A “revolta”e a revolta dos cabanos

Márcio Souza lançou em Belém, em 2005, com patrocínio oficial do governo do Pará, o terceiro livro da tetralogia Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. O título, Revolta (Editora Record, 301 páginas), ficaria mais coerente se fosse algo como “O garanhão do Grão-Pará”.

Do início ao fim, o personagem principal, Maurício Vilaça traça quase todas as mulheres do romance. Desde uma ninfeta de 13 anos, mas já prostituta experimentada, até pudica senhora integrante de uma associação de novas amazonas, precursora liga feminina que atuou no período dos “motins políticos” no Pará (1821-1835), o eixo da sagra do escritor amazonense.

O romance termina como alguns daqueles filmes sangrentos, no qual o enredo se exaure no matadouro geral. Quase não havia mais mulher para o apetite voraz (e sempre eficiente) do jovem comerciante.

Marcelo foi educado em Baltimore, nos Estados Unidos, é refinado, mas o maior movimento de massa da história brasileira, a Cabanagem, é detalhe, para ele e seu diário (sobre o qual a trama ficcional – mal – se sustenta).

Nessa autêntica guerra “dos que não têm contra o que têm”, sucumbiram algo como 20% de todos os habitantes da província, que eram uns 150 mil. Se tivesse ocorrido atualmente, nas mesmas proporções, a Cabanagem teria produzido dois milhões de mortos em cinco anos. Há o que se lhe equipare ao longo dos cinco séculos de Brasil dominantemente europeu? Ou, em episódios do mesmo tipo, em qualquer outra parte do mundo?

O morticínio é produto de violência, arbítrio, desumanidade, barbárie. É quase natural que um branco, que tem a temer por muitos bens seus (embora recebidos de herança, um tanto suspeita, deixada por um tio), considere a revolta como a liberação dos piores instintos do homem. A revolução francesa também foi isso para os que dela participaram na condição de vítimas, por deliberada culpa ou por acaso.

Mas Bertolt Brecht já alertava para o perigo de só se olhar para a violência do rio, sem ter em conta as margens que o comprimem. A violência dos que se liberam guarda sempre alguma proporção com a violência dos que os mantinham cativos até então. A violência é a parteira da história, proclamava Karl Marx. Não se faz omelete sem quebrar os ovos, acrescentará algum líder de esquina.

A revolta de Belém em 1835 antecedeu de quase quatro décadas a revolução da Comuna de Paris, em 1871, analisada com olho clínico pelo mesmo Marx, que ali sepultou seus últimos sonhos de insurreição política de massa. No fim da vida ele estudou russo para entender melhor a possibilidade de a revolução, etapa superior do capitalismo e seu dobre de finados, ocorrer numa terra de economia primitiva, na qual intelectuais de vanguarda comandariam, num autêntico putsch, uma massa humana sem outra perspectiva além do pão e da liberdade, a segunda conquista sendo sacrificada, logo em seguida, no altar profano da primeira; só sem liberdade era possível viver sem susto; era?

Como a comuna?

O que diferencia a Cabanagem, anterior, mais atrasada, da Comuna, posterior, mais evoluída? Ora: que Belém, mesmo saindo mais cedo, não era nem uma pálida imagem de Paris, antes ou depois das barricadas de rua, que acabariam provocando uma contra-revolução urbana, promovida com sagacidade pelos vencedores, que abriram as grandes avenidas para sua dominação. Embora em ambas as situações o motor da explosão tenha sido a insatisfação do povo, comprimido até o ponto da irrupção selvagem, na Comuna havia ideias e substrato ideológico por trás das barricadas, não só pólvora e sangue.

Em Belém, uma vez executados os representantes do poder estabelecido (que ainda era português, apesar de formalmente nacionalizado), não havia um líder esclarecido nem um programa a cumprir pelo governo popular. Apesar da idealização que Dilke Barbosa Rodrigues promoveu em torno do avô, Eduardo Angelim, repetida sem discernimento pelos sucessores (nem por acaso, o livro que ela escreveu nunca passou da primeira edição), não há provas de que os líderes da Cabanagem eram os intelectuais da revolução, uma vanguarda como os bolcheviques na Rússia dos czares.

Pode-se dizer que a Cabanagem começou a perder atualidade uma semana antes da revolta começar, em meio a uma festa pagã malmente sincrética, em 7 de janeiro de 1835, quando o cônego Batista Campos se feriu, ao fazer uma prosaica barba. O ferimento gangrenou e ele morreu, nas matas de Barcarena (sua sandália havaiana seria trazida, 150 anos depois, para a tumba que ocupa no Memorial da Cabanagem, no eternamente inconcluso Entroncamento).

Com o fim do cônego (e a loucura de Felipe Patroni, o maior intelectual do período), se foi a ponte para o futuro do movimento, que daria conteúdo ao que tem sido apenas uma frase: a Cabanagem foi o primeiro movimento de sedição e rebelião que levou o povo ao poder institucional no Brasil.

O povo sentou no trono e não soube o que fazer. A violência respondeu no lugar da voz de comando, que deixou de existir. Foi um ajuste de contas – de cor e de posse. Uma purga do passado, com juros, correção monetária e um spread como se já estivéssemos pagando o preço do modelo unha-e-carne Lula-Palocci.

Os autores solidários e identificados com a causa do povo, como se fossem Marat tropicais, em nível mais imediato e superficial, tentaram – e ainda tentam – edulcorar os presidentes do povo: Malcher, Vinagre e Angelim. À falta de provas mais sólidas sobre o que eles pensavam, queriam e fizeram de distinto, fica-se com a frase de Handelmann como a melhor definição para a Cabanagem: um acerto de contas dos que nada tinham contra os que tinham, sem uma diretriz política, filosófica, ideológica, cultural. Na faca.

O historiador alemão Handelmann sequer colocou seus pés no Brasil. Seu belo livro foi escrito, na segunda metade do século XIX, à distância do país que tanto o interessou. Já Márcio Souza é amazonense (ainda um amazônida?), conhece bem a sua terra e era uma promessa de contestação à visão passadista predominante na historiografia elitista. Seu mais recente livro, entretanto, apenas renova a decepção dos anteriores (Lealdade e Desordem, na quase tetralogia; praticamente todos, depois de Mad Maria).

Pornografia cabana

A novidade que ele proporcionou, com seu rabelaiseano boto tucuxi, parece ter-se diluído numa literatura primariamente pornográfica. Adelaide Carraro assinaria sem melindre várias das páginas de Revolta, cujo acento comercial é marcante. Henry Miller, não.

Quanto à Cabanagem, que devia ser o móvel da empreitada literária, acaba não passando de seu décor. Márcio tem dela uma visão preconceituosa, distorcida, simplória e raivosa, como se fosse um comerciante português em atividade em 1835 e não um intelectual do século XXI, obrigado a mostrar tudo e não apenas um aspecto, projetado como falsa totalidade. Obrigado a ser complexo e não maniqueísta, dual.

A Cabanagem não é a Comuna nem a Revolução Francesa, mas não é só chacina executada ao lado da cama na qual Vilaça atira suas também insaciáveis presas, como se o clima estivesse sempre a transubstanciar suor em sêmen. Onde não há realmente informação histórica, faltou inventividade ao autor, que se contenta com clichês, palavreado pomposo e desleixo.

Márcio se refere a um “engenho de Ananindeua”, onde o anti-herói Maurício encontra sua amada Joaninha, quase um século antes de Ananindeua começar a existir como distrito, formalizado em 1920, e município, em 1943. Em 1835 Ananindeua era, simplesmente, Belém. Só em 1916, com o interessante Curtume Maguari, de Saunders & Davis, começou a ter perfil próprio. O Cacoalinho também não era bairro em Belém.

Além de impropriedades factuais como essas, há erros de construção da história, que resultam da desatenção do autor (o que, no cinema, muito caro a Márcio, se diria falha de continuidade). Em certo trecho, a madrinha de Maurício, para se livrar de situação incômoda, “simula uma enxaqueca, recolheu-se ao quarto e despachou o casal amigo”. O correto seria Simone despachar o casal amigo e se recolher. Ou se recolher e deixar que o casal amigo decidisse ir embora, ao perceber que ela não retornaria à sala da casa, onde se encontravam.

Pequenos e grandes erros

São errinhos, é claro, que seriam perdoáveis se o fundamental no livro os compensasse. Mas ambos, em coerência de má qualidade, mostram que Márcio Souza apenas se desincumbiu da tarefa, sem maior aplicação, ou já não é mais capaz de escrever algo novo à altura de Galvez Imperador do Acre, a rigor, o único dos seus romances que resistirá à sanha do tempo. Tempo, aliás, é que não lhe faltou para revisar sua obra, antes de manda-la para impressão: encerrou o romance em julho de 2003, no bairro carioca do Leme, no Rio de Janeiro, e só o publicou mais de um ano depois. Se não foi bom autor, devia ser, como já deu demonstrações de ter sido, bom leitor.

Conta a lenda que um coronel, muito famoso em Belém, era tão Caxias que prendeu a si numa cela, ao constatar-se em erro, e jogou lá fora as chaves. Sem querer, Márcio Sousa repetiu o gesto: obrigou-se a escrever uma tetralogia épica sobre um país chamado Pará com material que mal dava para um livro, em nada melhor do que os produzidos em forma pré-moldada, com ânimo de medalhão.

Em um único volume, compacto e denso, o saudoso Haroldo Maranhão já havia nos dado, com Cabelos no coração (necessitando de urgente 2ª edição), o que Márcio prometeu e está a tentar realizar, sem sucesso. Tomara que releia o romance do vizinho paraense antes de fechar essa tetralogia até agora frustrada e frustrante. O fecho romanesco é anunciado com o título de Derrota, sobre o fim da Cabanagem, já no Amazonas. Se pudesse ter um componente autobiográfico, talvez fosse melhor tentar Fausto. Com um Mefistófeles tapuia pelo meio.
(Artigo de 2005)

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5 comentários sobre “A “revolta”e a revolta dos cabanos

  1. Jeycy 1 de julho de 2016 / 09:58

    1) Em primeiro lugar, há alguns erros nessa crítica, em relação ao enredo da obra: o nome do protagonista é Maurício, não Marcelo; a herança não foi recebida de um tio, mas de Fernando, padrinho de Maurício.
    2) Essa obra de Márcio Souza é novo romance histórico. Nesse caso, não há nenhum dever do autor em retratar a história, tal qual ocorreu. Ele não é historiador, mas romancista. Ele pode alterar e acrescentar qualquer elemento no romance, basta manter a coerência interna. Eis a criação do Cacoalinho.
    3) “simula uma enxaqueca, recolheu-se ao quarto e despachou o casal amigo”. Simone era parte da elite e rodeada de empregados, entende-se esse “despachar” de várias formas, inclusive supondo que ela mandou um empregado realizar o ato. O Autor não tem a função de construir uma obra com leitura gratuita. O bom leitor é aquele que entende os implícitos e as entrelinhas.
    4) “Revolta” é um romance, cujo narrador não é Márcio Souza (ele é apenas o criador), mas Maurício. É a visão e as ideologias desse narrador que estão difundidas na narrativa. Sob essa esteira, é extremamente coerente que a revolução esteja em segundo plano, pois a construção de um diário não pressupõe um leitor outro, portanto Maurício escreve para si mesmo, assim não há a necessidade de tentar fingir uma preocupação com o Grão-Pará, ele é um jovem branco, rico e egocêntrico, logo interessa-se em contar, com destaque, as suas aventuras sexuais, ele não se preocupa com as lutas, preocupa-se consigo mesmo.
    5) A criticidade da obra está justamente em não dar ênfase na luta, pois mostra a posicionamento de parte da elite, que olha somente por seus interesses. Além do mais, o tratamento banal dado à violência, pelo narrador, revela que as arbitrariedades, a opressão e até a morte eram corriqueiras no momento histórico representado na narrativa, já não causavam choque, estavam diluídas no cotidiano das personagens.

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    • Lúcio Flávio Pinto 6 de julho de 2016 / 12:09

      Respeito sua avaliação, mas mantenho a minha. O autor pode criar e recriar à vontade a história, mas não pode alterar a geografia e não deve ser infiel aos fatos quando os cita. Mas este é o problema menor. O maior, no meu entendimento, é a perda de qualidade literária nas mais recentes criações de Márcio Souza.

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  2. Gabriel 19 de setembro de 2016 / 16:45

    Uma frase que define a Revolta da cabanagem

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