Documentos ingleses (7)

Desde que Domingos Antônio Rayol publicou os documentos originais da época da cabanagem no seu clássico livro Os Motins Políticos, a série de correspondências trocadas entre representantes diplomáticos do governo britânico no Brasil e no Caribe, autoridades militares e o ministro das relações exteriores da Inglaterra é a mais importante fonte de informações sobre as revoltas de 1835 a 1840.

Mostram como a nação mais poderosa do mundo de então analisavam o desempenho do governo brasileiro, comandado pelo regente Diogo Antônio Feijó, e os rebeldes do Pará, já sob o último governo cabano, de Eduardo Angelim. É uma documentação preciosa, à qual, porém, os historiadores não têm dado a atenção merecida. Ela impõe uma reavaliação de tudo que foi escrito sobre a cabanagem até a revelação dos “documentos ingleses”, graças ao pesquisador americano David Cleary, já mais de uma década atrás.

Na reprodução dos textos, fiz correções, acrescentei observações (em itálico, entre colchetes) e destaquei trechos em negrito.

Espero que o leitor, na leitura, projete as lições do passado para a melhor compreensão do presente.

De:    Palmerston

Para: W. G. Ouseley,  Chargé [o encarregado dos negócios na embaixada no Rio de Janeiro], Rio

Ministério das Relações Exteriores

5 de Abril de 1836                           Recebida. Paquete Goldfinch, 22 de Maio de

Senhor

Anexo, para sua informação e orientação, a cópia de uma nota que enviei a M. Galvão, Ministro brasileiro neste país, informando-o sobre as medidas que foram tomadas pelo Vice Almirante, Mr. George Cockbum [Cockburn], a fim conseguir reparação para os atos de assassinato e pirataria a bordo da escuna inglesa Clio, em Salinas, próximo à foz do Rio Pará, no mês de Outubro último.

Permaneço, etc…

Anexo

Ministério das Relações Exteriores, 26 de Março de 1836

Senhor,

O Sub-Secretário de Estado pede dar ciência a M. Galvão que o Governo de Sua Majestade recebeu de Sir. George Cockburn, Almirante em comando das forças navais de Sua Majestade nas Índias Ocidentais, um relato declarando que um brigue inglês denominado “Clio” foi capturado e saqueado no dia 3 de Outubro último por um bando de piratas no litoral de Salinas, próximo à foz do Rio Pará, e que o comandante e três outros membros da tripulação foram assassinados.

Parece que o Clio estava seguindo para o Pará e fez escala em Salinas no dia 30 de Setembro último à procura de um prático, e que algumas pessoas daquele lugar, descobrindo que parte do carregamento era composto de armamentos, detiveram o Comandante na praia; o navio [foi] dominado por pessoas de Salinas e, próximo àquele local, o comandante e os três homens foram subsequentemente assassinados.

Após ter recebido informação fidedigna desses atos, Sir. George Cockburn instruiu o Capitão Strong, oficial em comando do Navio de Sua Majestade Belvidere, para reunir a esquadra dos navios de Sua Majestade e prosseguir para a entrada do Rio Pará.

O Capitão Strong, após sua chegada, deveria averiguar se as autoridades brasileiras haviam se estabelecido novamente na província e, caso positivo, ele deveria exigir que medidas imediatas fossem tomadas para encontrar, julgar e punir todas as pessoas de alguma forma envolvidas na  captura do Clio e no assassinato de sua tripulação ou no saque e ocultamento de sua carga;  deveria também exigir uma confirmação por parte das autoridades brasileiras de que os proprietários do Clio seriam indenizados pela perda daquela embarcação e de sua carga.

Na eventualidade de descobrir que a autoridade do Imperador do Brasil não havia sido restabelecida no Pará, o Capitão Strong deveria se dirigir a qualquer chefe local que tivesse poder e autoridade suficientes para executar as medidas de reparação e, se não se encontrasse tal chefe, o Capitão Strong deveria aportar em Salinas e obter a reparação por quaisquer meios que a força do seu comando o permitisse empregar.

O Ministério do Exterior roga  adicionar a esta declaração que o Governo de Sua Majestade aprovou inteiramente a presteza, energia e discrição demonstrada por Sir. G. Cockburn nessa ocasião e o Ministério do Exterior acredita que o Governo Brasileiro, quando tomar conhecimento das atrozes circunstâncias do crime cometido em Salinas, e a natureza das instruções expedidas pelo Almirante, ficará convencido de que, enquanto por um lado Sir. G. Cockburn estava empenhado em não permitir que esses atos ficassem impunes, por outro, ele tomou todas as precauções possíveis para assegurar que o devido respeito fosse demonstrado pelos direitos da Coroa do Brasil.

Permaneço, etc…

                                              *

De :   Palmerston

Para: W.G. Ouseley,  Chargé, Rio

Ministério das Relações Exteriores

9 de Maio de 1836                                    Despacho no.8

(Recebida do Paquete de Sua Majestade Delight,  23 de Junho de 1836)

Senhor

Recebi de Mr. Fox o despacho no.61 de 17 de Dezembro último, no qual ele relata o pedido confidencial feito a ele e ao ministro francês pelo Regente do Brasil, solicitando a assistência da Inglaterra e da França com respeito à recuperação da província do Pará.

O Governo de Sua Majestade não deixou de dar a mais atenciosa consideração à sugestão feita nessa ocasião pelo Regente do Brasil, mas lamenta que, embora com todo o desejo de sua parte de manifestar em todas as ocasiões os seus cordiais sentimentos ao Imperador e ao seu Governo, não se sente à vontade para aconselhar a Sua Majestade no sentido de cumprir os desejos do Regente.

Em primeiro lugar, interferir tão diretamente nos assuntos internos do Brasil, seriauma divergência com os princípios gerais que regem a conduta do governo britânico em relação aos países estrangeiros, já que as medidas sugeridas pelo Regente eventualmente envolveriam a necessidade de fazê-lo.

Seria indecoroso para com a dignidade deste país fazer uma demonstração sem estar preparado para acompanhá-la, se fracassada, pela força: e o Governo de Sua Majestade não acreditava justificável se envolver em operações em terra pelo interior da província do Pará, a fim de apoiar a autoridade do Governo do Rio de Janeiro contra a população do distrito.

Mas, mesmo que não existissem, em termos gerais, objeções insuperáveis a essa maneira de proceder, a Constituição do Brasil parece se opor a um intransponível impedimento, porque assim foi declarado pelo Regente, que a Constituição expressamente proíbe a penetração de tropas estrangeiras em território brasileiro sem consentimento da Legislatura.

Portanto, mesmo que o pedido de ajuda militar fosse feito pelas brasileiras autoridades competentes, o Governo de Sua Majestade se sentiria sob a dolorosa necessidade de se recusar a atender a esse pedido; portanto, poderia muito bem supor que eles não estariam dispostos a enviar uma força numa maneira que pudesse representar uma violação à constituição do Império Brasileiro.

Ao fazer esta comunicação V. Senhoria dirá entretanto, que o Governo de Sua Majestade está altamente gratificado pela confiança, por parte do Regente, confiança esta provada tão inequivocamente por sua sugestão, e que o Governo de Sua Majestade sinceramente espera que as medidas sábias e enérgicas adotadas pelo Regente para a pacificação do Pará sejam bem sucedidas na restauração da paz e da boa ordem naquela importante Província.

Permaneço, etc…

                                              *

De:    Ouseley

Para:  Palmerston

Rio, 19 de Maio de 1836                                    Despacho no.23

Meu Senhor

A Província do Pará continua em estado de anarquia e guerra civil, tampouco parece provável que o governo imperial possa restaurar tão cedo a tranquilidade.  Espera-se a qualquer momento que o Com. Taylor retorne do norte para cá.

O “Relatório”, ou relato dos Ministros da Justiça e do Império que eu vi, mas que de ainda não tive oportunidade de conseguir cópias, está longe de descrever a posição da província do Pará e de São Pedro do Sul [Rio Grande do Sul], de uma maneira favorável. Há motivos para crer que o perturbado estado do Império está sendo colocando em evidência, de forma deliberada, para corroborar a ideia do Regente para obter uma extensão do poder.   Posso afirmar, entretanto, com boa dose de autoridade, que o estado lamentavelmente desorganizado de uma grande parte do Brasil, dificilmente pode ser exagerado.

Tenho a honra de …….

                                              *

De:    Ouseley, Chargé, Rio

Para: Palmerston

Rio, 19 de Maio de 1836                                              Despacho no.26

Excelência

Com referência ao despacho no. 3 deste ano de V. Excelência, endereçado ao Mr. Fox relatando as medidas tomadas pelo Governo Brasileiro para evitar, ou reprimir, a revolta no Pará, tomei providências para obter um relato preciso dos seus procedimentos e espero em breve poder ter a honra de apresentar a V. Excelência a informação que o Mr. Fox foi instruído para fornecer quanto à adequação e natureza dos esforços feitos por esse governo brasileiro naquela ocasião.

Entretanto, não há dúvida de que a impressão geral é que as medidas do governo foram dilatórias, ineficientes e marcadas pela falta de firmeza e previsão.

Como prova da pouca confiabilidade que deve ser depositada sobre o efetivo resultado das decisões ou ordens desse governo, fui informado de que, em certa ocasião em que foi ordenado o recrutamento ou reforço de 400 homens ou mais, para se unir às forças do Governo, somente 6 homens de fato se reuniram aos seus comandantes – e pareceu, consequentemente, que havia 2 oficiais generais para comandar aqueles 6 homens.

Tenho quase certeza de obter do Comodoro Taylor, no seu retorno, informações detalhadas sobre o assunto da deficiência tanto no número das tropas como nos suprimentos fornecidos à expedição do Pará

É possível que seja argumentado que o governo brasileiro não tem se mostrado, em hipótese alguma, extraordinariamente lento ou ineficiente, deficiente no empenho ou na capacidade, para evitar ou remediar os infortúnios ocorrido no Pará, do que tem feito em muitas outras ocasiões de Emergência e, seja qual for a importância imputada a ele, com certeza existe um fundamento para tal argumento.

Tenho a honra de ser,   etc…

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Documentos ingleses (6)

Esses novos documentos ingleses mostram as diferentes linguagens usadas pelo presidente legal da província, pelo presidente rebelde e pelo representante da poderosa marinha inglesa, a tônica da correspondência que travaram.

 QUINTO ANEXO

De:    Manoel George Rodrigues, Presidente do Pará

Para: Capitão Strong, Navio de Sua Majestade Belvidera

Sem data [1836]

Ilustre Senhor,

Tendo enviado o Capitão Warren, comandante do Brigue de Sua Majestade Snake para me inteirar verbalmente que amanhã V. Senhoria  pretende zarpar para o Pará sem me informar para que finalidade, é meu dever informar-lhe de que o porto do Pará foi declarado em estado de bloqueio, conforme o Comodoro John Taylor lhe deve ter informado verbalmente e, para informação adicional, anexo uma cópia de uma comunicação que o ministro das relações exteriores de Sua Majestade Imperial, o Imperador do Brasil, dirigiu aos Chargés des Affaires [encarregados de negócios] de todas as nações que estão na capital do Império; ao ver esse documento, estou convencido de que V. Senhoria  não irá violar os direitos que o governo brasileiro tem sobre o seu próprio território.

É meu dever protestar, como protesto agora, contra V. Senhoria ou quem quer que  seja, por qualquer infração que possa ser feita contra os tratados de paz recíprocos e antigas  amizades  existentes  entre as duas ilustres partes contratadas – Grã-Bretanha e Brasil – mais particularmente quando este, ou qualquer outro de seus delegados,  não tiver dado motivos, diretos ou indiretos, para infringi-los, pelo contrário, quando tiver feito todo o possível para manter intata a boa fé de todos aqueles tratados.

Tenho a honra de ser etc …

SEXTO ANEXO

De:    Capitão Strong

Para:  Eduardo, Francisco Nogueira Angelino

Navio de Sua Majestade Belvidera

Senhor

No momento em que Sua Excelência, o ilustre Senhor George Cockburn, comandante chefe inglês nesses mares tomou conhecimento da revoltante notícia do abominável assassinato da tripulação do navio mercante inglês, Clio, com exceção de um homem (que conseguiu fugir),  e do saque pirático de seu carregamento por algumas pessoas da Ilha de Salinas, onde havia ido em busca de um prático, Sua Excelência não perdeu tempo em me dar ordens para prosseguir com a esquadra dos navios de Sua Majestade para o Pará, onde devo visitar quem quer que seja o chefe no comando dessa província, para exigir dele a busca imediata para julgamento e punição de todos os que tiverem prestado auxílio a esse ato abominável…

[Segundo parágrafo idêntico ao da primeira carta enviada a Rodrigues]

Comunico a V. Senhoria que a força que está sob minhas ordens não tem nada a ver, de ambos os lados, com a infeliz disputa presentemente existente nesta província, mas veio exigir que se faça justiça com aqueles desgraçados de Salinas que, desprezivelmente, assassinaram nossos compatriotas, encalharam o navio e roubaram sua carga.

Tenho a honra de ser, etc …

Documentos ingleses (4)

Prossigo a publicação dos documentos ingleses sobre a cabanagem, com mais dois anexos à correspondência do comandante da esquadra inglesa, capitão Charles Strong, com o presidente do Pará, marechal Manuel Jorge Rodrigues, enviado para reprimir os rebeldes e assumir o controle da província. Ele estava acampado na ilha de Tatuoca, do outro lado da baía do Guajará, defronte a Belém.

TERCEIRO ANEXO

De:    Capitão Charles Strong,   Navio de Sua Majestade Belvidera

Para:          Manoel George Rodrigues, Presidente do Pará

Navio de Sua Majestade Belvidera, Baía de Santo Antonio

14 de Março de 1836

Excelentíssimo Senhor,

No momento em que V. Excelência, o ilustre George Cockburn, comandante chefe inglês desses mares, tomou conhecimento da revoltante notícia do abominável assassinato da tripulação do navio mercante inglês, Clio, com exceção de um homem (o qual conseguiu fugir) e o saque pirático de seu carregamento por algumas pessoas da Ilha de Salinas, onde havia ido em busca de um prático, V. Excelência não perdeu tempo em me dar ordens para prosseguir com a esquadra nos navios de Sua Majestade para o Pará, onde devo visitar quem quer que seja o chefe no comando dessa província do Império Brasileiro, a exigir dele a busca imediata para julgamento e punição de todos os que tiverem prestado auxilio a esse ato abominável ou que dele tiverem participado, ajudando a saquear e tomando posse dos bens roubados após o navio ter sido colocado em terra e  o comandante e a tripulação terem sido assassinados.  Recebi ainda instruções para exigir uma garantia, por parte de quem quer que esteja no comando, de que o seu governo indenizará os donos do Clio pela perda de sua embarcação e do seu carregamento.

O crime cuja reparação eu vim pedir, de assassinato e de pirataria, todas as nações certamente reprimirão, punindo os perpetradores com extremo rigor (quando detectados), mas a Inglaterra, de todas as nações, possuindo uma poderosa marinha como a dela, nunca permitirá que qualquer povo moleste seus navios mercantes quando navegarem pelos mares em suas viagens lícitas e pacíficas.

Tenho plena certeza de que V. Excelência possui os mesmos sentimentos que meu Comandante Chefe e que qualquer outro homem deve possuir e que usará sua máxima autoridade para fazer justiça contra os canalhas que são uma desgraça para a humanidade.

Tenho a honra, etc …

QUARTO ANEXO

De:    Rodrigues, Presidente do Pará

Para:          Capitão Charles Strong, Navio de Sua Majestade Belvidera

Sem data

Ilustre Senhor,

Acuso o recebimento de sua carta oficial de 14 do corrente, na qual me comunica que no momento em que Sua Excelência Sir George Cockburn tomou conhecimento da revoltante notícia do abominável assassinato da tripulação do navio mercante inglês, Clio, com exceção de um homem, que conseguiu fugir, e do saque pirático de seu carregamento por algumas pessoas da Ilha de Salinas, onde havia ido em busca de um prático, e que o mesmo Excelentíssimo Senhor, sem demora, ordenou que V. Senhoria,  com a força naval que lhe acompanhava, prosseguisse ao Pará onde deveria visitar quem quer que seja o chefe  no comando desta província do Império Brasileiro e exigir dele a imediata busca para julgamento e punição de todos os que tiverem auxiliado nesse ato desastroso… e que também faz parte das suas instruções exigir de quem quer que se encontre no governo desta província que seu governo indenize os donos do Clio pela perda da embarcação e de seu carregamento.

Em resposta à primeira parte de suas solicitações, eu posso assegurar ao  ilustre Senhor George Cockburn … que, sem a mais leve dúvida, haverá uma investigação para descobrir os perpetradores desses crimes hediondos, que  eles  poderão  ser punidos com todo o rigor das leis do Império,  não apenas por aquele crime, mas também por serem rebeldes e, para produzir o resultado desejado, o Regente do Império, em nome do Imperador D. Pedro 2º ordenou a partida das forças, não somente da capital como também das outras províncias.

  1. Senhoria também pode verificar que as instruções que eu, como presidente e comandante das forças da província, dei ao comandante das forças que eu enviei no dia 5 de fevereiro, com a finalidade de restaurar as cidades da Vigia, São Caetano, Villa Nova, Cintra e Salinas, esta última colocada em associação com as forças que deverão vir do sul, eu dei ordens positivas para prender John Priest, um residente dos Estados Unidos, habitante daquele lugar, que informou que o navio Clio estava carregado com armas, e o principal agitador daquele trágico e desafortunado ato, conforme parece pelo depoimento de Alexandre Paton, o marinheiro que fugiu.

Quanto à segunda parte de sua demanda, o governo desta província não se considera autorizado para decidir sobre tão importante questão;  pode apenas assegurar que, existindo o direito de pagamento pelo Governo Imperial do valor do carregamento e do navio Clio,  não tem a mínima dúvida que seja cumprido, haja visto a generosidade inerente à Nação Brasileira,  a que ela tem demonstrado em todas as ocasiões, este assunto sendo resolvido pelos agentes diplomáticos das duas nações, Inglesa e Brasileira, e para cuja finalidade o governo desta província enviará à corte do Império, pela primeira oportunidade segura que se apresentar, uma cópia das cartas oficiais de V. Senhoria com esta resposta.

  1. Senhoria continua sua carta dizendo que os crimes cuja reparação veio pedir foram os de assassinato e pirataria, e que todas as nações tem um compromisso de reprimir os perpetradores por meio de punição da mais rigorosa e que a Inglaterra, entre todas as nações, possuindo uma poderosa marinha, nunca permitirá que seus navios mercantes sejam molestados… O governo da província reconhece como evidentes todos os motivos alegados por V. Senhoria. e também já afirmou que os culpados serão punidos com todo o rigor da lei, já tendo previamente transmitido ordens necessárias para esse fim, as quais, certamente, serão executadas, tanto por motivos do dever como de interesse pessoal, mas, ao mesmo tempo, precisa solicitar que V. Senhoria não julgue uma nação por alguns vagabundos que se rebelaram contra o seu legítimo governo, e que a nação brasileira os abomina e lamenta que tenham nascido em seu solo.

Finalmente, V. Senhoria diz que tem certeza de que meus sentimentos sejam os mesmos que o seu Comandante Chefe e que todos os outros homens devem possuir e que eu use da máxima autoridade investida em minha pessoa para fazer justiça contra os canalhas que são uma desgraça para a humanidade.  Agradeço a V. Senhoria pela opinião  favorável  que   tem   a  meu  respeito   e  asseguro que não será decepcionado, pois tenho demonstrado, pelo que eu disse acima, que cumprirei fielmente, executando as leis e as ordens do Governo Imperial.

Tenho a honra de ser etc …

Documentos ingleses (3)

Este é um dos documentos mais importantes que existe sobre a cabanagem. É o relato do comandante de uma esquadra da marinha inglesa, a mais poderosa do mundo na época, o capitão Cockburn. Ele viu os combates em um dos seus momentos mais ferozes. Desceu em terra e percorreu a destroçada capital do Pará. Conversou com Eduardo Angelim, o terceiro e último presidente cabano. Exigiu tomar satisfações pela pilhagem do navio mercantil inglês Clio e a execução d toda a sua tripulação, salvando-se apenas o grumete Alexandre Paton, que conseguiu fugir.

Cockburn ironiza o receio da esquadra brasileira de atacar e ocupar Belçém e o medo de Eduardo, que era apenas um rapaz. Elogia o líder cabano, por sua determinação e gentileza. Garante que, com sua tropa, se necessário, poderia enfrentar os rebeldes, que não iam além de 150 homens armados em Belém. Faz observações profissionais sobre o que viu.

Para facilitar a leitura, dividi o texto em mais períodos, corrigi alguns erros gráficos e de tradução e grifei os trechos que considero mais importantes.

Segue-se o precioso documento, tão pouco utilizado até agora.

SEGUNDO ANEXO

De:    Capitão Charles B. Strong, Navio de Sua Majestade Belvidera

Para: Cockburn

Navio de Sua Majestade Belvidera, sem data

Senhor,

Pelo Capitão Bennett do Rainbow, que chegou a Barbados no dia 9 de fevereiro de 1836, tive a honra de receber sua carta datada de 24 de janeiro e, como o Savage era esperado da Jamaica, onde havia ido com a mala postal, achei melhor aguardar por ele, tendo sido o seu calado tão bem calculado para o serviço que estávamos prestes a executar; então assim que aquele navio surgiu no horizonte, que foi no dia 13 de fevereiro,  levantei ferros com o Snake, desejando que o Capitão Bennett abastecesse o Savage com água e provisões para enviá-lo atrás de nós e o navio; pelo grande empenho do Tenente Loney, juntou-se a nós naquela tarde, quando zarpamos todos para a entrada do Rio Pará, chegando à ilha de Salinas no dia 9 de março, após uma longa travessia motivada por fortes ventos e correnteza, esta última nos atrasando alguns dias, em média, cinquenta e sete milhas nas vinte e quatro horas.

Eu sabia bastante bem que não deveria haver nenhum prático, mas, sob o pretexto de fundear para conseguir um, enviei de cada navio, um barco tripulado e armado, com a bandeira branca, sob o comando do Tenente Wood, o primeiro tenente, com instruções para que, se John Priest descesse e houvesse uma chance dos barcos saírem, o colocassem à força em um dos barcos, mas, de maneira alguma, atracassem.

Entretanto, ele não estava na ilha e não havia nenhum prático, o vento soprava forte quando os barcos deixaram o navio à uma hora, e a arrebentação e as ondas aumentaram tão rapidamente que não puderam sair de novo até às 2 horas do dia seguinte, quando todos saíram seguros para os navios. O Sr. Wood reportou que cerca de quarenta homens armados apareceram em terra, além de outros que eles provavelmente ocultaram.

A esquadra levantou ferros ao raiar do dia 11 em direção às águas rasas de Bragança e St. John, que formam o canal para o Rio e, apesar do tempo cerrado e tempestuoso, o Comandante, Mr. Tonkin, conduziu os navios, ancorando-os com segurança às 7 horas da noite ao largo da Ponta do Taipu, a 6 braças, onde fundeamos durante a noite e zarpamos no dia seguinte quando a maré se mostrou favorável.

Naquela noite às 9 horas, fundeamos na Bahia de Santo Antônio, onde encontramos o Campista com a bandeira do Presidente e também a bandeira do Contra Almirante; a Defensora, uma boa escuna; e, mais rio acima, o Regeneration.  Isso me permitiu, ao embarcar no navio do Almirante e prestar minha homenagem ao presidente e àquele oficial, a primeira oportunidade de tomar um certo grau de conhecimento sobre o estado das coisas no Pará e onde estávamos ancorados, mas todas as notícias eram contraditórias, os brasileiros diziam que tudo estava bem com eles, enquanto outros diziam que não havia a mínima chance de tomar a cidade e que não ousavam atacá-la;  entretanto, eu não nada tinha nenhum envolvimento com isso mas, a quando do meu retorno a bordo, escrevi a carta no.1 à Sua Excelência, o Presidente, cuja resposta recebi somente após dois dias, embora o tempo fosse da maior importância e, quando a resposta à minha carta efetivamente chegou, não estava traduzida. De fato, tudo indicava que eles queriam me atrasar, isso foi no dia 16, e o Comandante do Belvidera me informou que, se não saíssemos do rio antes do dia 27, teríamos que esperar mais 14 dias pela maré.

Durante esse intervalo eu disse repetidamente ao Almirante que, na execução de minhas ordens, eu tinha motivos urgentes para ir ao Pará com a esquadra para que eu pudesse fazer semelhantes demandas ao Eduardo diante de sua artilharia, sendo ele o presidente de fato e tendo a capital sob seu domínio, como também o povo de Salinas estava sob o seu comando quando o desastroso caso do Clio ocorreu, e que ele deveria ser responsabilizado pela conduta deles, embora ele tenha dado plena satisfação no âmbito de sua capacidade.

O Almirante Brasileiro me informou que o Pará estava  sob  bloqueio e que ele não acreditava que o presidente deixasse a esquadra  subir o rio, mas que ele lhe mencionaria isso.  Fui então obrigado a dizer ao Almirante, achando ele uma pessoa das mais capazes, que eu deveria subir, pois os crimes pelos quais eu havia vindo solicitar reparação eram da pior natureza e destes que todas as nações puniriam com o maior rigor da lei e que nós éramos amigos dos brasileiros e inimigos de quaisquer desordens, particularmente como as que ocorreram no Pará, em Salinas e em outros lugares; de fato eu usei de todos os argumentos para convencer o Almirante (da Cunha?) de que eu não cumpriria com o meu dever, ao meu Rei e ao meu país, se deixasse de fazer tudo para levar aqueles assassinos à justiça e que subiria o rio para a cidade, quaisquer que fossem as consequências, acreditando que estava fazendo o que era certo, mas descobrindo agora que todos os argumentos eram em vão e que, evidentemente, eles estavam nos retardando por alguma razão.

Na tarde do dia 16, enviei o Comandante Warren com uma mensagem verbal, ou aviso, ao presidente, informando-o de que eu zarparia na manhã seguinte às sete horas rumo ao Para.  O Comandante Warren retornou com as cartas de números 2 e 3, escritas em português e não traduzidas.  Eu sabia, entretanto, que uma delas continha um enérgico protesto contra a nossa ida, mas, já tendo decidido e estando totalmente convencido de que esta esquadra não teria feito tudo o que precisava, se não tivesse se mostrado a Eduardo, diante de sua artilharia, a esquadra levantou  ferros, portanto, na hora mencionada acima (os navios todos prontos para ação mas sem qualquer demonstração aparente) e, para evitar qualquer mal entendido com o povo da cidade do Pará que, no meu entender, estava em estado de grande agitação e desordem, eu hasteei uma bandeira branca e, após viajar mais dez ou doze milhas rio acima, o navio fundeou às 10 horas da manhã em frente à cidade, a quatro braças e meia de profundidade, distante dela cerca de quatrocentas jardas.

Nenhum tempo foi perdido e, às 11 horas, enviei o primeiro tenente Wood com minha carta no 4 ao presidente, Eduardo, que ocupava o palácio, solicitando uma resposta sem demora.  O tenente Wood, no seu retorno, me informou que minha carta havia sido lida através de um intérprete, na presença de grande número de pessoas que, quando chegaram à parte onde era exigida uma satisfação, vociferaram: ele quer satisfação, dê-lha a ele com pólvora e bala. Eduardo, entretanto, reprovou-os e chamou atenção à justiça de nossa causa, e me informou que  uma  resposta  seria enviada naquela tarde ou no dia seguinte, o que efetivamente foi feito na carta de no. 5, quando eu mandei o Snake e o Savage zarparem e aguardarem nossa chegada à Baía de Santo Antonio.

Recebido de forma muito melhor do que esperava, e também informado por ele (Eduardo) de que ele viria e apresentaria seus cumprimentos à minha pessoa, apenas que o povo não permitiria que ele o fizesse, decidi desembarcar e pedir-lhe que desse ordens ao governador de Salinas para me entregar todos os envolvidos no assassinato da tripulação do Clio e no saque do carregamento; isso, após alguma hesitação, ele consentiu, e agora, considerando que foi feito tudo o que poderia ser feito, zarpamos na manhã seguinte, mas fomos obrigados (para cumprir  exigências que eu havia feito) a fundear o Belvidera na linha de fogo direta da artilharia principal, ele encalhou na terra, ou melhor, na lama, em três braças, antes que pudéssemos colocá-lo sob controle, quase não havia vento  e o navio continuava perfeitamente a prumo até que, às 10 horas, foi virado contra o vento pelo ancorote, sendo os dois dias seguintes empregados em rebocar, espiar e manobrar o navio rio abaixo, chegando à baía de Stº Antônio em 24 de Março, quando eu respondi às duas cartas do Presidente, a de no.7 relativa à exigência que eu havia feito ao governo brasileiro sobre o Clio e a outra, de no. 8, relativa à minha subida do rio com a esquadra.

Feito isso, descobri que não tínhamos nem uma hora a perder, portanto, zarpei na manhã seguinte, ao amanhecer, para tentar aproveitar a maré de saída através do canal S. João, o que afortunadamente conseguimos no Domingo, dia 27, sendo o último dia em que eles responderiam e, tirando o máximo proveito da nossa viagem, cheguei a Salinas no dia 29, fundeando em sete braças; achamos este dia já muito adiantado, mas no dia seguinte enviei quatro botes tripulados e armados sob o comando do primeiro tenente Mr. Wood, dois botes deste navio, um do Snake e outro do Savage, com a   carta de Eduardo ao governador, além da qual ele foi informado que, se Priest  e  os  outros  não fossem entregues, a cidade seria  destruída; a carta e a ameaça tiveram o efeito desejado e o Tenente Wood foi informado do paradeiro do Priest, para onde ele imediatamente se dirigiu com trinta homens e, após remar durante   toda a noite, chegou no dia seguinte às 10 horas, o fê-lo prisioneiro e  trouxe-o  para bordo do Belvidera;  envio-lhe uma cópia da declaração, no. 9, feita por Priest ao Comandante Warren, Mr. Wood e a mim após a sua captura, pela qual parece que a pessoa que era  governador de Salinas, a quando da  ocorrência  do  terrível acontecimento, e que estava tão profundamente implicado, encontrava-se então naquele momento na ilha. Mal pude acreditar.

Alexander Paton foi chamado e questionado se a pessoa que ele havia visto, quando atracou com o Tenente Wood, era o homem que havia tomado parte tão ativa como Governador quando ele atracou pela primeira vez no bote do Clio procurando um prático e respondeu negativamente.  Priest, entretanto, ainda persistiu e disse que a ordem para ele ser preso, havia sido assinada por aquela pessoa e que seria difícil  ele ser punido quando havia apenas obedecido as ordens de seu superior.  Enviei cinquenta homens novamente à praia, sob o comando do Tenente Wood, com ordens rigorosas para procurá-lo em toda a parte ou por algum dos outros que constavam de uma lista que obtive quando justamente um homem, Manuel Maria Montero – foi logo reconhecido por Paton e feito prisioneiro.  Bartolomeu, um dos assassinos, foi feito prisioneiro também, mas infelizmente conseguiu escapar.

Enviei uma declaração, a de  no 10, feita por Montero, uma cópia da qual, juntamente com a declaração de Priest, enviei pelo Comandante Warren com os dois prisioneiros ao Presidente do Pará.  Todos os outros, se o governo do Brasil usar de diligências comuns, serão capturados, pois  ficaram completamente aterrorizados pelo fato de a esquadra ter ancorado aqui, e desapareceram no mato.  Os botes trouxeram cerca de vinte e nove caixas de armas, todas inglesas e parte do carregamento do Clio, mas as quais eu  também enviei ao Presidente a bordo do Campista.

Fui levado a fazer uma declaração muito longa pela natureza especial desse serviço, abrangendo tantas obrigações diferentes, as quais todas foram necessárias reportar, mas asseguro a V. Senhoria que, embora nenhum mosquete tenha sido disparado, foi tudo menos isso, e foi preciso usar uma bandeira branca para cada comunicação que tivemos que fazer a eles (o grupo de Eduardo) estando eles sob pouco ou nenhum controle, atirando uns nos outros como cachorros;  por exemplo, o homem que era o governador ou comandante em Salinas, quando chegamos pela primeira vez em 9 de Março, havia sido baleado alguns dias antes da nossa chegada pela segunda vez e, quando atraquei para ver Eduardo, deixei o Comandante Warren a bordo do Belvidera, encarregado da esquadra com os botes tripulados e armados do lado oposto da praia em caso de ocorrer algum ataque contra nós, em vista do  Almirante ter nos comunicado que, se eu atracasse, seria assassinado.

Fui, entretanto, recebido com o maior respeito e  admirei-me   (com  todos  os oficiais que estavam comigo), Tenentes Wood, Brooke e Cossar, Fuzileiros Reais, que os brasileiros não viessem tomar a cidade, o que os botes da minha esquadra teriam feito, se necessário,  em meia hora,  mas o nome de Eduardo, (um mero rapaz) parecia fazer um terrível efeito, e  não  vimos  além  de  cento  e cinquenta homens armados e estes em estado deplorável, conspirações surgindo a cada dia e uma pessoa, cerca de três semanas antes da nossa chegada, tomou posse da principal artilharia e se declarou presidente; Eduardo, entretanto, marchou imediatamente contra ele, com um canhão, explodiu a porteira do forte e, após matar quatro ou cinco homens, restaurou uma espécie de ordem;  o chefe desse grupo colocou uma pistola na cabeça de Eduardo e ele, dizem, tem medo de puni-lo, mas,  ocorreu-me de colocar o presidente a par de um fato especial que era que o secretário particular de Eduardo desejava fazer a sua fuga no Belvidera, vendo que, se fosse feito apenas um esforço comum, o lugar cairia.  Eduardo  tinha liberado sua fuga se ele achasse apropriada; isso naturalmente eu não permitiria após tantos atos de barbaridade e pilhagens como as que ocorreram no Pará.

As casas, de um modo geral, estão todas derrubadas – em particular, as que ficam defronte do rio precisam ser reconstruídas e ainda passar-se-ão muitos anos antes que algo como comércio possa ser restabelecido.

Foi-me bastante inesperado ser negada a  permissão para subir o rio com a esquadra até o Pará, pois eu não o tivesse feito, nenhuma daquelas pessoas seria ou poderia ter sido presa, além do que, todos devem ter visto que nossa passagem serviria para mostrar a Eduardo que ele teria outro inimigo para combater se nossas demandas não fossem atendidas. De minha parte, eu não tinha o mais leve desejo de subir, mas pelo senso comum do dever, sabia que enfrentaria uma navegação muito difícil em um navio como o Belvidera e que nada, a não ser as grandes habilidades de Mr. Tonkin, o comandante, poderia superá-la e, pela demonstração das quais eu não lhe poderia ser suficientemente agradecido.

A água é tão rasa  em frente à cidade, no local onde tivemos que ancorar, que fomos obrigados a largar o ferro quando diretamente diante do vento e da maré, trazendo o navio para cima com  grande esforço e, após isso feito, tínhamos apenas três braças de comprimento de cabo de cada lado;  o Comandante Warren, do Snake e o Tenente Loney, do Savage, nos seguiram de perto, sem práticos a bordo e ancoraram seus navios com a maior precisão do lado oposto da fortaleza e a três comprimentos de cabo da mesma.

Eu posso apenas pensar  que o presidente fez o protesto no 3  protocolarmente, pois certamente ele não poderia supor que qualquer comandante inglês de esquadra aceitaria ser expulso como se fosse um navio mercante, mais particularmente um comandante incumbido com tal responsabilidade como eu, e novamente seus navios não estavam fundeados de maneira a se opor às forças que subissem o rio ou a evitar que suprimentos fossem descarregados na cidade; eles não estavam ligados de maneira alguma. Se eles estivessem em alinhamento com o Forte da Barra, próximo ao Regeneration, teriam sido formidáveis, mas na posição em que os encontrei, não tinham o poder de insistir que eu me desviasse do que eu considerava apropriado; mas onde quer que estivessem posicionados, tal era a atrocidade do crime pelo qual eu havia sido enviado para exigir satisfações, de todas  as partes que eu julgava possível que eu teria passado por eles, quaisquer que fossem as consequências, tão certo que estava em minha própria mente que uma conduta contrária teria trazido desgraça sobre mim e sobre o meu ofício.

Entretanto, confiarei em seu apoio, quando essa reclamação for feita contra mim, tendo agido com a melhor de minhas qualificações para cumprir o dever que me foi incumbido.  Nada poderia exceder a boa vontade com a qual todos tem desempenhado o seu trabalho a bordo deste navio no meio de chuvas torrenciais que foram enfrentadas desde que entramos no rio até que deixamos a costa. Trazer o navio do Pará para a Baía de Santo Antônio  foi um trabalho de esforço contínuo, o vento soprando rio acima e havendo muito pouca água para um navio do tamanho do Belvidera, com uma maré baixa em que podíamos apenas nos mover.

Mr. Wood, o primeiro tenente, teve tudo a ver com os botes, levando ambos os homens que tinham tomado parte tão ativa no assassinato da tripulação do Clio, assistido pelo tenente Chetwode deste navio, tenentes Cossar e Brown dos Fuzileiros Reais, com os Senhores Cyril, Jackson e William Lilley, imediatos, tenente Beck do Snake e seu pinaça, e Loney, assistente do Comandante do Savage em seu escaler, todos estiveram ativamente empenhados durante seis ou sete dias, em diferentes horários, no tempo mais inclemente, quando foram totalmente deixados completamente sós na praia de Salinas e o navio não pôde chegar mais perto deles do que cinco ou seis milhas, podendo apenas atravessar as fortes arrebentações em uma determinada hora da maré, mas, devo rogar especialmente para recomendar à sua atenção favorável, o tenente Frederick Wood desse navio, um antigo e competente oficial que merece todo o crédito pelo seu grande esforço nesta ocasião, tanto a bordo do navio como nos botes; se algum crédito for devido, ele faz grande recomendação dos senhores Cyril Jackson e William Lilley, excelentes jovens e há muito aprovados; o Comandante Warren, do Snake, e o tenente Loney, do Savage, fizeram tudo para transmitir e atender aos meus desejos, e podíamos facilmente ter desembarcado 220 homens incluindo  os  fuzileiros  com  pequenas armas,  se preciso fosse; eles fazem elogiosas recomendações sobre ambas as suas tripulações.

Abasteci o Snake com mantimentos de todos os tipos para consumo durante quatro meses e deixei-o encarregado das tarefas entre o Maranhão e o Pará até que seja substituído ou até que haja mantimentos suficientes apenas para chegar até Barbados onde encontrará ordens para outros procedimentos.

Envio os relatórios nos. 13 e 14 do Sr. Wood.  Vinagre e Aranha ainda estão presos a ferros a bordo do Campista aguardando a chegada do novo presidente que vem do Rio e, como essa pessoa passou por nós no dia 4 de Abril, quando fui apresentar meus cumprimentos a ele na altura de Salinas, deveria chegar à Baía de Santo Antonio no dia seguinte com um reforço de sete escunas e, incluindo suas tripulações, totalizariam pelo menos 900 homens, mas tomei conhecimento que eram mil e concluíram que o Pará será atacado imediatamente e deverá cair.

Eduardo havia remontado todas as armas que haviam sido atiradas sobre as muralhas, totalizando dezessete nos diferentes fortes, mas tinha pouca ou quase nenhuma pólvora, nem chumbo.

Tenho a honra de ser, etc …

O padre anarquista

O jornalista Paulo Maranhão foi certamente o autor de uma nota, sem assinatura, publicada pela Folha Vespertina, em 1955. Reagia contra ataques que teriam sido feitos ao jornal por um padre capuchinho que pregava na igreja de São Francisco. A nota aproveitou para alertar o religioso, contando a história de um capuchinho espanhol que atuou no Pará na época do bispo Romualdo Coelho, como “vigário da invicta cidade de Cametá”. Invicta por ter resistido às investidas dos cabanos, a partir de 1835, não permitindo que os rebeldes a invadissem.

Ao invés de “versar sobre assuntos religiosos” durante as suas pregações, estaria repetindo o padre espanhol Zagalo, que, “não tendo mais em que meter os pés, lá um dia, perante os fieis da matriz, disse tremendas heresias da Virgem Maria, terminando por apostatar, com escândalo geral”.

O padre, que era anarquista,  contemporâneo da cabanagem, “preso e metido a ferros, foi conduzido para Portugal, onde levou a breca em Rilhafoles”. Advertia o jornal: “Já se não algemais mais capuchinhos, porém com tantas pedras mexem, que uma delas lhes desabará na cabeça”.

Terminava por indagar “onde estava esse frade quando Barata mandava flagelar a chicote sacerdotes respeitáveis e fazia emudecer os sinos católicos? Onde tinha a língua ensacada”. Arrematando: “Só então uma voz ecoava em defesa das vítimas, e essa voz partia das Folhas”.

A cabanagem ainda era estigmatizada no Pará.

Documentos ingleses (2)

Enviado pelo comando da marinha inglesa, sediado em Barbados, com três navios de guerra, para tomar satisfação junto às autoridades brasileiras do Pará sobre a pilhagem do navio mercante Clio e a  morte da sua tripulação, em Salinas, o capitão Strong foi uma fonte preciosa do início da cabanagem. Integrava a mais poderosa armada do mundo. Esta correspondência, do seu superior, introduz os anexos com o relato de Strong, que virão depois. Fiz algumas correções no texto.

ADM 1   CAIXA 296   Posto de Correspondência da Jamaica 1836

De:      Cockburn

Para:  Charles Wood, Secretário do Almirantado

Nº 7  P98   Navio de Sua Majestade President

Bermudas, 7 de maio de 1836

Senhor

Tenho o prazer de transmitir, através da presente, para serem submetidas à  consideração dos meus Senhores do Comissariado do Almirantado, as cópias dos relatórios e dos anexos que recebi do Capitão Strong, do Navio de Sua Majestade Belvidera, detalhando seus procedimentos no Pará, na execução de minhas instruções ao mesmo (cópias das quais foram transmitidas às Suas Excelências com minha carta nº 14 de 1º de fevereiro último) em consequência da captura pirática do brigue mercante Clio e do assassinato da sua tripulação, e  ouso persuadir-me de que a maneira rápida, firme e decidida com a qual esse serviço foi executado, pelo qual os principais indivíduos envolvidos nesse ato atroz foram entregues, para que recebam as devidas penas da lei pelo seu crime, e uma perspectiva razoável foi propiciada para descobrir e assegurar aos outros indivíduos declarados implicados nessa hedionda transação, se provará satisfatória às Suas Excelências e obterá do Capitão Strong e do oficial  por ele mencionado acima, a aprovação de Suas Excelências;  e creio que Suas Excelências concordarão comigo em considerar o Capitão Strong totalmente justificado por não se permitir desviar dos seus propósitos pelos protestos levianos e inoportunos do Presidente do Pará (anotação rabiscada sobre o texto, presumivelmente por Wood: escreva a Halkett [prestes a tomar posse como Comandante-Chefe do posto da Jamaica] para comunicar ao Capitão Strong a apreciação de Suas Excelências pelas medidas tomadas pelos oficiais e sua tripulação) contrários à sua ida àquele lugar para a tão necessária e rápida conclusão do importante objetivo com que ele foi incumbido.

Para dar a Suas Excelências pleno conhecimento da exata posição em que esse assunto agora se encontra, considero correto adicionar aos outros documentos sobre o assunto uma cópia de minha resposta ao Capitão Strong,  que espero ser aprovada por Suas Excelências.

Permaneço, etc…

PRIMEIRO ANEXO

De:      Cockburn

Para:  Capitão Strong, Navio de Sua Majestade Belvidera

            Oficial Superior, Barbados

Navio de Sua Majestade President, 30 de Abril de 1836

Senhor,

Acuso o recebimento de sua carta de Barbados (data não inserida) com seus diversos anexos detalhando os seus procedimentos no cumprimento de minhas instruções, para punir os perpetradores da atroz captura pirática e do assassinato da tripulação do brigue inglês Clio nos arredores  do Pará e,  devo lhe responder expressando minha completa satisfação e aprovação pela maneira dedicada e competente com que V. Senhoria executou essa difícil e importante tarefa. Também, aprovo, indiscutivelmente, a muito apropriada firmeza demonstrada por V. Senhoria em não tolerar os protestos levianos e inoportunos do Presidente do Pará contrários à sua ida àquele lugar para a tão necessária e rápida conclusão do importante objetivo com que foi incumbido, para desviar-lhe ou impedir-lhe do seu objetivo, e confio plenamente que meus Senhores do Comissariado do Almirantado e o Governo de Sua Majestade igualmente aprovarão e apoiarão a sua conduta neste particular sob as extraordinárias circunstâncias do caso.

Li com muita satisfação a declaração feita por V. Senhoria pelo empenho dedicado do Comandante Warren e pelo Tenente Loney atuando no Snake e no Savage, sob suas ordens e as de seus respectivos comandantes, no serviço em questão e, também, pela conduta bastante criteriosa, pronta e incansável do Tenente Wood do Belvidera, quando destacado por V. Senhoria para ficar encarregado dos navios da esquadra, e quero solicitar que V. Senhoria  receba, em seu nome, e transmita aos mencionados oficiais e a outros oficiais indicados por V. Senhoria meus melhores agradecimentos pela dedicação e empenho demonstrados nessa importante ocasião.  Não tenho dúvida alguma que os Senhores do Comissariado do Almirantado, quando eu reportar o acontecido às Suas Excelências, terão a mesma impressão e igualmente agradecerão a conduta hábil e meritória demonstrada por V. Senhoria e pelos referidos oficiais sob seu comando, pela bem sucedida  execução do serviço em questão.

Tomo por certo que V. Senhoria tenha convencido o Comandante Warren da conveniência e da necessidade de garantir que os dois principais criminosos, que foram entregues ao presidente brasileiro, sejam devidamente punidos segundo a lei ou, em todo o caso, que ele faça questão de averiguar, de tempo em tempo, os procedimentos tomados em relação aos mesmos pelas autoridades brasileiras, como também devotar especial atenção e, de tempo em tempo, relatar a V. Senhoria as medidas tomadas com referência a essa parte de suas instruções a ele relativas aos outros indivíduos envolvidos com o assassinato cujos nomes V. Senhoria obteve e, se considerar necessárias instruções adicionais para lhe convencê-lo (Comandante Warren), desejo que lhe escreva sobre o assunto com a maior brevidade possível.

Sou, Excelência, etc.