Ficção como história

A editora da Universidade Federal do Pará anuncia para o próximo ano uma nova edição, a terceira, dos Motins Políticos, de Domingos Antonio Raiol. Precisa ser bem organizada para afastar a pedregosidade da primeira edição, mantida na seguinte, de 1970. As notas de pé de página se alongam e ultrapassam os limites da página a que se referem. Com idas e vindas, a leitura deixa de ser fluente, prejudicando a inteligibilidade do texto, que é primoroso.

Uma edição didática e crítica pode combater ou prevenir os males de um tipo de abordagem que empobrece a cabanagem. É o caso de Maria Furley Schmidt, autora de uma Nova História Crítica do Brasil (São Paulo, Nova Geração, 1999, 392 páginas). O subtítulo do livro didático, destinado aos alunos do ensino médio, é 500 anos de História mal contada. Sobre a cabanagem, a autora também contou pessimamente a sua.

Não só por fatos ou nomes errados, mas porque criou verdadeira ficção. Imaginando estar realizando uma análise marxista, na verdade ela transportou a cabanagem para a atualidade e lhe aplicou conceitos irreais, sem conteúdo concreto, tirados do armário das capitulações e adjetivações esquerdistas.

Um tipo de análise dualista e maniqueísta: os bons de um lado, os maus do outro; trabalho e capital; revolução e reacionarismo. Apertados nesses moldes explicativos, os alunos de manuais como esse estão prontos para julgar e definir os fatos históricos sem precisar conhecê-los. Os rebeldes são revolucionários, conhecem o sentido da história.

Os cabanos, que não conhecem a história por serem analfabetos (num comprometedor preconceito da autora, que ignora a fertilidade da história oral, como a saga de Carlos Magno e os sete pares de França), a têm no coração. Ao escrever essa frase gloriosa, Maria Schimidt pode estar fazendo poesia ou epopeia, mas nunca história.
Para estimular uma reedição mais rápida da obra clássica do barão do Guajará, segue-se o texto do manual de história:

CABANAGEM EXÓTICA

Cabano era o pobre do Pará. Morava num barranco de madeira e bambu, em cima do pântano, entre cobras, mosquitos transmissores de doenças, vermes e fome. Trabalhava muito, mas vivia mal. Porque os frutos do seu trabalho iam quase todos para os latifundiários e para os grandes comerciantes que dominavam a província. Em todos os cantos, os pobres sussurravam entre os dentes: “terra para o povo, liberdade e igualdade”. Analfabetos, não tinham a revolução francesa na cabeça. Mas certamente a tinham no coração.

A região estava agitada desde o tempo em que mercenários ingleses, a mando de D. Pedro I, assassinaram patriotas brasileiros no porão de um navio. Bandos armados de justiceiros atacavam os fazendeiros e levavam os bens para ser distribuídos entre os carentes. Um padre ligado aos exaltados, o cônego Batista Campos, era muito querido por pregar o Evangelho da Revolução. Nos sermões costumava benzer as armas dos rebeldes. Daí o apelido de Padre benze-cacetes.

A revolta adquiriu enormes proporções. Uma multidão, em Belém, invadiu o palácio do governador. O homem tentou fugir, mas acabou morto a golpe de tacapes. Seu corpo foi arrastado pelas ruas para que o povo em festa cuspisse nele.

Alguns latifundiários, querendo se aproveitar do movimento, usaram seu prestígio e força para assumir a liderança da revolta. Mas, chegando ao governo da Província, procuraram negociar com a Regência: foi o caso de Malcher e dos irmãos Vinagre.
Traição atrás de traição! Os líderes populares começaram a perceber isso. Eram homens e mulheres de quem a memória histórica, tão maltratada pelas classes dominantes, só conservou os apelidos: Domingos Onça, Negro Patriota, Mãe [e não Mão] de Chuva, João do Mato, Gigante do Fumo, Piroca Cana, Chico Viado, Maria da Bunda, Zefa de Baixo e tantos outros. Para eles, não houve estátuas, nem praças ou nomes de escolas. Muitos não tiveram sequer direito a uma sepultura. Porque sua luta apavorava os ricos. Os pobres falavam em distribuir terras e acabar com a escravidão. E havia até quem levantasse a possibilidade de arrancar o couro delicado dos brancos.

Tropas do Rio de Janeiro e mercenários ingleses foram enviados. Muita força militar. A repressão foi feroz. Os cabanos se refugiaram na floresta e promoveram guerrilhas. Para a “tranquilidade” (dos latifundiários, claro) voltar, aldeias de índios foram arrasadas, cabanas incendiadas e quase 40 mil camponeses assassinados.

Segundo o historiador paulista Caio Prado Jr., a Cabanagem foi o único movimento regencial “em que as camadas mais inferiores da população conseguiram ocupar o poder de toda uma Província com certa estabilidade”.

Talvez a melhor imagem seja a do destino de Vicente Ferreira de Paula, um dos comandantes dos bravos cabanos. O governo o perseguiu implacavelmente, mas só conseguiu capturá-lo em 1850, quando já era um velhinho. Apesar disso, foi levado a ferros para a ilha-presídio de Fernando de Noronha. Depois de arrebentarem-no de pancadas, vestiram-no com uma camisa de couro molhada apertadíssima. Amarrado, ficou exposto ao sol. O couro ia secando e encolhendo. Ele, então, vomitava sangue. Assim morrem os camponeses no Brasil.

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