Manuais de história caolhos

A data dos 180 anos da cabanagem podia ter servido de motivação para uma tarefa que ainda não foi completada: inserir a revolta popular desencadeada em 7 de janeiro de 1835 na história nacional. É inacreditável que um fato dessa grandeza seja ignorado, minimizado ou deturpado gravemente pela historiografia brasileira, sem falar nos usos e abusos de vários dos que tratam localmente desse fato com um sentido utilitário, para se apossar do acontecimento.

Foi o caso de Jader Barbalho no exercício do seu primeiro mandato como governador do Estado. A cabanagem foi reduzida a concreto num monumento que Oscar Niemeyer apenas esboçou, sem lhe dar a forma final, para atender a uma encomenda compulsória. Mal posicionado no espaço do entroncamento da cidade, o monumento subsiste à míngua.

Foi o caso também de Edmilson Rodrigues, que levantou a Aldeia Cabana para carnavalizar de vez a cabanagem numa rota interpretação marxista, que situou um fato da primeira metade do século XIX como se tivesse ocorrido na segunda metade do século XX. Sem compreender a sublevação popular em sua época, a transposição para um contexto muito posterior serve a um propósito ideológico, mas desvia o leitor fascinado da verdade.

Iniciei esta série imaginando poder atrair outras e melhores iniciativas para criar um debate mais amplo, capaz de repercutir junto à opinião pública nacional. Mal consegui algumas (embora excelentes) respostas de leitores. Assim jamais se conseguirá interessar pelo tema a intelectualidade dominante. Nem mesmo pela revelação das informações contundentes dos documentos ingleses, que foram o elemento de maior relevância do dossiê que publiquei sobre a cabanagem.

Ainda com a esperança de manter vivo o interesse, continuarei com esta seção pelas próximas edições dedicando atenção ao que dizem sobre a cabanagem os livros didáticos e alguns trabalhos de maior profundidade. Sem uma sequência cronológica nem hierarquia temática. A abordagem será feita à medida que for encontrando as fontes da pesquisa numa biblioteca caótica. Ao final, talvez se possa formar uma antologia cabana.

EM 1929

A primeira delas é Compêndio de História do Brasil, de Mário Vasconcelos da Veiga Cabral, que era professor da Escola Normal no Rio de Janeiro quando a 6ª edição do seu livro (de 366 páginas) foi publicada, em 1929, por Jacinto Ribeiro dos Santos – Editor. Nessa época, o engenheiro agrônomo doublé de historiador já escrevera 18 obras. O seu compêndio é típico dos manuais então usados, o dele adotado no Colégio Pedro II, nos colégios militares, escolas normais “e em muitos outros estabelecimentos de ensino secundário”. Por isso, formava opinião.
É este o trecho dedicado à cabanagem:

“No Pará, as tropas já corroídas pelo cancro da indisciplina, sublevaram-se em 14 de Abril de 1833, durante essa revolta, conhecida pelo nome de Cabanada, três anos e pouco.

Os revoltosos assassinaram o governador Bernardo Lobo de Souza e o comandante das armas, major Silva Santiago, cujos corpos foram sepultados na mesma cova, em 7 de Janeiro de 1835.

Para substituí-los, foram nomeados, respectivamente, o tenente-coronel Félix Antonio Clemente Malcher e Francisco Pedro Vinagre. Dentro de poucos dias, em 19, desavieram-se, porém, os dois, e o resultado foi a luta entre os partidários de ambos, sendo Malcher batido e obrigado a se refugiar no arsenal de guerra, de onde se passou para bordo de uma embarcação brasileira, cujo comandante, o primeiro tenente José Eduardo Wandenkolk, o entregou aos partidários de Vinagre, que o assassinaram e arrastaram pelas ruas da cidade.

Estava assim Vinagre senhor da situação, quando ao Pará chegou, em Julho, o marechal Manoel Jorge Rodrigues, encarregado de pacificar a província.
Fingiu Vinagre a princípio estar disposto à submissão, mas, em breve, recomeçou a luta.

No dia 14 de Agosto de 1835, 2.987 cabanos iniciaram, nas ruas de Belém, renhidos combates, que se prolongaram até a madrugada do dia 23.

Em Abril de 1836, já então durante a regência de Diogo Feijó, sendo nomeado governador e comandante das armas o brigadeiro Francisco José de Souza Soares de Andréa, a este passou Rodrigues o comando, retirando-se para o Rio”.

É a típica história episódica, de fatos isolados, sem conexão, entre datas e personagens. Não há preocupação em buscar a especificidade de cada acontecimento, daí a cabanagem virar cabanada, de um ano antes, no Nordeste. A narrativa não tem coerência nem sequência lógica: o autor parte dos conflitos de 1833 diretamente para a segunda etapa da cabanagem, sem citar sequer o movimento da eclosão, em 7 de janeiro.

EM 2008

Oitenta anos depois, há mais informações e alguns compêndios abrem espaço um pouco maior para a cabanagem, em parte devido à orientação marxista de parte dos historiadores. Invariavelmente, citam como fonte de inspiração o paulista Caio Prado Júnior, autor de uma abordagem mais sólida, sem, no entanto, demonstrar conhecimento específico dos fatos. A análise marxista ortodoxa tende a impor conceitos mais gerais e categóricos, como se eles fossem perfeitamente aplicados à realidade da Amazônia.

O trecho deste exemplo é de História, volume único, de Gislane Campos Azevedo e Reinaldo Seriacopi, publicado em 2009 pela Editora Ática (em 552 páginas). Os autores reconhecem a importância da cabanagem, com seus “cerca de 30 mil mortos”, numa população de 150 mil habitantes, sem sair do tratamento amorfo. E cometem um grande “chute”: atribuir a Angelim a proclamação da república antecipada.

Segue-se o trecho do livro:

“A província do Grão Pará viveu, na primeira metade do século XIX, grandes conturbações internas. Em 1822, sua Junta Governativa se levantou contra a Independência. Nos anos sucessivos, a província tornou-se palco de constantes disputas pelo poder entre o governo imperial e as elites regionais. Em 1832 a tensão era tão grande que o presidente da província, nomeado pela Regência, não conseguiu assumir o cargo.

No ano seguinte, a Regência nomeou Bernardo Lobo de Souza para a província do Grão Pará, mas um grupo de fazendeiros e pequenos proprietários passou a hostilizá-lo. Em novembro de 1834, Lobo de Souza mandou prender diversos opositores. Um deles, o pequeno proprietário rural Manuel Vinagre, foi assassinado pelas tropas governamentais. Era o que faltava para a província entrar em convulsão.

Em janeiro de 1835 o irmão de Manuel, Francisco Pedro Vinagre, à frente de um grupo de sertanejos, negros e indígenas armados, invadiu Belém, a capital da província. Como grande parte dessas pessoas era pobre e morava em cabanas, na beira de rios e igarapés, o movimento ficou conhecido como Cabanagem, e seus integrantes como cabanos.

Os cabanos instalaram um novo governo tenho o senhor de engenho Félix Malcher como presidente e Francisco Vinagre como comandante de armas. Entretanto, como Malcher se recusava a romper com o governo regencial, os cabanos o depuseram em fevereiro de 1835 e colocaram Vinagre em seu lugar.

Francisco Vinagre também procurou manter uma política conciliatória com o governo central. Mais uma vez, os cabanos se rebelaram. Seis meses depois de empossado, Vinagre foi deposto e substituído por outro líder rebelde, Eduardo Angelim. Em agosto de 1835, Angelim declarou o Pará independente do Brasil na forma de República.

Em maio de 1836, o regente Diogo Feijó enviou a Belém uma esquadra com o objetivo de retomar o poder local e reintegrar o Pará ao Império. Os revoltos retiraram-se da capital, mas continuaram controlando boa parte do interior por quase três anos. Somente em meados de 1940 é que foram dominados e a província foi reintegrada ao Império. Cerca de 30 mil pessoas morreram durante o conflito.

Para o historiador Caio Prado Júnior, a Cabanagem é uma das revoltas mais importantes de nossa história, pois foi a primeira em que a população pobre conseguiu, de fato, ocupar o poder em uma província”.

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