Cabanagem: documentos da história (1)

Criei esta seção para divulgar e interpretar os valiosos documentos que Ricardo Condurú tem divulgado, com estoicismo, generosidade e elevado espírito público, no seu blog Cabanagem Redescoberta. Assim fazendo, espero ampliar o interesse e a participação dos leitores na revelação desse ainda desconhecido, mal divulgado ou incorretamente interpretado capítulo da história brasileira. Sem que donos do tema o monopolizem.

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Proclamação dos cabanos do Acará

A proclamação, originalmente datada de 24 de outubro de 1834, mas só oficializada pelo reconhecimento cartorial em 3 de novembro, é assinada pelo “tenente coronel comandante” Felix Antônio Clemente Malcher. Ele estava no Engenho do Desterro, no qual diz estar o “acampamento das forças federais”. O documento contém todos os ingredientes que irão se manifestar pouco mais de um mês depois.

O inimigo é o “déspota presidente” da província, Bernardo Lobo de Souza, acusado de governar “com a dura vara de ferro do infame despotismo”. “Atemorizado” pelas “flechas e baionetas” dos rebeldes, ele fugiu para bordo da corveta Bertioga.

Ao ser abandonado pelo “pequeno rebanho de escravos que o arrodeavam”, teve que fugir, deixando nos cabanos “o dissabor, de não o colher as mãos para que fosse aqui mesmo punido os seus horrorosos crimes”.

Malcher informa que já havia um destacamento na paragem, denominada Goiabal, com 130 “patriotas brasileiros valorosos”, comandados pelo capitão José Agostinho d’Oliveira, “patriota bem conhecido recheado de probidade patriotismo, e coragem”.

Malcher deixa claro que os rebeldes já se autodenominavam cabanos, pelo menos nesse ano, ao contrário do entendimento de que o termo só veio a ser usado quando o movimento já fora extinto.

Nos vivas com os quais finaliza a proclamação, o comandante cabano saúda a constituição imperial, a federação e a regência em nome do imperador. Logo, não pensa no rompimento da unidade nacional nem na negação do regime vivente. O movimento se torna armado porque a tropa paraense “sabe manter os seus sagrados direitos”. É a grande aspiração contra os despóticos representantes, como Lobo de Souza, mandados pelo Rio de Janeiro para governar o povo no Pará.

O documento foi publicado originalmente no jornal Correio Official Paraense e republicada no Diário de Pernambuco, nº 589, de 26 de janeiro de 1835, folha 3. Ao contrário de Condurú, atualizei a grafia para permitir melhor leitura do texto. Mas mantendo integralmente o seu formato, garantindo a autenticidade do documento.

Proclamação dos Cabanos Sublevados no Rio Acará

Proclamação – Valorosos patriotas Paraenses, tenho a satisfação de vos comunicar, que o Déspota Presidente, atemorizado de nossas valorosas flechas e baionetas, já existe abordo da Corveta Bertioga, de maneira que já não vem a terra, e também porque se vê solitário; pois o pequeno rebanho de escravos que o arrodeavam, já o abandonou, e o único recurso, que resta a esse malvado Presidente é fugir, ficando-nos assim o dissabor, de não o colher as mãos, para que fosse aqui mesmo punido os seus horrorosos crimes.

Paraenses já temos um destacamento da paragem denominada – Goiabal – de cento e trinta patriotas Brasileiros valorosos, de que é digno Comandante o Capitão José Agostinho d’Oliveira, patriota bem conhecido recheado de probidade patriotismo, e coragem, digno em fim do doce nome de Brasileiro Liberal. Vós sois testemunhas dos Brasileiros que aqui existem expostos antes a morrer, do que serem novamente governados, com a dura vara de ferro do infame Despotismo.

Viva a Santa Religião Católica Romana que professamos; Viva o Povo e Tropa Paraense, que sabe manter os seus sagrados direitos; Viva a Constituição e Santa Federação; Viva a Regência em nome do Imperador! Viva S. M. I. e Constitucional o nosso Jovem Patrício, o Snr. D. Pedro II. Engenho do Desterro, e Acampamento das forças Federais 24 de outubro de 1834. – O Tenente Coronel Comandante Felix Antônio Clemente Malcher.
Reconheço o sinal da Proclamação supra ser de Felix Clemente Malcher por ter todo o conhecimento do mesmo, e por semelhante que vi. Pará 3 de Novembro de 1834. – Em testemunho de verdade estava o sinal público. – Paulo Maria Perdigão. Está conforme. – Miguel Antônio Nobre Oficial Maior.

(Do Correio Official Paraense)

153 comentários sobre “Cabanagem: documentos da história (1)

  1. ricardoconduru 21 de maio de 2022 / 22:34

    CABANAGEM REDESCOBERTA – Por Ricardo Condurú

    Retorno ao Pará de Eduardo Angelim e Francisco Vinagre em 1840

    Jornal do Commercio (RJ), nº 290, de 2 de novembro de 1840, folha 4, publica sobre a saída da charrua Carioca do porto do Rio de Janeiro no dia 31 de outubro de 1840, tendo como presos Eduardo Angelim e Francisco Vinagre, que tinham como destino o Pará.

    MOVIMENTO NO PORTO

    SAÍDAS NO DIA 31

    (…)

    MARANHÃO PELA BAHIA – Charrua Carioca. Comandante, o capitão-tenente Luiz Caetano de Almeida. Passageiros (…) os presos Eduardo Francisco Nogueira Angelim e Francisco Pedro Vinagre, e 39 inválidos.

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  2. ricardoconduru 22 de maio de 2022 / 22:18

    BLOG CABANAGEM REDESCOBERTA – Por Ricardo Condurú

    Revista “Cultura” (RJ), Ano I, nº 4, MEC (Ministério da Educação e Cultura) – Outubro de 1967, folha 14 e 26 e 27, publica texto de Artur César Ferreira Reis, onde destacamos o trecho que trata da chegada da imprensa na província do Pará.

    A PARTICIPAÇÃO DA AMAZÔNIA NO CONTEXTO CULTURAL DO BRASIL

    Artur César Ferreira Reis

    (…)

    9 – O Jornal e o Livro

    A primeira imprensa foi imprensa com tipos de madeira, invento de um curioso paraense, Madureira Pará, que os construiu e com eles imprimiu, em prensa também de madeira, o expediente governamental, pequenos boletins, e talvez uma folha que teria tido o nome de “Correio do Pará”. Ocorreria isso já no século XIX, em 1821.

    A preocupação, no entanto, porque as novidades revolucionárias não contaminassem os homens da Amazônia, criara-se, em 1821, uma junta de censura, presidida pelo Dr. Antônio Correia de Lacerda, eminente homem de ciência que se realizava no extremo norte estudando-lhe a natureza. Essa junta em breve, porém, confessava o seu insucesso, de vez que circulavam boletins manuscritos, sobre as novas incendiárias que chegavam da Europa ou do sul do Brasil. E seus membros deixavam a atribuição sob as alegações mais variadas. Eram três.

    A atividade jornalística já aquela altura era atividade ligada à atividade política. Os jornais que circulavam no país, ainda colônia, serviam de veículo às ideias exaltadas da autonomia que se desejava alcançar o mais breve possível. Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, em contrato que firmou com o tipógrafo e impressor Daniel Garção de Melo, que trouxe de Portugal uma máquina impressora e tipos necessários ao jornal, lançou, a 1º de abril de 1822, “O Paraense”, em cujas colunas começou-se a propaganda subversiva que fez tremer o poder constituído e fiel ao reino. Tomaram-se providências para que não continuasse a semeadura, considerada perigosa aos interesses dos poderosos do momento. O periódico, no decorrer da quartelada do brigadeiro Moura, foi fechado e em seu lugar passou a circular o “Luso-Paraense”, agora para defender o princípio de que a união com Portugal, portanto a submissão colonial devia ser a tese vencedora.

    Em “O Paraense” colaborava a inteligência moça paraense, como os cônegos Batista Campos e Silvestre Antunes Pereira Serra, que substituiria Batista que, de seu lado, já substituíra Patroni, quando este foi preso.

    Conquistada a independência, a imprensa cresceu em número de folhas em circulação, sempre a ter atuação incisiva no debate dos problemas que diziam respeito à vida política regional. Assim ocorreu nos momentos graves do primeiro império e na fase regencial quando, em armas, a população da Amazônia promoveu a cabanagem, primeira manifestação de massa ocorrida no Brasil nascente como nação soberana.

    Se assim foi no Pará, no Amazonas a imprensa só surgiu em 1852, quando instalada a província. O primeiro jornal foi a “Estrela do Amazonas”, seguido do “Cinco de Setembro”, sendo impressor e diretor do primeiro e do segundo o artista paraense Amaral da Silva Ramos. Também essa imprensa participou das jornadas políticas no segundo império, atuando ativamente na defesa da ideia da libertação dos escravos e posteriormente na divulgação da ideologia republicana.

    (…)

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  3. ricardoconduru 23 de maio de 2022 / 20:54

    BLOG CABANAGEM REDESCOBERTA – Por ricardo Condurú

    A truculência de Eduardo Angelim no processo eleitoral de 1867

    Jornal do Commercio (RJ), nº 53, de 22 de fevereiro de 1867, folha 1, publica uma longa carta particular, da qual reproduzimos apenas alguns trechos, que trata do processo eleitoral de 1867, onde o conservador presidente da província, Leão Veloso, tenta de todas as formas impedir o avanço dos partidários liberais. Entre suas estratégias, escolhe como comissário eleitoral em Beja (atualmente um distrito do município de Abaetetuba) a Eduardo Angelim, o qual ali chegou acompanhado de “algumas pessoas de Conde”. O que se relata é uma série de truculências comandadas por Angelim, como urna quebrada, tiros, e brigas com vários feridos, inclusive o ex-presidente cabano. Também é reproduzido um discurso ameaçador de Angelim, onde, além de se confessar “um republicano de coração”, em atitude contraditória informa que quem não o acompanhar na votação a favor do governo, será enviado para a guerra do Paraguai.

    PARÁ

    Belém, 1º de fevereiro de 1867

    Reproduzem-se por tal modo os fatos de arbítrio, prepotências e violências, que ninguém pode acreditá-los fora daqui. Para convencê-lo, porém, encarrego-me de citar fatos unicamente, que constituem prova documental.

    (…)

    Que caçada em forma contra o corpo eleitoral.

    Hoje e amanhã devem redobrar os esforços do Sr. Leão Veloso para a conquista das mesas, com as quais escreverá as atas que bem lhe parecer. Entretanto, sua excelência declara com a maior frescura que a não vencer não haverá eleição!

    Esta capital está espantada, porque nunca um presidente conservador, por mais vermelho ou emperrado que fosse lhe esmagou assim os brios!

    Será isto para tornar adorado o governo de Sua Majestade?

    Será isto para estreitar os laços à famosa corte do Rio de Janeiro?

    Será isto para animar o patriotismo dos paraenses, que são os primeiros em morrerem na campanha contra o Paraguai, e são por sua vez tratados muito pior que os paraguaios por Lopes?

    Será isto governar ou anarquizar?

    Pelo que lhe conto da capital, imagine o que não vai pelo interior.

    8 de fevereiro

    Não sei se terei tempo para referir-lhe todos os fatos da eleição ou farsa eleitoral que o governo mandou representar nesta província. Pelo menos tratarei do mais importante.

    (…)

    As notícias que vem chegando do interior são desagradáveis.

    Em Ourém o subdelegado prende o juiz; mas o vigário prende por sua vez o subdelegado!

    No Moju só foi permitido votar aos governistas, não podendo nem o próprio juiz de paz presidente da mesa votar!

    Em Beja correu sangue, porque o Sr. Leão Veloso enviou para ali como seu comissário o célebre Eduardo Angelim, facínora de 1835!

    A este respeito escreve o Jornal do Amazonas:

    “Organizada a mesa paroquial, e já quando o juiz de paz João Raimundo de Campos fazia a chamada dos votantes, chegou Eduardo Angelim, principiando por gritar na igreja que era emissário do Sr. Leão Veloso que o tinha encarregado de vencer a eleição. Depois deste exórdio mandou avançar algumas pessoas de Conde, armados de cacetes, dizendo-lhes que arrancassem e quebrassem a urna.

    “E, como se fosse preciso animar a sua gente com exemplo, descarregou um tiro de pistola dentro mesmo da igreja!

    “O primeiro que procurou realizar o atentado foi o subdelegado Bento José Ribeiro, que pulou em cima da mesa, atirou a urna ao chão e gritou que a quebrassem.

    “Então os votantes de Beja repeliram o ataque inesperado de que eram vítimas, arrancando os cacetes dos agressores, e defendendo-se com eles.

    “Ao próprio Eduardo Angelim, autor desta empresa, depois de descarregar outro tiro em Theobaldo Pereira, arrancaram-lhe a pistola de quatro canos.

    “Muitos liberais ficaram feridos, assim como alguns dos agressores, inclusive Eduardo Angelim.

    “Como estavam no princípio da chamada, passada a desordem, continuou o trabalho sem mais alteração.

    “ E o que queria o Sr. Leão Veloso escolhendo Eduardo Angelim para seu comissário eleitoral?

    “Queria sangue?

    “Aí o tem, beba-o, e farte-se, permitindo Deus que seja só esse que se derrame”

    E para que compreenda bem quem provocou o derramamento de sangue, aqui reproduzo algumas palavras de Eduardo Angelim, digno comissário eleitoral do Sr. Leão Veloso, digno delegado de Sua Majestade:

    “Faz trinta e um anos, meus patrícios de Conde e Beja, que vossos avós me receberam e me ouviram. Neste momento invoco as suas cinzas; eles me ouviram e me acompanharam, assim espero que o fareis. Eu sou republicano de coração…. e não grito viva a república porque não posso. Vim em comissão do governo para vencer a eleição e tomar nota daqueles que não votaram com o governo; porque este batalhão esta avisado para destacar, e os que não me quiserem acompanhar serão tirados para irem para o Paraguai. Tende dó de vossos filhos, não vos iludais, porque os oficiais cá ficam e eles lá irão.”

    Entretanto o algoz é considerado vítima pelo Sr. Leão Veloso, e as vítimas gemerão sob perseguições que preparam!

    (Carta Particular)

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