Antologia cabana

As causas da revolução

A Cabanagem teve muitas causas determinantes que se resumem em uma só. Foram elas:
1ª – A exaltação sem limites dos partidos e facções políticos.
2ª– A fraqueza ou os excessos das autoridades constituídas.
3ª – A luta entre a maçonaria e o clero.
4ª – A insubordinação da força armada.
5ª – O ódio dos brasileiros de cor (negros, mulatos, caboclos, mamelucos, etc.) pelos portugueses.
6ª – Os contínuos motins que desde a independência perturbaram a ordem.
Estas e outras causas secundárias reunidas mostram que a causa principal da revolução foi: a terrível anarquia que assolava a capital e toda a província, nas mais francas manifestações.
(Arthur Vianna, Pontos da História do Pará)

A visão do império

Pandiá Calógeras dá, em Formação Histórica do Brasil, uma amostra muito representativa da visão que da cabanagem tinham as autoridades imperiais estabelecidas no Rio de Janeiro. Uma perspectiva que levaria o regente Feijó a solicitar a colaboração secreta de tropas estrangeiras contra os rebeldes nacionais.

Em 1832, a província do Pará fora teatro de desordens e de motins, e o governo central, fraco, tinha discutido e entrado em acordo com os rebeldes. Tal fraqueza encorajou os insurretos, e os tumultos recomeçaram, mais graves agora, e com a feição nova de apresentarem tendências republicanas. Sob a direção do coronel Malcher, o Pará combatia o Império. Combatido e vencido, fora o coronel preso nas últimas semanas de 1834, mas seus sequazes reagiram em grandes massas, libertaram-no da prisão a que fora recolhido, assassinaram as autoridades locais e proclamaram Malcher presidente da província. Dentro em breve prazo, o presidente assim clamado pelo populacho foi deposto por um de seus partidários, Pedro Vinagre, e morto por esta nova camada de rebeldes.

Começou então um período de violências e de desordem. Rio de Janeiro, desnorteado e hesitante, não sabia como tratar desse novo problema. Nesse meio tempo, a província estava de fato separada do Império.

Como primeira de suas tarefas, Feijó cuidou de suplantar a ilegalidade. Tomou as únicas medidas possíveis para um governo, que exigisse o respeito público. À força, tropas de terra e de mar foram enviadas para reprimir sem piedade a insurreição. Assim se deu para o maior bem das populações locais, pois os distúrbios haviam degenerado em um horrível motim de criminosos, ladrões e meios-sangues, unidos em bandos de malfeitores e assassinos.

O regente adotara o método forte, convencido como estava que todo o cruento conflito se originara da fraqueza das autoridades. A lei marcial foi instituída por decreto e para o Norte seguiram as forças nacionais. Em 1837 a revolta estava sufocada, os cabeças presos, condenados e punidos.

Alemães dizimados

Die Plata Staaten pode ser fonte muito interessante sobre um episódio pouco estudado da cabanagem: a participação de mercenários alemães. Gottfried Von Kerst, o autor desse livro, nunca traduzido para o português, é citado por Basílio de Magalhães nos seus Estudos de História do Brasil, publicados em 1940. Reproduzo a seguir a referência:

Este último alude exclusivamente a uns 500 alemães, engajados na Europa em 1838 e no mesmo ano transportados para Belém, onde, segundo informações que lhe chegaram ao conhecimento, e que não foram nunca desmentidas (repete-o ele com entono)) morreram quase todos, dizimados pelas operações de guerra e por epidemias. Von Kerst afirma que seus desgraçados compatriotas foram tratados como prisioneiros no Pará, e verbera com acrimônia o governo que os aliciou para tão sinistro destino. Há, sem dúvida, muitos enganos nas palavrasque a esse incidente consagrou o escritor tedesco”.

A resistência dos índios

Darcy Ribeiro olhou a cabanagem (em Os Índios e a Civilização) pela ótica dos índios. É de destacar a longa história de resistência dos índios munduruku, agora empenhados em evitar a construção de hidrelétricas em seu território, no vale do rio Tapajós, no Pará.

Assim foi durante a Cabanagem, movimento revolucionário (1833/1839) que reuniu caboclos, negros, brancos, pobres e índios, na mais violenta rebelião da Amazônia. Os Mawé, os Mura, os Mundurukú aderiram à insurreição, engrossando as forças cabanas, e seu território constituiu o maior reduto dos revoltosos. Nas campanhas de 1834/39, em que as forças legais derrotaram os cabanos, outros índios sofreram massacres em massa, conservando-se, porém, fieis aos rebeldes. Muitos anos depois, quando a Cabanagem morrera em todas as regiões, ali continuava viva, , polarizando a solidariedade dos índios com sua única bandeira de libertação do jugo em que viviam. E depois da Cabanagem cada movimento sedicioso da Amazônia aliciou forças nesses núcleos tribais, que levavam aos insurgentes não só sua revolta, mas reclamos específicos”.

Cabanos em fuga

Neste trecho de A Notice Historique sur La Guyane Française (ainda não traduzido para o português), Compans Ternaux dá ligeira informação sobre a fuga de cabanos para fora do Brasil e os efeitos da sua presença em território estrangeiro:

Em 1836, o governo, querendo recuperar os antigos limites que os portugueses contestavam há um longo tempo, fez estabelecer um pequeno forte em uma ilhota do lago Mapa; e numerosos fugitivos da província brasileira do Pará não demoraram a vir se estabelecer aí, sob a sua proteção. Depois de um relatório publicado pelo barão Walkenaër, em julho de 1837, tudo o que se disse a respeito da insalubridade do posto não terá sido senão pretexto para justificar seu abandono, em seguida às reclamações do Brasil. Ao fim de nove meses, uns 100 franceses que ali se achavam, nenhum morrera, e poucos haviam dado entrada no hospital.

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