Dois pontos de vista

Em 13 de maio de 1936 Belém comemorou o centenário do fim da cabanagem, marcada pela reocupação da capital paraense pelas tropas imperiais, sob o comando do brigadeiro Francisco Andréa. Na verdade, a cabanagem chegou ao fim apenas na cidade. Mas prosseguiria pelo interior da Amazônia por mais quatro anos, terminando em Maués, no Amazonas, onde ainda havia um exército de 800 rebeldes com as armas nas mãos. Eles só se desarmaram com a anistia concedida pelo jovem imperador, Pedro II.

Do Amazonas veio certo contracanto ao hino conservador em torno da data pela voz de um jovem historiador. Com apenas 30 anos, Arthur Cezar Ferreira Reis já publicara seu primeiro livro, História do Amazonas, ainda sem acesso à mina de documentos que se escondia no Arquivo Público do Pará. Dessa jazida se servira o desembargador Jorge Hurley para produzir os Traços Cabanos, publicação oficial das comemorações. Reis fez a resenha do livro na revista amazonense Cabocla.

Reproduzo parte do texto, invertendo a sequencia original para que o episódio propriamente amazonense venha depois da apreciação geral feita pelo futuro governador do vizinho Estado, sujeito a muitos questionamentos, mas inegavelmente um dos principais historiadores da região.

Jorge Hurley lançou-se ao esmerilhamento da Cabanagem, nas suas origens, nos seus episódios, nas suas consequências. No Arquivo de Belém fez colheita magnífica, selecionada. Escreveu, então, uma trilogia interessantíssima, de que nos manda o primeiro tomo sob o título Traços cabanos. São quinze capítulos estampando episódios da Cabanagem, a começar no desembarque de Andréa, o caso da escuna Clio, as façanhas de Jacó Patacho, o “Lampeão glebário”, assuntos que ficam definitivamente esclarecidos.
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Traços Cabanos não é absolutamente uma obra que apresente os vinte anos de intranquilidade que vivemos sob o Primeiro Império e as Regências, com unidade, exposição circunstanciada, ou visão sintética. Estamos diante de um livro de episódios, documentados, que era preciso vir à luz como o foram. Como, de certo, o de Jacó Patacho, “Lampeão glebário”, imortalizado nas páginas de O Missionário, de Inglês de Souza.

A história da Cabanagem, serena, das origens ao seu epílogo, tem de ser feita ouvindo-se a palavra dos que a movimentaram e encontramos espalhada no noticiário dos jornais da época, em Belém e na Corte, na panfletária que circulou em massa e foi uma característica muito curiosa do Primeiro Império e das Regências, apreciando-se essa documentação preciosa que agora nos vai sendo confiada.

Ainda há pouco tempo, a 13 de maio, não se fez em Belém e no Rio de Janeiro, a comemoração festiva do centenário do fim da Cabanagem! E não sabemos tão bem que a tomada de Belém não encerrou o ciclo sangrento, como muito acertadamente assinalou, apoiado no que já afirmei documentadamente, Basílio de Magalhães, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro?!

Traços Cabanos é uma contribuição feliz, para o conhecimento de nossa formação político-social. Jorge Hurley nos deu ali um farto cabedal de minúcias importantes.
Mando-lhe, com estas linhas, as minhas felicitações.
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Há, todavia, em Traços Cabanos referências aos meus mirrados, paupérrimos ensaios regionais. No capítulo “Os cabanos no Amazonas”, a referência vale quase como uma contestação. É que, na História do Amazonas, afirmei a morte violenta de Bararoá, no Autaz, a 6 de agosto. Hurley, com o ofício nº 31, de 23 de outubro de 1838, de Andréa ao Secretário dos Negócios da Guerra, encerra as dúvidas a respeito do incidente, que tantos prejuízos imediatos trouxe à ordem geral na Comarca do Amazonas.

Bararoá, pela descrição do futuro barão de Caçapava, foi morto pelos cabanos já no (rio) Madeira. É, assim, um tópico sobre o qual não se pode mais dizer em contrário. Só esse tópico. Porque, em torno da figura de Ambrósio Aires, há ainda outras lacunas desafiando pesquisas. Geralmente apontado como degredado político nordestino, envolvido no movimento democrático, constitucionalista, de 1824, aqui estaria cumprindo penalidade.

Ora, na relação dos que se viram às voltas com a justiça impiedosa, sangrenta das comissões militares de Dom Pedro I, não consta o nome do nosso herói. Sabemos apenas de Alexandrino Magno Taveira Pau Brasil, José Ferreira de Azevedo, frei Alexandre da Purificação, três patriotas daquela jornada cívica que aqui vieram padecer a culpa de suas atitudes políticas. Só esses três nomes aparecem. A não ser que Bararoá, revolucionário, ao fracasso do movimento, como o boticário Vicente Alves da Silva, aqui tivesse vindo parar como fugitivo.

O fato é que já o encontramos, em 1832, contra as nossas aspirações autonomistas, inteiramente ao lado do Governo do Pará, o que não ocorreria com frei Alexandre, que se bateu por nossos anseios libertários. Encontramo-lo, mais, nesse instante, como autoridade legal, no rio Negro. Criminoso político no exercício de funções militares, naqueles momentos de tantas paixões? Teria sido dos anistiados em 1831?!
Uma figura singular, surpreendente, esse Ambrósio Aires, rixento, bravo, terror dos cabanos.

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