Acará, por onde o cônego transitava, Batista Campos jamais poderia ver esse fenômeno em outubro, quando as águas, após o auge da vazante, já estão começando movimento exatamente inverso, do início da cheia, que irá durar um semestre. Transportado – quem sabe – para Roraima pelas asas da imaginação do escritor, que tudo pode, é verdade, mas nem tudo deve poder, Batista Campos talvez tivesse alguma credibilidade como personagem dizendo essas coisas.

Confiando na sua boa memória e no seu invejável conhecimento, o diretor da Funarte (Fundação Nacional de Arte, vinculada ao Ministério da Cultura) se permite antecipar em 50 anos ou um século inteiro a história da borracha na Amazônia. No seu romance, a Belém dos setecentos já desabrocha como “uma flor branca de seringueira”. No século XVIII, “nos tempos do Marquês” (de Pombal), a borracha in natura já dava “lucros fabulosos”.

Uma cultura tão afluente que o seringal no qual Eduardo Angelim trabalhara, o Nova Jerusalém, foi bastante lucrativo entre 1790 e 1820, “com suas manufaturas exportando um grande número de produtos para diversos países”. “No auge de sua produção, nos idos de 1800, o seringal chegava a ter quase 50 seringueiros cortando a seringa, produzindo em cada safra quase 30 toneladas em pélas, que eram transformadas em chapéus, impermeáveis, instrumentos cirúrgicos, por uns 20 trabalhadores”.

É nobre a intenção do autor: mostrar que a cultura da borracha começou mais cedo e teve importância na Amazônia mesmo antes que a revolução industrial lhe desse utilização massiva, como fornecedora de pneumáticos para a indústria automobilística, já na passagem para o século seguinte. Talvez no afã de impressionar desatentos leitores, entretanto, Márcio exagerou na mão. Sua fantasia se desconectou de sua indispensável função pedagógica.

Em 1830, a Inglaterra, maior importadora da borracha amazônica, comprou apenas 211 quilos. Quase 30 anos depois o salto já era notável, mas ainda se limitava a 10 toneladas. Só em 1874, com a aplicação da borracha aos fios telegráficos, é que sua aquisição se aproximou de 60 toneladas, apenas o dobro do que já obtinha o seringal Nova Jerusalém seis décadas antes.

É certo que os volumes se referem à borracha bruta. O Pará já ia se desenvolvendo nos artefatos à base do leite da seringueira, a árvore que chora (segundo o belo título que Vicki Baum deu ao seu excelente romance, escrito sem um conhecimento vivencial, como o do amazonense Márcio Souza, porém muito mais pesquisado e bem finalizado). No entanto, o registro sobre 450 mil pares de sapatos vendidos refere-se ao ano de 1839, pós-Cabanagem.

Essa indústria artesanal se sustentava na proximidade entre a fonte de suprimento e o local do beneficiamento. Os seringais estavam em torno de Belém, uma situação inimaginável aos olhos do belenense de hoje, mas que se pode reconstituir através dos vivíssimos relatos dos naturalistas Spix & Martius, em sua fascinante Viagem ao Brasil.

O incremento das importações de matéria bruta, fenômeno da segunda metade do século XIX (e não da era pombalina), quando a designação da árvore como hevea brasiliensis se consolida (facilitando identificação, coleta e processamento) e espécimes completos são levados para a Europa (não como contrabando, mas com autorização do governo brasileiro), acabariam com o incremento desse parque manufatureiro. Confirmaria, em mais esse caso, a tragédia derivada do descompasso entre a frente econômica e a fronteira do conhecimento.

A assimetria histórica de A Desordem dá à incipiente cultura da seringa o status de safra agrícola regular bem antes de começar o século XIX, quando seringueiras estavam sendo replantadas para substituir “as árvores cansadas, doentes e mortas, como vinha sendo há muitas décadas”, contadas pela principal personagem do livro.

Ela pode ser definida como uma espécie de Vovó Zulmira (de Stanislaw Ponte Preta) avant la lettre, tais as aventuras, venturas e desventuras de sua biografia, a despeito disso elíptica, entre a Guiana, o Pará e a França. Seria tal o plantio e replantio “que só se continuava a chamar os seringais de toda a bacia de silvestres por uma questão meramente de costume”, embora Belém fosse o vértice do centro de produção em torno de si e “toda a bacia” fosse ainda uma incógnita.

O descompromisso com a cronologia histórica, talvez sustentada num habeas corpus preventivo conferindo arbitrariedade à criação, permite ao ex-diretor da Biblioteca Nacional declarar que Eduardo Angelim vivia em seringal “desde que se entendia por gente”.

Tal declaração equivale a um atestado de retardamento mental ao maior dos personagens da cabanagem, notável exatamente por sua precocidade. Afinal, até os 13 anos ele vivia era em Aracati, no Ceará, de onde sua família foi tocada pela seca para o Pará, em 1827. Não foi, portanto, aos sete anos que ele fez essa migração, como está dito no romance, que claudica tanto numa face, a de história de época, quanto na outra, a de literatura.

Nem é um bom romance em si, enquanto obra literária, com construção de personagens, descrição de paisagens, tessitura de trama. Nem como um guia para penetrar numa época tão rica como a da transição entre o país português e o país brasileiro. Foi nessa época que a região começou a ser descarnada de sua identidade e transformada num hinterland dos centros hegemônicos, nacional e internacional, assumindo a feição do colonizador, entronizando em si cabeça alheia, no velho – e sempre trágico – mimetismo.

A Desordem, como muitos outros romances de uma vertente já exaustivamente explorada, tem sua origem num manuscrito encontrado muitos anos depois de ter sido escrito. Mais do que um diário da muy original francesa Anne-Marie, seria um romance embrionário, à espera de autor para lhe dar forma definitiva. Pelas mãos da organizadora do volume, Terezinha Chermont de Miranda, o verdadeiro criador de tudo se acautela contra os previsíveis críticos de suas várias linhas cruzadas de criação, com meta-ficção, meta-discurso e meta-merchandising (sem falar nas meta-setas envenenadas, de veneno já aquoso e seta empenada pela falta de destreza do arqueiro imaginário).

Assim, ele desdenha das restrições dos “linguistas do NAEA” (brincadeira com o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará), para os quais “a tradução de um texto francês de meados do século XIX para o vernáculo atual descaracterizaria sua essência sintática. E qualquer tentativa de mimetizar um sabor sintático do século XIX no vernáculo atual não passaria de contrafação”. A crítica, admite Márcio, é “pertinaz, mas muito rigorosa”. Ele preferiu dar ao leitor comum a possibilidade de chegar ao texto da personagem “e ter uma leitura sem ruídos, sem vocábulos caídos em desuso ou referências enigmáticas que o passado apagou”.

Márcio criou um falso problema, já tantas vezes resolvido pela literatura. Que ruído causaria ao ouvido hodierno ler léguas como medida de área, ao invés de hectare, expressão inexistente na fraseologia da época? Mesmo uma francesa anotaria em seu futuro romance haver classes médias na Belém daquele seu tempo?

Quem quiser conhecer intimamente a gloriosa França, que chegou à grande revolução em 1789, e a Paris que lhe serviu de útero, estará muito bem servido pelos romances de Alexandre Dumas. Seus livros são uma experiência marcante para o resto da vida, com suas minudentes descrições do mundo da nobreza e do mundo da ralé, cada um à sua própria moda, em seu contexto específico. Mais do que por um tratado, manual ou qualquer outra reconstrução intelectual.

Não é preciso, contudo, retornar a tanto nem a tão longe. Haroldo Maranhão, talvez o maior escritor vivo do Pará (há muito anos morando no Rio de Janeiro, como o próprio Márcio) resolveu todos os impasses nos quais o autor de Desordem viu-se dividido, recompondo um passado posto em desuso (mas nunca apagado, é claro) para o entendimento dos seus leitores contemporâneos, sem desmerecer estes nem transformar aqueles em caricatura.

O preço do falso problema, que deriva da não assimilação do conhecimento histórico e da forja criativa de fogo baixo do autor, é não ser capaz de reter os personagens, seres que surgem e se evaporam no curso de A Desordem como perfume barato, neste caso não por sua essência bruta, que é marcante, mas pelo fixador ruim que lhe foi aplicado.

Ainda assim, o Márcio Souza parvenu carioca-novaiorquino (a escrever livros em hotel da Big Aplle) não conseguirá destruir a obra definitiva que o amazonense Márcio Souza assegurou para a posteridade, quando escrevia com uma inteligência afiada. E com uma alma viva.