O império entregou a Amazônia

Este texto, publicado em 1999, foi a primeira referência aos “documentos ingleses”, a mais importante fonte de informações sobre a Cabanagem desde as que o historiador Domingos Raiol divulgou, mais de um século antes, no seu clássico livro Os Motins Políticos. A visão da grande revolta social de 1835 a partir da perspectiva da maior potência mundial da época, se tornou fundamental para a compreensão mais ampla da Cabanagem.

O Plano Colômbia precipitou e ampliou, no início desta década, um tema que vinha sendo tratado nos bastidores e, agora, se torna cada vez mais intenso publicamente: a possibilidade de uma invasão estrangeira da Amazônia, principalmente pelos Estados Unidos, que está aplicando 1,3 bilhão de dólares e participando diretamente do combate ao narcotráfico na Colômbia. Pessoas, organizações e publicações dos lados extremos do espectro político, à esquerda e à direita, entre civis e militares, vêm manifestando temor pela manutenção da soberania nacional sobre o território amazônico .Temem uma escalada americana na região.

A matriz dessa inquietação está em teorias geopolíticas, que registram, desde o século 16, uma permanente cobiça internacional sobre essa que é a maior fronteira de recursos naturais do planeta, quase do tamanho do território dos EUA, se considerada toda a Amazônia latino-americana (da qual o Brasil representa mais do que dois terços).

No século 19, porém, a Inglaterra, a nação mais poderosa de então, com uma das mais eficientes marinhas de todos os tempos, teve a possibilidade real de se apossar da Amazônia. Bastaria se aproveitar de um pedido feito sigilosamente, em dezembro de 1835, pelo representante do governo imperial brasileiro, o regente Diogo Antônio Feijó. Ele autorizou que tropas britânicas (e também portuguesas e francesas) invadissem o Pará, atendendo a seu próprio chamado, e dessem combate aos rebeldes.

Se seu plano fosse aceito, estrangeiros poderiam matar cidadãos brasileiros em pleno território brasileiro, com conhecimento e aprovação do governo nacional. Onze meses antes, os nativos haviam desencadeado um motim, que ficou conhecido como Cabanagem, o mais sangrento de toda a história brasileira (no curso do qual, em cinco anos, de 15% a 20% da população regional morreu, o equivalente, hoje, a dois milhões de mortos).

O encontro secreto entre Feijó e os embaixadores inglês e francês só foi revelado 160 anos depois, quando o antropólogo David Cleary, autor de uma elogiada pesquisa sobre os garimpos de ouro da Amazônia, encontrou, no arquivo do Publics Records Office, em Londres, correspondência travada, de 1835 a 1839, entre a embaixada, o ministério das relações exteriores e o almirantado britânico. Cleary publicou um artigo a respeito nos Estados Unidos, não traduzido para o português.

A documentação, ainda inédita, aguarda, há mais de dois anos, a publicação prometida pela direção do Arquivo Público do Pará, para o qual o pesquisador enviou o material, em microfilme. O historiador Geraldo Mártires Coelho, diretor do Arquivo, diz que a tradução dos documentos já foi concluída e apenas alguns detalhes técnicos por arrematar impedem a publicação, mas que ela será feita ainda neste semestre.

Essa talvez seja a maior revelação recente da história brasileira, mudando ou anulando muita coisa do que se pensava, particularmente sobre o primeiro império brasileiro e a mais sangrenta insurreição popular do período, que antecedeu de quatro décadas a Comuna de Paris, de 1871.

Era o dia 17 de dezembro de 1835. Os embaixadores da Inglaterra e da França, Fox e Pontois, chegaram à sede do governo brasileiro, no Rio de Janeiro, para uma audiência “secreta e confidencial” convocada por Diogo Antônio Feijó, que governava o Brasil como regente, em nome de d. Pedro II, ainda sem idade para assumir a administração do império depois da renúncia de seu pai, d. Pedro I.

Feijó comunicou aos dois embaixadores que esperava reunir no Pará, até abril do ano seguinte, uma força de aproximadamente três mil homens para retomar o controle da capital e das áreas próximas a Belém, em poder de rebeldes. Eles haviam desencadeado um sangrento motim em janeiro daquele ano, destituindo as autoridades legais, assumindo o poder e iniciando uma perseguição a cidadãos portugueses, sobretudo os comerciantes, ainda os donos do poder local. Feijó repetiu-lhes o que já havia pedido, em outro encontro secreto anterior, ao embaixador de Portugal, de cujo jugo colonial o Brasil se havia livrado apenas 13 anos antes: que mandassem de 300 a 400 soldados de seus países para participar do ataque aos amotinados cabanos, como os paraenses eram conhecidos.

Essas tropas estrangeiras seriam embarcadas em navios de guerra dos três países e chegariam a Belém “como que por acaso”, recebendo autorização para permanecer em território nacional. Seriam mantidas de prontidão “para cooperar com as tropas brasileiras, a pedido e a critério das autoridades brasileiras em comando”. Essa “cooperação” se faria “pelos interesses gerais da humanidade e da civilização, e também pelo objetivo específico de proteger nossos respectivos conterrâneos e restituir a eles a posse de suas residências e bens”. Mas o regente do império fazia uma ressalva: teria que ser omitido “o fato de as medidas terem sido tomadas a pedido do governo brasileiro”.

Os dois embaixadores se comprometeram a transmitir imediatamente o pedido aos seus respectivos governos. Na carta que enviou ao ministro das relações exteriores da Inglaterra, Lorde Palmerston (que em seguida viria a ser primeiro-ministro), Henry Stephen Fox informou, porém, ter desde logo alertado o governante brasileiro que não acreditava no sucesso da iniciativa, “a não ser que o comunicado nos fosse feito por escrito”. Só assim seria possível avaliar o alcance da “cooperação” requerida, assim como “justificar tal cooperação no caso de ela ser concretizada, e posteriormente merecer objeções por qualquer parte do Brasil”.

Segundo o embaixador, o regente respondeu-lhe “que como a Constituição do Império proíbe terminantemente a admissão de tropas estrangeiras no território do Brasil sem o consentimento da Assembleia Geral (que não poderá mais ser obtida a tempo), lhe é impossível formular sua proposta por escrito, e que, ademais, seria motivo de descrédito para o governo se fosse divulgado oficialmente o fato de que, sem ajuda externa, ele não é capaz de derrotar um punhado de insurgentes miseráveis”. Assim, Feijó não podia ir além de uma solicitação verbal em caráter secreto, “deixando a cargo de nossos governantes basear nisso as instruções que lhe pareçam convenientes aos comandantes de suas respectivas forças navais”.

Ao transmitir o conteúdo da conversa reservada, o embaixador inglês, mesmo não podendo “deixar de transmitir o comunicado” ao seu superior, não via “a menor possibilidade de o governo de Sua Majestade ou o governo francês anuírem com os desejos do regente, ou consentirem em ordenar uma operação militar, com base em um pedido formulado de maneira tão imprecisa e informal”.

Como o próprio Feijó admitira, acrescentou o diplomata na correspondência, sua proposta “viola diretamente as leis e a Constituição do país; e, é claro, seria desmentida de imediato, e a culpa pela intervenção não autorizada seria atribuída às potências estrangeiras, se isso fosse visto como conveniente”.

Fox observa ainda: “não penso que exista a menor probabilidade de que o governo brasileiro consiga, nem agora nem em qualquer momento, reunir uma força regular tão grande quanto aquela que o regente afirmou contar”.

Finaliza a correspondência com uma última advertência: “O emprego, no Pará, de uma força inglesa e francesa, em conjunto com uma portuguesa, tornaria o procedimento ainda mais questionável, levando em conta o ciúme que ainda existe neste país com relação à influência e aos desígnios de Portugal”.

Respondendo à consulta, em 9 de maio de 1836, Lorde Palmerston informou o encarregado dos negócios na embaixada no Rio de Janeiro, W. G. Ouseley, que o governo inglês havia dado “a mais atenciosa consideração à sugestão feita” por Feijó, mas não se sentia “à vontade” para cumprir esses desejos.

Em primeiro lugar, porque seria “uma divergência dos princípios gerais que regem a conduta do governo britânico, em relação aos países estrangeiros, interferir tão diretamente nos assuntos internos do Brasil”. Palmerston considerava “inadequado para a dignidade deste país fazer uma demonstração, sem estar preparado, se fracassada fosse, para acompanhá-la pela força: e o Governo de Sua Majestade não acreditava justificável se envolver em operações em terra pelo interior da Província do Pará, com o objetivo de apoiar a autoridade do Governo do Rio de Janeiro contra a população do distrito”.

Mas ainda que não houvesse “objeções insuperáveis a esse tipo de procedimento”, o chanceler inglês lembrava que a constituição brasileira “expressamente proíbe a penetração de tropas estrangeiras em território brasileiro sem o consentimento do Poder Legislativo”.

Mesmo descartando o pedido, o governo britânico se sentia “altamente gratificado pela confiança por parte do Regente, da qual a sugestão dele produz uma prova inequívoca, e que o Governo de Sua Majestade sinceramente espera que as medidas inteligentes e enérgicas adotadas pelo Regente, para a pacificação do Pará, cheguem a um bom êxito para restaurar a paz e a ordem naquela importante Província”.

Em abril de 1836, a tropa imperial brasileira e uma esquadra britânica realmente se encontraram no Pará, mas não da maneira pretendida por Feijó. Três navios de guerra foram deslocados de Barbados para Belém, pelo Comando Supremo das Índias Ocidentais, com a missão de exigir a prisão dos assassinos da tripulação de um navio mercante inglês, que fora pilhado cinco meses antes no litoral paraense.

O capitão Charles Strong encontrou uma província em pânico pelos violentos combates travados entre as tropas imperiais e os rebeldes, que continuavam de posse da capital. Mas ele foi recebido em Belém “de forma muito melhor do que esperava”. O presidente mandado pelo Rio de Janeiro, almirante Manuel Jorge Rodrigues, confinado numa ilha próxima, havia alertado Strong que “se eu atracasse, seria assassinado”. Mas o presidente cabano, o jovem Eduardo Angelim, terceiro no posto desde o início da revolta, disse-lhe que só não fora cumprimentá-lo a bordo do próprio navio inglês porque “o povo não permitiria que ele o fizesse”.

Após esse contato, Strong manifestou ao almirantado sua admiração de que “os brasileiros não viessem tomar a cidade, o que certamente os botes da minha esquadra teriam feito, se necessário, em meia hora, mas o nome de Eduardo (um mero rapaz) parecia fazer um terrível efeito, e não vimos além de cento e cinqüenta homens armados e estes em estado deplorável”. Em outra correspondência, garantiu que “podíamos facilmente ter desembarcado 220 homens, incluindo fuzileiros com pequenas armas”, e tomado Belém dos rebeldes. Mas preferiu manter-se como observador.

Na busca da indenização para os prejuízos materiais e na reparação dos crimes cometidos contra o brigue Clio, o oficial inglês enfrentou mais resistência na autoridade legal. Angelim, que louvou “a suavidade dos modos” de Strong, reforçando a “amizade que a nação inglesa consagra ao Pará”, eximiu-se de responsabilidade, “pois o Pará não existe desmembrado do império”. Deixava claro que não havia nenhum propósito separatista no movimento sob sua liderança, ao contrário do que caracterizava a Farroupilha, rebelião que eclodiu simultaneamente no outro extremo do país, no Rio Grande do Sul (então província de São Pedro), ameaçando a unidade territorial do nascente império.

A Cabanagem foi reprimida a ferro e fogo a partir do momento em que os rebeldes abandonaram Belém. O historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, uma das fontes mais respeitadas sobre a região, calcula que 20% dos 150 mil habitantes da Amazônia naquela época foram mortos, pelos rebeldes ou – e principalmente – pelas tropas imperiais, no período de “pacificação”.

A documentação inédita revela que a Inglaterra em nenhum momento tentou se apossar da Amazônia, transformando-a em possessão colonial britânica, como havia feito na Ásia e na África. Os navios da esquadra foram deslocados de Barbados para investigar se naquele lugar estratégico poderia estar se repetindo um motim semelhante ao de Santo Domingo, escravos e índios se unindo para se libertar do grande inimigo comum, “pondo fim ao mundo criado pelos brancos”.

Para a Inglaterra, naquelas paragens o representante desse mundo era o governo brasileiro, que confirmara todos os compromissos herdados da administração portuguesa. “Se a revolução [cabana] não for agora sufocada, a extensa e fértil província do Pará poderá ser considerada como perdida para o mundo civilizado”, assinalou o embaixador Fox para Lorde Palmerston. Mas isso não aconteceria: os índios e negros amazônicos “eram muito menos avançados em relação à civilização do que os negros de São Domingos foram, quando eles por primeiro se tornaram livres”. A pérfida Albion não tinha o que temer.

A nova documentação sepulta especulações com a aparência de verdades históricas feitas até agora. Como a de Carlos Rocque, autor de Cabanagem – Epopeia de um Povo, um dos mais recentes livros de uma bibliografia perturbadoramente reduzida sobre o tema. Segundo Rocque, Eduardo Angelim, “quando Presidente, recebeu tentadora proposta de um capitão inglês, para proclamar a independência do Pará, no que teria o apoio de potências estrangeiras. E o caudilho negou-se até a discutir a sugestão”.

Nenhuma documentação acompanha a afirmativa, mas ela é repetida em quase todos os livros acatados como referência. Pasquale di Paolo diz, em Cabanagem – A Revolução Popular da Amazônia, que o capitão inglês propôs ao presidente cabano a “declaração de independência da Amazônia”. Gustavo Moraes Rego Reis registrou, em A Cabanagem, que os ingleses “sugeriram e ofereceram proteção à província, caso fosse proclamada a separação política do Império”. Quando o próprio Angelim morreu, em 1882, o jornal Diário do Grão Pará registrou que o maior dos líderes cabanos havia recusado “recursos militares do governo Americano para proclamar a independência da Amazônia”.

O mito prevaleceu durante tantos anos porque os historiadores não se lançaram adequadamente na busca da verdade e porque foi interessante cultivar uma versão heróica, observa Cleary na entrevista que me concedeu e publiquei em O Estado de S. Paulo, aqui reproduzindo-a para conhecimento dos que não tiveram acesso ao jornal paulista, esperando poder reavivar, mais uma vez, um debate sempre transferido para as calendas gregas.

Doutor em antropologia por Oxford e professor visitante do Departamento de História da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, até assumir uma diretoria da ONG ambientalista TNC (The Nature Conservancy) em Brasília, no ano passado, Cleary já publicou um livro em português: A Garimpagem de Ouro no Brasil: Uma Abordagem Antropológica (Editora da UFRJ, 1990).
Sua entrevista:

Como e quando você se interessou pela Cabanagem?

Desde comecei a trabalhar na Amazônia e ouvi falar do episódio pela primeira vez, em 1984.

Como e quando chegou aos documentos do Foreign Office?

No verão de 1993, li Motins Políticos, de Domingos Antônio Raiol, publicado há mais de um século, mas ainda o melhor livro sobre o assunto. Raiol menciona diversas vezes a presença de comerciantes e navios britânicos, e intervenções militares britânicas. Eu sabia de pesquisas anteriores, sobre outros assuntos, que os arquivos ingleses são bem organizados, e não seria difícil achar o material consular, nem o material naval. Munido com datas e nomes de navios britânicos tirados de Raiol, fui para o PRO [Public Records Office] e de fato, com a ajuda de um arquivista, achei o material consular em aproximadamente duas horas. Daí, tirei mais informações, e consegui localizar vários pacotes de material relevante do Almirantado, também sem muitas dificuldades.

Acha que pode haver ainda, na Inglaterra e em outros países europeus, documentos inéditos sobre a Cabanagem? O que seria preciso fazer para localizá-los?

Sem duvida. Acho que na Inglaterra achei o maior parte dos documentos; o material consular e militar é completo e bastante compreensível. A única lacuna é o material sobre um pedido de indenização feita pelos comerciantes britânicos de Belém, que é mencionado na correspondência, mas não achei o material. Talvez exista num arquivo brasileiro; adivinharia no arquivo do Itamarati. Há sem dúvida material consular e naval na França, que também manteve consulado em Belém na época, acompanhou de perto os eventos, de lá e de Caiena, também mandou navios de guerra, e teve um interesse direto territorial muito mais significante do que o britânico.

Jeanine Potelet, professor da Universidade de Paris-X Nanterre, já vasculhou os arquivos da marinha francesa, da mesma maneira que eu fiz em Londres para a Marinha Real, e publicou resumo fascinante no Boletim do Museu Goeldi, em 1990, incluindo até desenhos da cidade na época, feita por oficiais franceses. E deve existir mais material consular e naval em Lisboa, que de todas as fontes deve ser a mais fascinante, já que os portugueses foram os mais afetados pela eclosão da violência.
Existe material consular no Arquivo Nacional, em Washington, que já vasculhei, mas bem pouco, já que o cônsul americano da época não escreveu muito, e um dos cadernos mais relevantes é ilegível – parece que molhou. Só precisa mandar um pesquisador competente, com capacidade linguistica.

Este material é, sem dúvida, fácil de localizar. Sou antropólogo, não historiador, e mesmo assim achei o material em questão de horas. Isso num arquivo bem organizado e catalogado, é claro, mas arquivos consulares e militares geralmente o são. Já existe um trabalho relevante na França, o que significa que estes materiais franceses também são fáceis de localizar.

Quanto a Portugal, não sei, e eu mesmo ia até fazer uma busca em Lisboa, mas acabei saindo do mundo acadêmico, pelo menos por enquanto, e não deu tempo. Mas comparado com muitos episódios desta época da história brasileira, a Cabanagem é relativamente bem documentada, e somente uma pequena fração da documentação relevante já foi levantada.

O que você considera mais importante na documentação que encontrou em Londres?

Ela esclarece definitivamente a natureza da participação da Inglaterra na Cabanagem, e dos países estrangeiros, de modo geral, que tem sido um ponto polêmico, porém pouco documentado, na historiografia. E de longe o fato mais importante é a correspondência secreta, que mostra como o governo imperial tentou armar uma intervenção militar estrangeira no próprio território brasileiro, um fato extraordinário e inédito.

Quais as causas, diretas e indiretas, da Cabanagem, no seu entendimento?

Direta, uma briga política entre facções da elite regional, e a decisão de uma facção de armar o povão. Indiretamente, um contexto de tensão racial e exclusão econômica, e de ódio contra os portugueses, que sobreviveu, embora em formas mais brandas, durante décadas depois da Cabanagem. Essa é uma das coisas mais interessantes e menos escritas na história da Amazônia.

Você acha que a Inglaterra, se quisesse, podia ter se aproveitado da proposta apresentada pelo regente Feijó para se estabelecer na Amazônia e transformá-la em mais uma das suas colônias? Por que isso não ocorreu?

Militarmente, sem dúvida. Tinha capacidade e o fato de que não o fez demonstra muitas coisas interessantes sobre a natureza do imperialismo britânico na época. Não o fez porque, em primeiro lugar, não precisou. Já dominava o comércio exterior do Brasil. Seus comerciantes trabalhavam no Brasil sem muito impedimento, consequência do lugar privilegiado que a Inglaterra conquistou no Brasil a partir da época da transladação da família real portuguesa, em 1808.

Era mais eficiente do que construir um império à portuguesa quinhentista. Ou seja: controle de pontos estratégicos no litoral e domínio das rotas marítimas. O imperialismo britânico funcionava assim até a segunda metade do século 19, quando os vitorianos estragaram tudo com suas idéias tolas de missões civilizadoras. Quando os seus comerciantes foram ameaçados, reagiram, como no caso da Cabanagem.

Mas acredito que o arquivo britânico demonstra, com a maior clareza possível, a primazia dos interesses comerciais sobre os políticos. Quem quiser imaginar complôs ou segredos para desmembrar o país, como ainda se vê até hoje em alguns círculos militares e nacionalistas, que se ache nos arquivos do próprio governo brasileiro da época, porque existem!

Os cabanos estabeleceram um governo popular em Belém quatro décadas antes da Comuna de Paris. Você concorda em que essa precedência faz da Cabanagem um movimento precursor, uma antecipação ao seu tempo? Que avaliação você faz dos governos cabanos?

Não sei responder muito bem a esta pergunta, porque uma resposta adequada deve ser baseada em documentos, e não os examinei ainda, embora devam existir alguns no Arquivo Público, em Belém. Acho difícil comparar a Cabanagem e a Comuna. A Comuna teve a participação de muitos ideólogos alfabetizados, o que não foi o caso da Cabanagem. As raízes da Cabanagem estão na história social e econômica da Amazônia nas décadas desde a época pombalina – eu olharia mais para trás para explicá-la, não para o futuro. E não sei até que ponto que eu chamaria os governos cabanos de verdadeiramente populares. As lideranças – os Vinagre, Angelim – jamais foram populares, por exemplo. Às vezes, acho que a tradição esquerdista da historiografia brasileira procura exemplos de governos populares quando a realidade era bem mais complicado.

Como você situaria a Cabanagem no contexto da sua época?

A maior e, de longe, a mais interessante das rebeliões provincianas que sacudiram o país ate a década de 1840. Uma janela direta para a especificidade do norte do Brasil, comparado com o resto do país; a complexidade racial, com a presença indígena, a maior influência da presença portuguesa, e a vingança contra eles, proporcionalmente mais violenta. O fato de que nunca foi uma rebelião separatista, no sentido de querer se separar do Brasil. A profundidade do ódio pessoal entre duas facções de elite, ambas escravocratas, ambas privilegiadas economicamente, e ambas demonstrando uma absoluta falta de astúcia ou de vontade de negociar, provocando uma conflagração que era (e é!) sem precedentes, em termos de escala, na história do Brasil. Uma tragédia shakespeariana.

Por que é tão pobre a bibliografia sobre a Cabanagem? De quais leituras você obteve informações importantes para sua compreensão?

Não sei, e sempre me estranhei sobre isso. Tem o Raiuol, que continua a fonte fundamental, e o livro de Vicente Salles, Memorial da Cabanagem, que, embora não concorde com tudo o que diz, é um livro de primeira qualidade. Tem a obra de [Jorge] Hurley, na década de 1930, que resgatou uma série de documentos importantes. O resto da bibliografia é, me desculpe, extremamente provinciana, marcada por preconceito ideológico e uma falta de interesse em localizar ou analisar os documentos do episódio, primeiro dever do historiador. Nem todo mundo pode pesquisar na Europa, mas há muitos documentos ainda no Arquivo Público do Pará, que os pesquisadores e estudantes locais deviam estar trabalhando, e não estão – ou, se estão, não estão publicando.

A Cabanagem, mal conhecida e muito falada, tornou-se um mito para os habitantes da Amazônia?

Sim, porque houve o descaso de não levantar os documentos e fazer um historia bem feito, com a exceção de Raiol e Salles. Mitos florescem na ausência de pesquisa.

Os centros mais importantes do Brasil praticamente desconhecem a Cabanagem. A situação continua a mesma, hoje, apesar de tudo o que se fala sobre a Amazônia?

Sim, infelizmente. A história da Amazônia continua sendo um campo de pesquisa que não atrai o número de pesquisadores que a sua importância merece. E o resultado da ignorância da sua história está aí: políticas públicas mal concebidas, muitas vezes repetindo os erros pombalinos do passado, e investimentos desastrados pelas entidades multilaterais e estrangeiras, que conhecem a região bem menos do que seus comerciantes da época da independência. Uma das coisas deprimentes é que às vezes a documentação mostra que os comerciantes, diplomatas e militares da década de 1830 eram mais sagazes do que seus colegas de hoje.

Vai ser preciso um brazilianist ou um amazonólogo estrangeiro se interessar pelo tema e publicá-lo fora do Brasil para que os nacionais descubram a Cabanagem?

Não. Não há falta de pesquisadores brasileiros e amazônicos competentes. Espero que não.

Você pretende continuar a se dedicar ao assunto ou ele é algo lateral no seu esforço de pesquisa?

Nem tanto como eu quero. Trabalho numa entidade ambientalista que tem outras prioridades. Mas tudo o que faço é de certa forma vinculado com meu conhecimento da história da Amazônia, e neste sentido nunca deixarei a trabalhar com a Cabanagem. Espero um dia achar o tempo de escrever mais uns artigos, ou talvez um livro, reunindo as fontes estrangeiras e as comparando com material brasileiro, enfocando o papel dos estrangeiros no episódio e o ele que demonstra sobre a natureza do imperialismo na América Latina e a Caribe da época. Mas não sei se – e quando – terei tempo de fazer isso. O melhor para mim seria orientar um historiador brasileiro, de preferência paraense, sobre o tema. Assim, eu sentiria que levando estes documentos para o Pará estava, de certa forma, ajudando a fortalecer a historiografia local, em todos os sentidos.

Que projeto você está desenvolvendo atualmente relacionado à Amazônia?

Trabalho na TNC do Brasil, sigla de The Nature Conservancy, uma entidade ambientalista. Basicamente, procuro fortalecer a capacidade institucional dentro da Amazônia para lidar com vários aspectos de questões ambientais na região. Quando os meus dois nenens me permitem, escrevo um livro sobre a história ambiental da Amazônia, que espero publicar dentro de cinco anos. A editora está sendo paciente.

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