Para escrever a história

O belo e imponente casarão que pertenceu às professoras Maria Anunciada e Maria Paula Chaves, na esquina das ruas Rui Barbosa e Boaventura da Silva, no Reduto, está se deteriorando a olhos vistos. O imóvel foi posto para vender e alugar, mas ainda não atraiu interessado em substituir a Defensoria Pública da União, que se transferiu para um prédio construído nos fundos do terreno, depois da derrubada do pequeno – mas precioso – bosque que havia no quintal (e que podia ter virado um parque público).

Quando as irmãs ainda eram vivas, sugeri ao governo a desapropriação do imóvel, que seria dado em usufruto perpétuo às grandes mestras de gerações de paraenses. A elas e aos seus livros teriam acesso todos os interessados em conhecer a história e a cultura do Pará, da Amazônia, do Brasil e do mundo, que eram assuntos do domínio de Paula e Anunciada. A ideia não germinou. As irmãs não puderam esperar por um retorno: morreram antes.

Passando pelo casarão desgastado pelo tempo já longo de desocupação, me veio uma nova ideia. A prefeitura podia tomá-la como preparatória à comemoração dos 400 anos de Belém. Desapropriar ou negociar o velho prédio e nele instalar o Centro da Memória da Cabanagem, aproveitando também a data dos 180 anos da grande revolta social da Amazônia, ainda em curso.

Não seria um lugar estático. Sua primeira tarefa seria difundir o acontecimento e forçar sua inclusão nos manuais de história do Brasil e na mentalidade dos brasileiros. Para isso, criando um conhecimento sólido sobre os “motins políticos” definidos por Domingos Antonio Raiol.

O centro patrocinaria bolsas de viagem para que pesquisadores vasculhassem arquivos internacionais (em Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, França, Alemanha e Holanda num primeiro ciclo) em busca de documentos originais sobre a Amazônia, com ênfase no período de 1808 a 1840. Na volta, os pesquisadores organizariam a documentação para publicação e agregariam suas análises dos papeis localizados.

O centro também promoveria concurso anual para monografias sobre temas ligados à cabanagem, com edital aberto para a participação indiscriminada de quem viesse a se interessar pelos assuntos indicados. Haveria prêmio em dinheiro e a publicação dos melhores ensaios numa revista semestral que o centro manteria, especializada em cabanagem.

O centro (que poderia se chamar Centro da Memória da Cabanagem Paula e Anunciada Chaves) também contrataria pesquisadores para executarem missões específicas. Como, por exemplo, biografias dos principais personagens da cabanagem, começando, naturalmente, por Felipe Patroni, tão falado quanto pouco conhecido de verdade. O contratado teria a tarefa suplementar de vasculhar os arquivos atrás de uma imagem do personagem, até hoje sem qualquer registro iconográfico.

Claro: o centro montaria uma biblioteca especializada com o objetivo de sediar em Belém a mais completa referência bibliográfica sobre a cabanagem. Montaria também exposições permanentes e temporárias em sua sede, além de promover a circulação desse material pelas escolas. Colocaria à disposição dos interessados locais adequados para pesquisas, com instalações conectadas à internet. Os integrantes da instituição auxiliariam os estudantes em suas pesquisas escolares e atenderiam visitantes em geral.

Alguém se manifesta sobre a sugestão?

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2 comentários sobre “Para escrever a história

  1. FERNANDA ARAÚJO 7 de abril de 2015 / 19:05

    Tenho certeza que seria um belo memorial! MAS É UMA PENA QUE NÃO ACONTECE ASSIM.

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