Cabanagem e Comuna

Alguns anos atrás surgiu, como de um estalo de lucidez, a inspiração do elo: a cabanagem, em 1835, seria um movimento precursor da comuna de Paris, de 1871? A comparação superficial pode levar a uma resposta positiva: foi.

O aprofundamento desfaz essa correlação: o contexto no qual a população parisiense montou barricadas nas ruas, resistindo aos patrícios e aos alemães, era imensamente mais complexo; o ponto histórico da comuna não estava adiante apenas 40 anos em relação à cabanagem, mas numa distância abissal.

Em comum, inegavelmente, a sangria desatada, os mortos contados aos muitos milhares – tanto naquela que, mais de meio século depois, tentaria se tornar a Paris tropical, quanto na sua matriz mimética na idílica Europa.

Os largos e longos boulevares rasgados na capital francesa pelo barão Haussman, o intendente da cidade (como Antonio Lemos por aqui), destruindo as residências populares em perigosa vizinhança com os domicílios da elite, visaram despejar o povo rebelde na periferia da “cidade-luz”.

Os boulevares belenenses, na transição do século XIX ao XX, eram uma demonstração de exuberância dos potentados locais e fonte de cultura artificial para impressionar os nativos e seduzir os estrangeiros. Não segregou os mais pobres, exceto por deixá-los imersos nos pântanos das “baixadas”, de onde foram sendo expulsos na medida em que o espaço físico da área urbana mais alta se tornava mais difícil e ir para longe, mais caro. Sobretudo depois do programa de macrodrenagem das baixadas (1985-1993).

Essa conquista do espaço topograficamente e socialmente mais pobre foi uma vitória de Pirro, que deu batatas ao vencedor. Seu maior troféu é a Doca de Souza Franco, igarapé que, retificado e canalizado, foi transformado em esgoto a céu aberto. Mas devidamente edulcorado pelas vias pavimentadas e os prédios de alto custo ao redor, cenário para a classe média cultuar seu corpo como se estivesse num ambiente à beira-mar.

Não foi, porém, uma razzia, como a que transformou radicalmente Paris na segunda metade do século XIX. Ainda há ruas nas quais casas de barões, de remediados e de pobres se sucedem sem que estes, como revoltos da nova comuna, pulem a cerca para degolar ou enforcar o vizinho, personificação da exploração ou da má sorte do destino.

Nos bairros mais nobres, a convivência entre os moradores é quase pacífica. O perigo tem origem na periferia, de onde só os fortes, que sobrevivem à guerra civil não declarada de todos os dias, conseguem sair em expedição de saque e punição às áreas abastadas da cidade.

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