O livro da neta de Angelim

Para Gonçalves Dias, o cearense Eduardo Nogueira Angelim foi “o tipo do brasileiro mais perfeito”. O poeta maranhense pretendia dedicar-lhe uma “gloriosa epopeia”, mas nunca esse plano tomou forma escrita. Apesar de toda sua importância, o líder da cabanagem mereceu até hoje apenas uma biografia, escrita por sua bisneta, Dilke Barbosa Rodrigues (A vida singular de Angelim, Pongetti, Rio de Janeiro, 1936). O livro nunca foi reeditado, se transformando em raridade bibliográfica. Não pelo seu valor intrínseco, mas por sua circunstância de produto único.

O esforço de Dilke é convencer seu leitor de que Angelim foi um intelectual e o verdadeiro líder político da revolta que eclodiu em Belém,, em 7 de janeiro de 1835, e terminou no Amazonas, em 1840, com a anistia aos revoltosos dada pelo imperador Pedro II. Segundo ela, seu bisavô leu bastante e tinha ideias avançadas para o seu tempo, que tentou por em prática durante a rebelião, sem sucesso. Seus sonhos foram desfeitos em violência e sangue no fragor das lutas entre cabanos e as tropas legais.
Dilke tenta compor a figura de um herói sem mácula e projetá-lo como um mito, o maior do seu tempo. Parece querer compensar os dois volumes que Angelim escreveu no exílio com seu testemunho sobre tudo que viveu. Os originais do livro se perderam em Fernando de Noronha, onde Angelim.

Como o livro de Dilke é singular, conforme diz o título, vale a pena anotar algumas das observações mais originais que ela faz, como uma contribuição da família – sujeita às limitações desse tipo de análise, mas de valia para a compreensão do personagem.
Pela ótica de Dilke, a predestinação de Angelim seria precoce. Ele tinha 12 anos quando houve a grande seca de 1827 no Nordeste. Apesar de tão novo, teria sido ele quem sugeriu que a família se retirasse do Ceará e fosse no rumo da Amazônia, se estabelecendo no Acará.

Trabalhando como guarda-livros (contador) numa casa comercial em Belém, conseguiu juntar dinheiro suficiente para arrendar terras do coronel Félix Clemente Malcher, às margens do rio Acará, uma das regiões mais importantes do Pará, com suas plantações e engenhos de cana de açúcar. Já era um proprietário rural e pequeno burguês quando se casou com Luiza Clara, a jovem viúva de um rico comerciante português (seu segundo marido), que algumas pessoas diziam ter sido morto por Angelim, o que ele sempre negou.

Luiza Clara casou pela primeira vez quando tinha 15 anos com um militar. Enviuvou precocemente e dois anos depois era a mulher de Angelim, seu terceiro marido. Do casamento resultaram sete filhos: Maria, América, Brasília, Pelópidas, Epaminondas e Filomena Clara. A união com Luiza Clara o modificara. “Imerso em sonhos de amor e tranquilidade, Angelim afastara-se do local político e somente chamado voltava a socorrer os amigos”.

Cultivou amizade muito forte com o irmão Geraldo, o primeiro da família a se engajar em movimentos contra a ordem estabelecida. Mas se recusou a aceitar os primeiros convites para segui-lo. Aos 19 anos, sua única preocupação era desenvolver seu talento e crescer. Já acumulava algumas economias e em pouco tempo estaria em condições de viajar, percorrer centros de cultura. Seu tempo se dividia entre o trabalho, o trato das suas terras e os estudos.

A neta assegura que ele leu Aristóteles e estava a par das ideias do filósofo grego sobre a construção da república. Numa de suas proclamações, citou o escritor francês René Chateaubriand: “Não se deve servir a um governo para que sustentar a ordem precisa oprimir a liberdade e para manter a esta se expõe e cai em anarquia”.

Mas na tarde de abril de 1833, quando chegou à loja para trabalhar, já o aguardavam algumas pessoas, dentre elas seu irmão, Geraldo. Vinham convidá-lo para chefiar o movimento que iriam desencadear. Ficou surpreso pela iniciativa, mas imediatamente aceitou. A neta diz que Angelim mudou de comportamento, deixando de recusar ao chamado, por ver a oportunidade de realizar seus projetos: liberdade dos escravos, mudança de regime na corte, independência do domínio estrangeiro.

Um desenho feito por ele tinha um índio atirando uma flecha em direção ao sol, no ocaso, significando o brasileiro livre, exterminando a monarquia e criando a nação dos Estados Unidos da América do Sul. No entanto, a própria Dilke admite que o bisavô só não aceitava escravos e mulheres na sua tropa, porque “lhe afiguravam fraqueza, e os fracos não devem lutar”. Uma das várias contradições aparentes de Angelim.

Sua participação na revolta de abril de 1833, na qual as forças do comerciante Afonso de Jales contra as do presidente, Machado d’Oliveira, foi tal nesse primeiro combate, por sua bravura, que ganhou o apelido de Angelim, madeira amazônica muito rija, que nunca mais deixou de usar. O irmão, igualmente valente, passou a ser Geraldo Gavião.Mas não aceitou o comando das armas, que lhe ofereceu Félix Malcher, primeiro presidente cabano, porque não foi proclamada a abolição da escravatura. Não quis nem assinar as atas de reconhecimento de Malcher como presidente. Seus companheiros ficaram desconfiados e insatisfeitos.

Quando Malcher foi deposto (e morto em seguida), Angelim se recusou a substituí-lo. “Foi o único homem de bem que conheci”, diria Malcher antes da deposição e morte. Francisco Vinagre assumiu e foi então que Angelim decidiu atuar politicamente.
Se a massa dos cabanos não tivesse se mantido em atividade, a cabanagem teria sido extinta durante o governo do marechal Jorge Rodrigues. Os líderes admitiram que eles já não comandavam as ações e nada fizeram para ampliá-las. O retorno de Angelim ao comando foi mais consequência da pressão da massa do que iniciativa da liderança.

Quando o marechal chegou a Belém, os líderes lhe entregaram imediatamente “a capital de que se achavam de posse, seus terrenos e todo o material de guerra”, conforme o próprio Angelim informaria na sua proclamação aos paraenses, em 29 de junho de 1835.

O novo presidente prendeu então Vinagre e mais de 300 paraenses. Angelim foi outra vez procurado e reagiu com uma proclamação convidando os paraenses a pegar em armas e fazer “guerra de morte” ao marechal.

Ele foi aclamado presidente em 26 de agosto de 1835. Tinha 21 anos. Foi o 13º administrador do Pará, o melhor de todos, segundo alguns autores. No poder, “pretendeu levar de frente as reivindicações da província, sob as quais assentavam seus ideais liberais, que pretendia dar corpo, mas preferiu entregar o Pará à lei que, na verdade, sempre a estimou”, observa Dilke.

Ela diz que a cabanagem arruinou Angelim, que perdeu todos os bens que conseguira acumular. Com seu dinheiro, pagou o funcionalismo e alimentou a população.
Ele ficou preso na Fortaleza da Barra de 1837 a 1840. Foi mandado para o Rio de Janeiro e libertado. Presente em uma sessão da câmara dos deputados, deu vivas a Antonio Carlos de Andrada. Chamado à atenção, continuou a se manifestar, foi preso ao sair do paço da câmara. Ficou em Fernando de Noronha de 1841 a 1851. Sem processo. Soltaram-no em 5 de maio de 1852. Passou por Recife e seguiu viagem de volta a Belém, onde chegou a 13 de maio.

Luiza Clara morreu em 1878 e ele em 1882, aos 67 anos. Antes de morrer, quase afônico, pediu que abrissem as janelas que davam para o rio. Morreu no sítio Madre de Deus. “Deus seja comigo”, foram suas últimas palavras. Eram 11 horas de 20 de julho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s