Um garimpo de história

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 296, de janeiro de 2003)

Cabanagem (documentos ingleses), editado pela Secretaria de Cultura e a Imprensa Oficial do Estado (274 páginas) e lançado no último dia 30, em Belém, é o mais importante livro sobre a Cabanagem desde que Domingos Antônio Raiol concluiu o quinto volume de Os Motins Políticos, 130 anos atrás. O traço de união entre as duas obras, e o que as valoriza na bibliografia sobre o acontecimento, é a quantidade de documentos primários que nelas está contido.

Contemporâneo do movimento social que irrompeu em 1835 e se prolongou até 1840, provocando a morte de pelo menos 20% dos 150 mil habitantes da província do Grão-Pará e Rio Negro, o Barão de Guajará foi o maior de todos os divulgadores da documentação nacional. Agora, graças ao historiador David Cleary, estamos tendo acesso a uma valiosa porção dos papéis oficiais produzidos na época por representantes do império britânico.

A partir de agora, ninguém poderá escrever sobre a Cabanagem sem levar em consideração os documentos do Ministério das Relações Exteriores e da Marinha da Inglaterra, recolhidos ao arquivo público de Londres (o Public Record Office, um “paraíso para historiadores”, segundo Cleary) e reproduzidos no livro. Há cinco anos esse material está à disposição dos pesquisadores mais ansiosos e à espera de aparecer na forma impressa, tantas vezes anunciada quantas postergada, sem justificação plausível.

Ao ver esses papéis pela primeira vez, a mim apresentados pelo então diretor do Arquivo Público do Pará, Márcio Meira, fiquei em estado de choque. Li sofregamente todos os documentos, mas com estarrecimento uma carta do embaixador inglês no Rio ao ministro do exterior do seu país, lorde Palmerston, relatando proposta – secreta e confidencial – do padre Diogo Antônio Feijó para que a Inglaterra reprimisse com suas tropas os cabanos rebelados (e que divulguei nacionalmente, em artigo de página inteira, no jornal O Estado de S. Paulo).

Essa carta e os demais documentos não permitem uma visão conclusiva sobre a Cabanagem, nem são suficientes para exprimi-la convincentemente, mesmo porque ainda há arquivos a vasculhar, no Brasil e nos Estados Unidos, Portugal, Inglaterra, França e, talvez, Holanda.

Mas esses papéis põem abaixo muitos mitos e distorções ideológicas sobre o que, na litania petista do prefeito Edmilson Rodrigues, por exemplo, seria a expressão mais pura da revolução dos oprimidos contra os opressores, dos que não têm contra os que têm (na bela frase de Handelmann), dos nacionais contra os estrangeiros, da aldeia cabana (ainda que de concreto) contra a urbe neoliberal e a globalização.

Ao invés de provocar polêmica e discussão, a despeito dos vários artigos que meu irmão, Elias Pinto, e eu escrevemos, a preciosa documentação inglesa continuou abandonada nos porões do Arquivo Público em Belém, ignorada pela intelectualidade e guardada com certa negligência por seus responsáveis oficiais.

Talvez porque essa documentação primária, ouro puro depois de tanto cascalho interpretativo, exija uma completa revisão conceitual, um recomeçar (se não do começo, ao menos de muito atrás) e trabalho de verdadeiro historiador, aquele que revela e não apenas reinterpreta, retrabalhando fontes secundárias, dizendo de outra forma o que já foi dito antes (nem sempre citando a fonte original).

Agora, esse silêncio conveniente será quebrado. Os documentos chegam finalmente à rua, ao domínio público. A pressa e as circunstâncias, infelizmente, provocaram danos à obra. A apresentação de Geraldo Coelho, diretor do arquivo, é dispensável. Parece ter sido escrita com desinteresse e certo relaxamento.

A rica introdução de David Cleary, escrita no melhor estilo do ensaísmo inglês, com humor e clareza, se ressente de uma revisão. Por causa da falta de pleno domínio do português de seu autor, o texto devia ter sido ajustado para que incorreções naturais no trato da língua por um estrangeiro fossem expurgadas. Ainda assim, Cleary ajuda seu leitor na leitura dos documentos e na compreensão do seu significado, iluminando o pano de fundo do acontecimento histórico.

A leitura do livro é dificultada pelo tipo pequeno das letras, pela falta de contraste no papel (de indesejada transparência), pela mancha de impressão demasiadamente grande, que reduziu as margens. Ainda assim, a obra tem tanto valor que logo deverá estar numa segunda edição, corrigida e melhorada, como ela merece e todos nós merecemos [o que, infelizmente, não aconteceu até hoje].

Mais do que todos, merece esse complexo e fascinante momento da nossa história. Cabanagem (documentos ingleses), liberto dos porões do Arquivo Público, provocará impacto em Belém, no Rio de Janeiro, em Londres e em várias outras praças, nacionais e estrangeiras. Pelo simples fato de restabelecer a vida a um acontecimento de significado para a história da humanidade, tão vivo antes quanto agora.

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5 comentários sobre “Um garimpo de história

  1. Elielson P Barbosa 28 de abril de 2017 / 10:24

    Aqui está um paraense completamente analfabeto sobre a Cabanagem. Espero que a obra esteja disponível ao público principalmente no formato e-book. Não tenho mais onde guardar livros de papel.

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    • Lúcio Flávio Pinto 28 de abril de 2017 / 10:51

      Infelizmente não há edição eletrônica. Talvez você encontre o livro na sede da Secult ou na Fox Vídeo. Se quiser descartar papel, Elielson, mande!

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  2. David Cleary 28 de abril de 2017 / 13:34

    Caro Lucio

    Que prazer, e que emocao, ler de novo este artigo, agora em formato de blog. Ate hoje, me aproximando dos 60, e com tantas outras coisas que fiz na vida, o descobrimento e publicacao deste material foi o que mais me forneceu satisfacao profissional. Jamais vou esquecer aquele momento, sentado na mesa do PRO com o livro de registro de correspondencias da marinha real, lendo aquela frase “Sanguinary Portuguese Atrocities”, e sabendo que tinha descoberto algo autenticamente importante.

    E uma pena, realmente, que nunca fizeram uma segunda edicao. Hoje, quando falo e escrevo portugues bem melhor, dificil reler sem ranger os dentes. Mas uma edicao é melhor que nada, e sem voce tudo estaria apodrecendo no Arquivo ate hoje. Que tambem nunca vou esquecer.

    Espero poder te ver em Belem ano que vem – estou planejando uma visita para matar saudades.

    Ate ja, com um abraco e muito respeito, como sempre

    David

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    • Lúcio Flávio Pinto 19 de maio de 2017 / 18:15

      Só agora vi a sua mensagem, David. Muito obrigado pela visita. Editei em 2015 um suplemento para registrar os 180 anos da cabanagem, a partir do qual criei este blog. Se lhe interessar, posso lhe enviar. Mande seu endereço para lfpjor@uol.com.br.
      Grande abraço,
      Lúcio

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  3. Elielson Barbosa 22 de maio de 2017 / 22:09

    Meu caro Lúcio Flávio sou um paraense que desconhece muito da Cabanagem, boa parte pacificada pelo livro do Sérgio Buarque de Gusmão que foi meu colega de ginásio em Capanema. Como obter esse livro? Foi publicado em formato eletrônico? Abraços, Elielson Barbosa, de Belo Horizonte

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