Na fortaleza da Barra

De 1967 a 1978, com alguns longos intervalos nesse período, fiz pesquisas nos códices manuscritos da Biblioteca e Arquivo Público do Pará (hoje, só arquivo) sobre a cabanagem.  Quase diariamente entre 1971 e 1973. Acumulei milhares de páginas de anotações e cópias. Pretendia escrever um trabalho de maior fôlego sobre a guerra civil paraense, que se tornaria amazônica. As conjunturas, porém, me afastaram dessa direção. Tenho tentado retornar a ela, sem muito sucesso. Um dos efeitos dessa tentativa é este blog, que resultou de uma edição especial sobre o tema do Jornal Pessoal.

Agora, em doses homeopáticas (pelo mesmo motivo), vou dar vazão a essas anotações e documentos, muitos deles ainda inéditos. Como este registro, contido no códice 526, que guarda a correspondência de diversos com o governo, um pequeno retrato de parte da elite da época, incluindo nomes de famílias que perduram até hoje. 

Muitas pessoas, fugindo dos cabanos, se abrigaram na fortaleza da Barra (localizada em frente a Belém, que desapareceria um século depois, numa explosão acidental), que ficou lotada. Aos poucos, os civis foram sendo evacuados. A única comida era a ração dos militares, que era distribuída entre todos.

Lamentava o comandante da fortaleza, major Anselmo Joaquim da Silva, que “já não há aquela abundância de peixe. Isso foi bom no tempo da paz, quando passavam canoas e montarias carregadas de peixe”. Os próprios soldados nem mesmo pescar podiam.

Estavam abrigadas na fortaleza 55 pessoas, em setembro de 1835:

* Joaquim Mariano d’Oliveira Cordovil, major reformado de 1ª linha, com sua mulher, Luiza Rosa Mendes Cordovil, e 28 anos, e o afilhado Vitorino dos Santos, de dois anos e meio.

* Gertrudes Bolonha Picar, de 40 anos, viúva de Pedro Adrião Picar, com os filhos: Ana Joaquina, de 13 anos, Antônia da Conceição, de 12, e Pedro Ribeiro, de quatro.

* Carlos Manoel de Souza Trovão, capitão reformado de 1ª linha, de 43 anos, com sua mulher, Ana Jacinta Cordeiro, de 33 anos, e os agregados Maria Francisca, de 14 anos, e Tomazia Maria, de 15.

* Maria Jacinta Coelho, de 21 anos,  mulher do 1º tenente Higino, com seus filhos Higino Jacinto José Coelho, de dois anos e meio, e Higino José Coelho, de cinco meses.

* Maria da Conceição Cordeiro, de 20 anos, mulher do 1º tenente Cordeiro, mais a mãe do militar, Maria Perpétua Vergino, de 54 anos, sua irmã, Joana Drotéia Cordeiro, e o filho, Manoel Cordeiro, de 4 anos.

* Padre Gaspar Cerqueira de Gueiros, de 35 anos, professor de latim, com a mãe, Josefa Maria de Nazaré, de 50 anos.

* João Hilário Watrin, escrivão do crime, de 40 anos, com sua mulher, Guiomar Maria Watrin, de 27 anos, com Maria Francisca, solteira, órfã, de 14 anos, Maria José, de 15 anos, solteira, agregada, e Jesuína Vitória, de 12 anos, sobrinha.

* Lúcio José, de 32 anos, paisano.

* Bernardo Antônio, de 25 anos.

* José Saraiva da Rocha, de 45 anos, avaliador do conselho.

* Francisco Jose Silva, de 28 anos.

* Tereza de Jesus, de 33 anos, viúva de Manoel Vicente.

* José Pedro Freire, de 50 anos.

* Leonor de Loureiro Lima, de 50 anos, casada com Francisco Gonçalves Lima Penante, que permaneceu em Belém. Com os filhos Antônio, de 30 anos, Francisca, de 15, e Alexandrina, de 4.

* João Roberto Carneiro, major de 1ª linha, 39 anos, com sua mulher, Henriqueta, de 24 anis, e os filhos Claudino Augusto, de 12, Pedro Augusto, de 9, Gentil Augusto, de um ano e meio, Josefa Carolina, de 10, e Maria Amélia, de 6.

* Estevão José dos Reis, 36 anos, empregado da alfândega.

* Claudia Tereza, de 18 anos, mulher do tenente de 1ª linha Varela, preso na fortaleza. Com sua mãe, Prudenciana Francisca, de 50 anos, sua tia, Luíza Caetano, de 40, a irmã Francisca Eduarda, de 20, e a prima, Francisca Camila, de 22.

* Francisco José Leal, de 46 anos.

* José Francisco, de 18 anos.

Antônio Valente Cordeiro, de 64 anos. Major reformado de 1ª linha.

* Lourenço Antônio Rodrigues Martins.

* Joana Maria, 30 anos.

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