O começo da revolta (3)

Publico a terceira parte do meu artigo em O Liberal de fevereiro de 1974.
O final sairá na próxima edição.

A Cabanagem reduziu de quase um terço a população do Estado do Pará, provocando a morte de aproximadamente 30 mil pessoas, segundo os raros depoimentos da época e alguns dos seus intérpretes. Deixou vilas praticamente sem habitantes, levou ao abandono várias atividades econômicas, criou ódio e conflitos entre colonizadores e nativos que, até hoje, não se apagaram inteiramente.

O período de agitação

Quase todos os historiadores dividem a Cabanagem em dois períodos, como se nada os ligasse: a fase da adesão à independência, entre 1821 e 1824, com um vácuo intermediário sem expressão, e da irrupção do movimento, em 1825, ao ano seguinte, da “pacificação” do Pará por força militar. No entanto, a história parece ter preparado lentamente os elementos que levariam à violenta revolta.

É possível dizer que ela foi fermentada no jornal de Patroni, O Paraense, e nos panfletos que circularam em Belém, apesar da vigilância das autoridades, pregando a derrubada do governo, dominado pelos portugueses. Fechado O Paraense e preso Patroni, o cônego Batista Campos, que continuou a publicar o jornal, se revelou um político mais combatente e inflamado. Ele sabia que a luta contra a dominação portuguesa tinha que ser levada à massa da população – e não se restringir a um ajuste de contas da elite. Por isso, além do trabalho panfletário, promovia a agitação política entre os descendentes de índios e de negros. E acabou formando um partido, radicalmente contrário à dominação lusitana.

Arrochados pelo imperialismo comercial de Lisboa e muito ligados às ideias europeias de liberdade, os intelectuais paraenses (em seu sentido mais amplo) entenderam que sua única opção seria unir suas reivindicações econômicas à fermentação latente da insurreição de escravos e índios. No início do século XIX, um terço da população de Belém era constituída de escravos negros e outro terço de caboclos, ambos subjugados por uma exploração cruel, que lhes impedia de desenvolver atividades produtivas de subsistência.

Os lavradores, sendo obrigados a pagar impostos e dízimos excessivamente pesados, entregavam seus filhos ao alistamento militar, que impedia a continuidade da lavoura, e vendiam seus produtos a preços insignificantes nas cidades. A saída para os escravos era a fuga para o interior, formando centenas de mocambos, em geral destruídos pelas expedições armadas.

Esse atrito social ganhou expressão política quando a massa da população identificou seus objetivos com o jogo da facção dos pequenos fazendeiros nativos, residentes em sua maioria no Acará, engrossando suas fileiras. Os negros libertos e os escravos já procuravam outras formas de reação que não a fuga para a mata e o grupo revoltoso da cidade tentava se aproximar deles para atacar com mais eficiência o domínio do comércio português. O período entre 1824 e 1831 é marcado por violentas repressões armadas da tropa oficial, ainda colonizadora, contra as tentativas de insurreição popular.

O próprio governo da regência contribuiu decisivamente para que a onda de violência levasse a uma explosão quando enviou ao Pará, em 1831, uma expedição com a finalidade de acabar “de qualquer maneira” com a agitação política na província. Ocorreram verdadeiras chacinas, o que contribuiu indiretamente para apressar a reorganização do movimento, que viria a ser interrompida pela morte de Batista Campos, uma semana antes de irromper a Cabanagem. Em torno de Félix Clemente Malcher, num engenho próximo a Belém, começa uma nova fase: a da ação armada.

Os testes sangrentos

Aos 19 anos, o guarda-livros Eduardo Nogueira só pensava em desenvolver seu talento e chegar a um “futuro grandioso”. Economizava para comprar terras e passagens para uma viagem ao redor do mundo. Mas, ao lado dessas ideias descomprometidas, sua neta, Dilke Barbosa Rodrigues, sua única biógrafa, garante que ele já desenvolvera alguns ideais políticos. Teria sido incentivado inicialmente por um professor particular muito dedicado e, depois, por leituras isoladas, quando os conhecimentos do professor se esgotaram.

As obras de Aristóteles e Chateaubriand, segundo Dilke, influenciaram as ideias políticas essenciais de Angelim: a necessidade da república e a abolição da escravatura. No jovem cearense que a seca expulsara para o Pará com toda a família, começava a se processar a síntese das aspirações dos homens do seu tempo.

Se até 1831 sua vida parecia destinada a sonhos sobre igualdade e prosperidade econômica, os acontecimentos sangrentos daquele ano o levaram por outros rumos. Numa tarde de abril, um grupo de jovens foi até a loja onde Eduardo Angelim trabalhava para convocá-lo a ser o chefe de um movimento já organizado que pretendia depor o presidente da província. Angelim aceitou porque um dos participantes era o seu irmão, Geraldo. Era também uma boa oportunidade de por em prática os seus planos: “liberdade dos escravos, mudança no regime da corte, independência do domínio estrangeiro”.

A partir daí, ao Nogueira foi acrescido o título de Angelim, madeira rija da Amazônia. Ele foi às suas terras e começou a arregimentar gente para o movimento, caboclos e negros que recebiam como uniforme uma farda vermelha, tingida com a casca de uma fruta, o muruci, e botas bem altas para evitar as mordidas de cobra. Lavor Papagaio, outro cearense, Francisco e Antonio Vinagre, Félix Malcher, Eduardo e Geraldo Nogueira comandaram a rebelião, sufocada sem dificuldades. Lavor desapareceu, Malcher foi preso, mas Angelim conseguiu fugir.

A conspiração recomeçou em Belém e na ilha das Onças, quartel-general da Cabanagem, até sua irrupção vitoriosa em 1835. Foi fácil para os líderes rebeldes recompor suas fileiras: o número de negros e caboclos dispostos a participar de um movimento armado contra os dominadores portugueses era muito grande. Rapidamente foi se fechando o cerco da capital, que, indiferente à gravidade dos problemas sociais que criava com sua exploração, vivia interessada apenas nos acontecimentos mundanos.

Ataque: no dia de reis

No dia de reis de 1835, a população de Belém saiu às ruas com ânimo festivo para ver uma peça no Teatro Providência. Enquanto o presidente da província, Bernardo Lobo de Souza, dava brilho à encenação com sua presença, os cabanos começaram a ocupar os pontos estratégicos da cidade. Grande quantidade de homens armados se dividiu em quatro grupos: um se dirigiu ao palácio do governo e dominou facilmente seis soldados ébrios e adormecidos; dois outros assaltaram o quartel e também conseguiram a rápida adesão da tropa; o quarto invadiu o edifício da loja maçônica.

Guilherme Inglis, que matara vários cabanos no começo do movimento, foi a primeira vítima do assalto. O presidente Lobo de Souza foi morto num terreno baldio, quando tentava ir da casa da amante para o palácio. Quase sem tiroteio, a cidade foi tomada rapidamente.
O fazendeiro Félix Clemente Malcher foi aclamado primeiro presidente cabano e Vinagre seu comandante das armas. Angelim não aceitou os postos que lhe foram oferecidos. Ou porque não foi abolida a escravidão, como ele queria, ou pelos encantamento dos olhos azuis de Luzia Clara, com quem acabara de casar e com quem sonhava viajar para a Europa.

Logo Malcher, muito moderado, e Vinagre, extremamente radical, se desentenderam. Angelim surgiu como elemento mediador e catalisador. Por isso, ele rompeu com Malcher e foi preso num navio de guerra. Quando Malcher foi deposto e morto por Vinagre, Angelim fugiu num escaler e retomou sua posição. Termina aí a primeira fase das lutas da Cabanagem: um governador legal é nomeado para governar o Pará.

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