O começo da revolta (4)

O recesso de lutas pela chegada do novo governador, mandado do Rio de Janeiro com a missão de pacificar o Pará, duraria pouco. Embora os líderes locais procurassem conter a insatisfação geral, esse sentimento já se alastrara pela massa da população, que via insatisfeita a permanência das mesmas pessoas que exploravam o controle do poder e a exploração do povo.

Quando o presidente Manuel Jorge Rodrigues mandou prender Francisco Vinagre e mais 300 cabanos, a insatisfação explodiu. Angelim conseguiu fugir para o interior, onde organizou a “guerra de morte ao marechal Jorge Rodrigues”. A violência das palavras de ordem dos líderes e a insatisfação dos combatentes demonstravam que, desta vez, a rebelião iria até o fim.

As tropas legais, alertadas, já esperavam os cabanos. Travaram com eles lutas sangrentas. Belém se transformou numa praça de guerra: os combates eram constantes nas suas ruas, navios bombardeando a cidade, muita gente fugindo às pressas, abandonando tudo para salvar a vida. Muitos cabanos morreram, mas outros eram arregimentados imediatamente. Uma corneta de chifre não parava de tocar chamando os voluntários.

Os combates duraram 11 dias e o preço de cada rua conquistada era muito sangue. O marechal Jorge Rodrigues conseguiu escapar, mas sua manobra de fuga foi muito rápida, levando-o a abandonar soldados cercados pelos cabanos. Só a energia dos líderes conseguiu evitar um massacre. Angelim, o mais destacado dentre eles, é aclamado chefe. Completara 21 anos de idade.

A nova luta

Começava a fase mais crítica do movimento. Só um chefe com a autoridade de Angelim conseguiria manter algum equilíbrio entre os revoltosos. Belém foi cercada pelos navios da marinha, que se revezavam no cerco. Angelim garantiu, num comunicado da época, que o panorama seria outro se não houvesse o cerco, “pois as famílias, os empregados públicos e os negociantes ter-se-iam recolhido às suas casas como tem acontecido nas revoluções passadas”. Talvez manifestasse o desejo do grupo de liderança, porém não o do grosso da tropa. Principalmente para os negros, aquele seria o bom momento de levar às últimas consequências as rebeliões violentamente reprimidas até então.

O cerco ameaçador dos navios provocou reação na mesma medida entre a população. Os comerciantes localizados pelos grupos mais exaltados eram sumariamente assassinados nas ruas. Em todos os documentos que divulgou nesse período, Angelim parecia muito preocupado em impor sua perspectiva política e evitar a predominância da revolta do povo oprimido. Aos poucos, porém, o rigoroso controle que sustentavam foi desaparecendo.

Interferência estrangeira

Surgiram ainda para os cabanos complicações externas. Em 1835 ainda um navio inglês que transportava grande quantidade de material bélico para uma representante brasileira foi atacado e saqueado em Salinas. Sua tripulação foi assassinada, à exceção de um marinheiro, que conseguiu fugir.

O capitão C. B. Strong exigiu que Angelim mandasse hastear a bandeira inglesa no lugar da brasileira, saudando-a com 21 tiros de canhão, entregasse os assaltantes à justiça inglesa e pagasse a indenização devida à companhia, “porque a Inglaterra não permite que seus navios sejam molestados”.

Angelim respondeu que não hastearia o pavilhão inglês nem ordenaria a salva de 21 tiros porque o Brasil era um país independente. Só indenizaria os prejuízos se o governo central não o fizesse. E os saqueadores e assassinos seriam julgados pela justiça brasileira.
O capitão Strong não recuou nas suas exigências e foi falar com Angelim em missão de

paz. É aí que teria oferecido ao terceiro presidente cabano (segundo o depoimento do historiador Domingos Antonio Raiol, que disse ter ouvido a história do próprio Angelim) dinheiro e auxílio militar para a sua luta contra o governo imperial e para separar a Amazônia do Brasil, transformando-a num vice-reinado inglês. Angelim recusou, ofendido, ordenando aos ingleses que se retirassem imediatamente da barra de Belém porque se não mandaria bombardear a esquadra.

O novo enviado do governo do Rio de Janeiro, o brigadeiro Soares Andréa, apertou ainda mais o cerco a Belém. Sem poder resistir à fome e conter a violência que crescia, Angelim fugiu para o interior com seus homens. Andréa só entrou na cidade alguns dias depois, já seguro de que não haveria mais resistência na cidade. Começou então a caçar os cabanos.
Angelim conseguiu escapar à primeira expedição de captura, apesar de ferido. Uma

segunda expedição foi organizada: oito navios e tropa de 1.130 homens foram usados para ir atrás dos fugitivos, até que, cercado, Angelim se rendeu. Outros grupos ainda conseguiram escapar, subindo o rio Amazonas até Manaus, resistindo ainda durante muitos meses mais até 1840, quando, cercados em Maués, souberam da anistia decretada pelo governo.

Incompreensões e omissões

Há controvérsias sobre as mortes durante a Cabanagem? 20 mil, 30 mil ou até 40 mil para alguns, poucos milhares para outros, o balanço é tráfico por qualquer versão. O amazonense Araújo Lima isenta os cabanos de responsabilidade pela maioria das mortes: “Eles não foram mais cruéis que os legalistas”. Dilke Barbosa Rodrigues segue na mesma direção: “As maiores ondas de violência dos cabanos sempre foram depois de alguma chacina praticada pelas tropas legais”.

João da Costa Palmeira aponta um contraste entre os modos de proceder: “A primeira providência do general Andréa ao entrar em Belém foi pedir mais dinheiro ao governo, enquanto os cabanos economizaram”. Andréa fez também o que nenhum cabano fizera, mesmo na fase mais sangrenta: mandou prender dois juízes de direito.

Angelim passaria 10 anos preso na ilha de Fernando de Noronha. Voltaria pobre e sem outra disposição além de sonhar com a proclamação da república no Brasil. A Cabanagem, abrindo as portas para a penetração de um sistema econômico mais adiantado, arrebatando os grilhões da dominação portuguesa monopolista e criando condições para o surgimento de uma abertura que, ainda nesse mesmo século, os ingleses se utilizariam para serem os novos donos da economia mais avançada da região, fundada na exploração da borracha, foi, na verdade, a declaração de independência da Amazônia, com 13 anos de atraso em relação à autonomia nacional.

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