O começo da revolta (2)

De Lisboa, Patroni manteve seus contatos e foi ativando o movimento, que conseguiu depor a junta e proclamar, a 1º de janeiro de 1821, a adesão do Pará à revolução constitucionalista do Porto. O fato de a província ter sido a primeira no Brasil a aderir ao constitucionalismo português demonstrava que os comerciantes aceitaram as reivindicações dos nacionais, mas as restringiam ao aspecto constitucional do regime.

O cônego Batista Campos, porém, o líder mais radical de todo o conturbado período, achava que a luta não se esgotava nesse ponto: ela teria que se estender à proclamação da independência e ao estabelecimento da república. Por isso continuou a articular a sublevação, a ponto de a nova junta pedir ao bispo providências para acabar com as reuniões na casa dele, “o qual com geral escândalo perturba a boa ordem e sossego público, e intenta avassalar as sociais virtudes ao domínio da moral corrompida”.

Com a revogação da ordem de prisão dada pelo governo, Felipe Patroni retorna a Belém em janeiro de 1822. Retoma a tipografia que mandara de Lisboa e que o governo confiscara. Com a adesão de todos os grupos oposicionistas, lança, no primeiro dia de março, o primeiro número de O Paraense. O ambiente era de grande opressão, promovida pelo brigadeiro José Maria de Moura, removido de Pernambuco para o Pará justamente para reprimir a propagação das novas ideias liberais.

As críticas feitas pelo jornal provocaram a ira do brigadeiro. Moura procurou intimidar o sócio de Patroni, o tenente-coronel Simões da Cunha. Patroni reage com críticas violentas. Seu jornal “não pode ser amordaçado pela prepotência, uma vez que tem um programa a defender e uma finalidade a realizar”. Intimidado, Simões retira os tipos e o único tipógrafo do jornal. Ainda assim, O Paraense continua a circular. O brigadeiro decidiu então organizar a invasão armada do jornal. Alertado, Patroni imediatamente transferiu a oficina para outro local.

A 25 de maio Patroni foi preso e passou a responder a processo por “propagar ideias de alçar sobre as ruínas da Constituição adotada e jurada por todos os portugueses o pendão da revolta e da independência do Brasil”. Foi também acusado de pretender fazer a revolução com o auxílio dos escravos, “para cujo fim os seus precursores haviam espalhado uma circular”.

Enquanto Patroni era enviado preso para Portugal, Batista Campos começou a editar O Paraense. Passou a publicar matérias ostensivamente favoráveis à independência, como a proclamação de d. Pedro I e os artigos dos jornais fluminenses a favor da emancipação. Batista Campos foi preso seguidas vezes, mas sempre que era libertado havia grande agitação popular e as críticas aos portugueses se tornavam mais abertas. Irritado, o brigadeiro mandou agredir o cônego, que sofreu vários ferimentos na cabeça e no rosto. Ainda assim, o jornal continuou a circular.

A reação lusitana

A agitação cresceu, mas a junta de governo não a reprimiu. A atitude irritou tanto o comandante das armas que ele ameaçou responsabilizar a junta ao rei pela falta de providências. Exigiu nova prisão de Batista Campos e do bacharel Joaquim Cerqueira e Silva. Pediu ainda a repressão armada contra os colaboradores dos “projetos de uma revolução, que agite e dilacere a Província”, e uma devassa que “faça responsáveis os juízes ordinários e mais autoridades das vilas e lugares da Província, pela tolerância de escravos armados”.

Segue-se um período de sucessivas denúncias e prisão de suspeitos (advogados, militares e funcionários públicos), que o comandante das armas acrescenta aos “negros e pardos” suspeitos de conspirações.

Batista Campos, preso mais uma vez, diz ao brigadeiro Moura – que o interroga pessoalmente – que seu partido “era maior do que se pensava, pois os meus patrícios não são como os pernambucanos: eles falam, mas também obram”. Batista Campos foi solto e voltou a publicar os artigos que lhe chegavam do Rio de Janeiro.

Temendo a situação e já sem confiar na sua própria tropa, o brigadeiro Moura pediu diretamente à corte, em Lisboa, a remessa de pólvora, sal, pedra e duas corvetas ou bergantins de guerra. A junta, prevendo a disposição do comandante das armas, manifestou a intenção de criar um Corpo de Polícia próprio e começou a boicotar o militar.

O brigadeiro ficou alarmado com a expansão das forças brasileiras e decidiu criar seu próprio esquema militar. Tentou reunir mil homens, enviou oficiais a Lisboa para trazer “um corpo de tropa bastante para baldar as agressões internas e externas”. Pediu também ajuda financeira ao Maranhão e ao Piauí para que sustentassem as tropas que deslocaria para essas duas províncias, ambas sob sua jurisdição, a fim de combater os independentes.

A fuga de Batista Campos para o interior, perseguido pelos soldados de José Maria de Moura, e o fechamento de O Paraense não diminuíram a agitação. Os conspiradores fizeram a maioria da câmara de vereadores da cidade, mas o coronel João Pereira Vilaça, comandante do 1º Regimento de Linha, deu um golpe armado e dissolveu todas as juntas “para salvar a Província dos horrores de uma guerra civil”. Preocupa-o apenas que “os favoráveis à independência não assumam o poder político”.

A nova junta que impôs foi composta apenas por proprietários rurais, burocratas, militares e o bispo. Em seguida, deportou todos os integrantes da junta antiga, eleitos pelo povo, exceto Batista Campos, que conseguiu escapar. Tentou expandir seu exército, mas apenas os comerciantes portugueses compareceram ao alistamento militar que organizou. O número foi insuficiente para as suas pretensões. Dos 12.471 habitantes de Belém nesse ano, 5.643 eram brancos e 5.719 escravos negros.

No dia 14 de abril, um grupo de militares deu um golpe para depor o comandante das armas, mas a falta de experiência e a fragilidade do movimento impediram sua progressão. Imediatamente os chefes da rebelião foram presos. Mas a insatisfação já era grande mesmo nos escalões superiores do exército, o que levou o brigadeiro Moura a reforçar a vigilância. A 28 de maio uma nova insurreição se forma em Muaná, onde, pela primeira vez, é proclamada a adesão do Pará à independência e constituído um governo inteiramente nacional. Mas ele durou pouco: foi violentamente dissolvido pelas autoridades portuguesas. Oitenta brasileiros morreram na prisão.

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