Desordem amazônica

Batista Campos foi o mais ativo líder político do período dos “motins políticos” no Pará, entre 1821 e 1836. Percorreu masmorras por causa do que publicou nos primeiros jornais da província. Sua cabeça foi colocada na boca de um canhão, pronto para disparar, com o mourão aceso, quando a execução foi milagrosamente suspensa.

Escapou de atentados e espancamentos. Mas acabaria morrendo prosaicamente: um corte de navalha numa espinha carnal, quando fazia a barba, gangrenou. Fugindo pela mata à perseguição determinada pelo governador-geral, não teve atendimento adequado. Morreu uma semana antes de estourar a cabanagem, em 31 de dezembro de 1834. Deixou de colher o que havia plantado ao longo de 13 anos.

No olho do furacão quem ficou foi um cearense de 21 anos, que havia chegado ao Pará apenas oito anos antes, fugindo de mais uma seca inclemente no agreste nordestino. Eduardo era tão valente, com sua coragem demonstrada no sangrento levante do comerciante português Jales, em 1833, que deixou de ser conhecido pelo sobrenome, Nogueira. Passou a ser Eduardo Angelim, madeira rija da Amazônia, pau de dar em doido, como se diria depois.

Antes de abandonar Belém, onde os revoltosos já não mais se podiam manter, por causa do rigoroso cerco das tropas do governo imperial, chamou o bispo, dom Romualdo. Entregou-lhe mais de 95 contos de réis, dinheiro do tesouro, para repassar ao marechal Soares de Andréa, quando ele ocupasse a cidade. O tirânico Andréa recebeu o dinheiro. Outros 16 contos, que Angelim deixou com um outro religioso, que eram seus, foram confiscados.

Grandes personagens, esses. Mas eles entram e saem ilesos de Desordem (Editora Record, Rio de Janeiro, 252 páginas, R$ 25), o segundo romance da tetratologia concebida por Márcio Souza para retratar ficcionalmente esse período decisivo da história da Amazônia, um dos mais maltratados da história brasileira.

O segundo livro é um pouco melhor do que Lealdade, o volume inaugural da série, também relançado pela Record, que promete bancar os dois volumes que ainda faltam para completar o ciclo (Revolta e Derrota). Mas está bem abaixo dos melhores momentos do escritor amazonense, cada vez mais distantes. E é um pálido reflexo literário dos acontecimentos e da gente do Grão-Pará na decisiva primeira metade do século XIX.

Como fez questão de assinalar, Márcio Souza começou a escrever Desordem em Manaus, no dia 2 de fevereiro de 1998, e o concluiu “no Delmonico Hotel, New York, no dia 26 de março de 2000”. Dispôs, portanto, de mais de dois anos para realizar a obra. Mas ela dá a impressão de texto apressado, sem uma pesquisa documental correspondente à importância e complexidade do tema – e sem uma revisão à altura do conceito do autor.

Revisão bem feita teria impedido que a um período terminado com “final” sucedesse outra oração, iniciada com “Finalmente”, por exemplo, sem aliteração, nem eufonia. Ou uma linguagem de dramalhão mexicano para descrever o estado de espírito de Anne-Marie Presle de Senna: “um vazio terrível abria-se em meu peito como uma cratera e a realidade da perda me esbofeteava a cara”. Pura dramaturgia SBT.

Mas isso, para quem lê Márcio Souza de há muito, embora com decrescente prazer nos trabalhos mais recentes, é o que menos conta. Ele não é propriamente um mestre da língua. O que impressiona é vê-lo colocar na boca de Batista Campos, um “filho da floresta”, ciente de que “a selva tudo dá”, a observação: “Em outubro as águas iam baixando rapidamente e os rios começavam a secar nas suas cabeceiras”.

Em Belém, Barcarena ou no Acará, Batista Campos jamais poderia ver esse fenômeno em outubro, quando as águas, após o auge da vazante, já estão começando movimento exatamente inverso, do início da cheia, que irá durar um semestre. Transportado para Roraima pelas asas da imaginação, que tudo podem, é verdade, mas nem tudo devem poder, Batista Campos talvez tivesse alguma credibilidade como personagem dizendo essas coisas.

Confiando na sua boa memória e no seu invejável conhecimento, o diretor da Funarte se permite antecipar em 50 anos ou um século inteiro a história da borracha na Amazônia. No seu romance, a Belém dos setecentos já desabrocha como “uma flor branca de seringueira”. No século XVIII, “nos tempos do Marquês” (de Pombal), a borracha in natura já dava “lucros fabulosos”.

Uma cultura tão afluente que o seringal no qual Eduardo Angelim trabalhara, o Nova Jerusalém, foi bastante lucrativo entre 1790 e 1820, “com suas manufaturas exportando um grande número de produtos para diversos países”. “No auge de sua produção, nos idos de 1800, o seringal chegava a ter quase 50 seringueiros cortando a seringa, produzindo em cada safra quase 30 toneladas em pélas, que eram transformadas em chapéus, impermeáveis, instrumentos cirúrgicos, por uns 20 trabalhadores”.

É nobre a intenção do autor: mostrar que a cultura da borracha começou mais cedo e teve importância na Amazônia mesmo antes que a revolução industrial lhe desse utilização massiva, como fornecedora de pneumáticos para a indústria automobilística, já na passagem para o século seguinte. Talvez no afã de impressionar desatentos leitores, entretanto, Márcio exagerou na mão. Sua fantasia se desconectou de sua indispensável função pedagógica.

Em 1830, a Inglaterra, maior importadora da borracha amazônica, comprou apenas 211 quilos. Quase 30 anos depois o salto já era notável, mas ainda se limitava a 10 toneladas. Só em 1874, com a aplicação da borracha aos fios telegráficos, é que sua aquisição se aproximou de 60 toneladas, apenas o dobro do que já obtinha o seringal Nova Jerusalém seis décadas antes.

É certo que os volumes se referem a borracha bruta. O Pará já ia se desenvolvendo nos artefatos à base do leite da seringueira, a árvore que chora (segundo o belo título que Vicki Baum deu ao seu excelente romance, escrito sem um conhecimento vivencial, como o do amazonense Márcio Souza, porém muito mais pesquisado e bem finalizado). No entanto, o registro sobre 450 mil pares de sapatos vendidos refere-se ao ano de 1839, pós-cabanagem.

Essa indústria artesanal se sustentava na proximidade entre a fonte de suprimento e o local do beneficiamento. Os seringais estavam em torno de Belém, uma situação inimaginável aos olhos do belenense de hoje, mas que pode-se reconstituir através dos vivíssimos relatos dos naturalistas Spix & Martius, em sua fascinante Viagem ao Brasil.

O incremento das importações de matéria bruta, fenômeno da segunda metade do século XIX (e não da era pombalina), quando a designação da árvore como hevea brasiliensis se consolida (facilitando identificação, coleta e processamento) e espécimes completos são levados para a Europa (não como contrabando, mas com autorização do governo brasileiro), acabariam com o incremento desse parque manufatureiro, confirmando em mais esse caso a tragédia derivada do descompasso entre a frente econômica e a fronteira do conhecimento.

A assimetria histórica de A Desordem dá à incipiente cultura da seringa o status de safra agrícola regular bem antes de começar o século XIX, quando seringueiras estavam sendo replantadas para substituir “as árvores cansadas, doentes e mortas, como vinha sendo há muitas décadas”, contadas pela principal personagem do livro, uma espécie de Vovó Zulmira (de Stanislaw Ponte Preta) avant la lettre, tais as aventuras, venturas e desventuras de sua biografia, a despeito disso elíptica, entre a Guiana, o Pará e a França. Seria tal o plantio e replantio “que só se continuava a chamar os seringais de toda a bacia de silvestres por uma questão meramente de costume”, embora Belém fosse o vértice do centro de produção em torno de si e “toda a bacia” fosse ainda uma incógnita.

O descompromisso com a cronologia histórica, talvez sustentada num hábeas corpus preventivo conferindo arbitrariedade à criação, permite ao ex-diretor da Biblioteca Nacional declarar que Eduardo Angelim vivia em seringal “desde que se entendia por gente”.

Tal declaração equivale a um atestado de retardamento mental ao maior dos personagens da cabanagem, notável exatamente por sua precocidade. Afinal, até os 13 anos ele vivia era em Aracati, no Ceará, de onde sua família foi tocada pela seca para o Pará em 1827. Não foi portanto, aos sete anos que ele fez essa migração, como está dito no romance, que claudica tanto numa face, a de história de época, quanto na outra, a de literatura.

Nem é um bom romance em si, enquanto obra literária, com construção de personagens, descrição de paisagens, tessitura de trama. Nem como um guia para penetrar numa época tão rica como a da transição entre o país português e o país brasileiro, na qual uma região começou a ser descarnada de sua identidade e transformada num hinterland dos centros hegemônicos, nacional e internacional, assumindo a feição do colonizador, entronizando em si cabeça alheia, no velho – e sempre trágico – mimetismo.

A Desordem, como muitos outros romances de uma vertente já exaustivamente explorada, tem sua origem num manuscrito encontrado muitos anos depois de ter sido escrito. Mais do que um diário da muy original francesa Anne-Marie, seria um romance embrionário, à espera de autor para lhe dar forma definitiva.

Pelas mãos da organizadora do volume, Terezinha Chermont de Miranda, o verdadeiro criador de tudo se acautela contra os previsíveis críticos de suas várias linhas cruzadas de criação, com meta-ficção, meta-discurso e meta-merchandising (sem falar nas meta-setas envenenadas, de veneno já aquoso e seta empenada pela falta de destreza do arqueiro imaginário).

Assim, ele desdenha das restrições dos “linguistas do NAEA”, para os quais “a tradução de um texto francês de meados do século XIX para o vernáculo atual descaracterizaria sua essência sintática. E qualquer tentativa de mimetizar um sabor sintático do século XIX no vernáculo atual não passaria de contrafação”.

A crítica, admite Márcio, é “pertinaz, mas muito rigorosa”. Ele preferiu dar ao leitor comum a possibilidade de chegar ao texto da personagem “e ter uma leitura sem ruídos, sem vocábulos caídos em desuso ou referências enigmáticas que o passado apagou”.

Márcio criou um falso problema, já tantas vezes resolvido pela literatura. Que ruído causaria ao ouvido hodierno ler léguas como medida de área, ao invés de hectare, expressão inexistente na fraseologia da época? Mesmo uma francesa, anotaria em seu futuro romance haver classes médias na Belém daquele seu tempo?

Quem quiser conhecer intimamente a gloriosa França, que chegou à grande revolução em 1789, e a Paris que serviu-lhe de útero, estará muito bem servido pelos romances de Alexandre Dumas. Seus livros são uma experiência marcante para o resto da vida, com suas minudentes descrições do mundo da nobreza e do mundo da ralé, cada um à sua própria moda, em seu contexto específico. Mais do que por um tratado, manual ou qualquer outra reconstrução intelectual.

Não é preciso, contudo, retornar a tanto nem a tão longe. Haroldo Maranhão resolveu todos os impasses nos quais Márcio Souza viu-se dividido, recompondo um passado posto em desuso (mas nunca apagado, é claro) para o entendimento dos seus leitores contemporâneos, sem desmerecer estes nem transformar aqueles em caricatura. Se é simplesmente para dar a forma de narrativa ao texto seminal do Barão de Guajará, transformando seu relato linear numa sucessão de episódios e diálogos, então Carlos Arruda nada fica a dever a Márcio Souza.

O preço do falso problema, que deriva da não assimilação do conhecimento histórico e da forja criativa de fogo baixo do autor, é não ser capaz de reter os personagens, seres que surgem e se evaporam no curso de A Desordem como perfume barato, neste caso não por sua essência bruta, que é marcante, mas pelo mau fixador que lhe foi aplicado.

Ainda assim, o dândi Márcio Souza, hoje um parvenu carioca-novaiorquino, não conseguirá destruir a obra definitiva que o amazonense Márcio Souza assegurou para a posteridade, quando escrevia com uma inteligência afiada. E com uma alma viva.

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