O monumento do barão: os Motins Políticos

Antônio Olinto tinha uma coluna sobre livros em O Globo, que se chamava À Porta da Livraria. Stanislaw Ponte Preta, que não o tinha em boa conta, certo dia lhe deu um conselho: por que o distinto colunista não entrava de uma vez na droga da livraria, comprava o diabo do livro e tratava de lê-lo? A graça tinha sua razão de ser: Olinto resenhava livros pelas suas “orelhas” e pelo material de divulgação distribuído pelas editoras. Raramente avançava sobre o conteúdo da publicação.

Uma das primeiras livrarias em que entrei para comprar meu próprio livro, com o dinheiro dado pelo meu pai, foi o “sebo” do Dudu, a Livraria Econômica, de Eduardo Failache, na travessa Campos Sales, em frente à Biblioteca e Arquivo Público (hoje só arquivo) do Pará, em Belém. A partir dos 12 anos, comprei seguidas edições de almanaques, principalmente o Bertrand e o do Porto – lusitanos, estamos a ver.

Eu lia todas as seções de curiosidades da imprensa, incluídas as do Rio e São Paulo, e daquela cultura que hoje consideramos inútil, mas que pode atiçar a curiosidade para buscas conhecimento mais profundo. Havia uma página dominical na Folha do Norte, escrita pelo jornalista Alberto Queiroz, que só não era meu sonho editorial porque, modéstia à parte, me considerava mais bem armado para escrever uma, com meu vasto paiol de munição de curiosidades. Tinha vários dicionários e enciclopédias dessa especialidade, graças ao caixa aberto pelo pai para as necessárias aquisições.

Os almanaques portugueses tinham um fascínio à parte. Havia neles jogos para armar e desenvolver, e um estoque de informações a reunir, reagrupar e enriquecer. Anos depois de começar a comprar o Bertrand e o Porto, descobri que eles possuíam um cliente muito mais ilustre: várias das histórias de João Guimarães Rosa tinham sua origem nos “causos” dos almanaques, burilados e expandidos pela sintaxe do escritor mineiro.

No “sebo” do Dudu criei e aperfeiçoei as técnicas de lidar com a revenda de livros usados e raros, aprendizado que se aproxima do meio século de prática. Tornou-se um conhecimento bem íntimo, sobretudo quando a queda na capacidade de compra e, no sentido inverso, a elevação quase proibitiva nos preços dos livros novos, me obrigaram a quase só girar pelo mercado secundário.

Ainda mais porque desisti de ser um crítico de livros, exatamente por partilhar a opinião de Sérgio Porto, de que só se deve escrever sobre o livro que, de fato, foi lido. Para me estabelecer na praça, eu teria que ler muita coisa que não tinha interesse direto para mim. Não sobraria tempo para usar a leitura como catapulta para a escrita. Ficaria pelo meio do caminho, se ao meio conseguisse chegar.

Todo esse “nariz de cera” eu o escrevi em 2009 para apresentar uma nova seção que criei (mas não durou muito) no meu Jornal Pessoal. Através dela, pretendia partilhar com meus leitores as (a)venturas dos livros velhos, aquelas relíquias, pepitas ou preciosidades, que se consegue localizar depois de se cascavilhar durante anos por “sebos” espalhados pelo país e o mundo.

Comete erro primário quem entra nessas livrarias atrás de um livro determinado e por tempo certo. O “sebo” é a confluência da cultura, seu depósito, seu almoxarifado e, por vezes, sua lata de lixo. Parte considerável da história está neles armazenada. Reencontrá-la e dividi-la com o leitor, é o meu propósito.

Um grande livro

Na primeira coluna tratei de um dos mais importantes livros escritos por um paraense. Livro que honra não só a cultura do Pará, mas do Brasil. E não ficaria em má posição junto a clássicos da historiografia mundial. É um clássico, que merece o grande título que tem: Motins Políticos – ou história dos principais acontecimentos políticos do Pará desde o ano de 1821 até 1835, de Domingos Antônio Raiol, o barão de Guajará, por obra e graça de D. Pedro II.

Originalmente, a obra saiu em cinco volumes, ao longo de quase um quarto de século, entre 1856 e 1890, com nada menos do que 2.243 páginas. É a maior e mais fecunda fonte de informações sobre a Cabanagem até hoje. Começou a ser publicada quando o final do movimento, com a anistia geral dos cabanos que ainda sobreviviam, não alcançara 20 anos.

Raiol tinha motivos para execrar os cabanos, que em 1835 executaram seu pai, vereador na Vigia, quando o filho estava com apenas cinco anos de idade. Ele se lançou sobre o tema logo que pode, mas seu acerto de contas não foi pessoal, com os assassinos do pai: foi um acerto com a história. Quase todas as informações primárias que circulam pelas análises secundárias feitas desde então se baseiam nos milhares de documentos que ele consultou para compor essa polifonia historiográfica.

Ao longo do tempo, consegui formar duas coleções completas dos cinco volumes originais e também reuni volumes isolados O 1º volume (o único reeditado ainda no século XIX), com 320 páginas, foi publicado no Rio de Janeiro, na tipografia Hamburguesa do Lobão, na rua do Hospício. O 2º volume foi editado em São Luiz do Maranhão, em 1868, com 413 páginas. O 3º (com 498 páginas, em 1883) e o 4º volume (500 páginas, 1884) voltaram a ser impressos no Rio. Já último volume saiu em Belém, pela Imprensa Tavares Cardoso, em 1890, com 542 páginas, culminando esse monumento da história brasileira em plena “era da borracha”.

Chermont e Raiol

O futuro governador Justo Chermont foi uma das pessoas que comprou a obra completa no momento mesmo em que ela foi sendo lançada. Consegui quatro dos cinco volumes que foram dele (faltou-me apenas o 1º volume). Na folha de rosto do 2º volume dos Motins Políticos, Justo Chermont anotou: Recife, 1º de julho de 1878. A edição é de dez anos antes, 1868, impressa em São Luiz do Maranhão. Na página seguinte, onde começa o texto, JC fez outra anotação. Assinalou o período de governo do Visconde de Goiana na província do Grão Pará: 19 de julho de 1831 a 7 de agosto de 1831. Destacou com um traço lateral alguns trechos das primeiras 35 páginas do livro.

Acrescentou um comentário ao trecho que destacou na página 35, quando o barão do Guajará diz: “Havia dois princípios em luta, duas opiniões que alimentavam os partidos em todo o império, era o passado que tratava de fazer ainda vingar os seus erros, e não queria ceder à idéia que acabava de triunfar; era o presente que tratava de conquistar terreno e fazia tudo para extinguir até às bases o domínio da metrópole; era a idéia que o tempo tinha amadurecido e queria inteiramente emancipar-se para também reinar por sua vez!”.

Comentário de Justo Chermont: “Distinção mais razoável, não verdadeira. Ainda hoje existe, 1879”.

Na página seguinte fez uma observação mais longa: “Ainda hoje no Pará existe uma mesma política de corrupção, que se ocupa em último lugar daquilo que justamente é o principal objeto da ciência – o engrandecimento da pátria. Política torpe, em que à ideia substitui o homem, ao bem geral o interesse privado, à riqueza publica a fortuna particular. Luta mesquinha: pugilato de homens, nunca o combate da ideia. Questão de homens, não luta incruenta de princípios. Paralisia social – é o resultado final”. Ainda hoje, sem dúvida.
Justo Chermont colou, na página 80 do 5º volume, recorte de jornal com um soneto de Odorico Mendes, “feito em nome do marechal Jorge Rodrigues, que ao mesmo tempo perdia um filho em combate era demitido de comandante das armas do Pará”.

Sob o título Parnaso, a publicação diz que essa poesia do escritor maranhense integra uma “coleção de sonetos escolhidos dentre os melhores publicados em língua portuguesa”. É a seguinte:

“Sempre a teu mando pronto obedecendo,
Hei com meu sangue minha fé selado;
Arrostei firme, ouvi desassombrado
Da marcial trovoada o ruído horrendo.

Hoje que a triste campa vou descendo
Queres-me ver, ó pátria, desonrado?
Dás-me este prêmio, quando nobre e ousado,
O último bocejar te voto e rendo?

Ah, bem que estou no inverno tenebroso
A minha espada é cortadora e forte,
O braço duro, o coração brioso

Mas nem se me permite – indigna sorte!
Que após meu filho intrépido e ditoso
Alcance ao menos uma ilustre morte”.

Apenas uma observação de Chermont no 3º volume sobre a morte de Malcher, mas se limitou a escrever o nome do primeiro presidente cabano. Nada no 4º volume. No 5º, muitas marcas ao texto, com uma linha grossa horizontal, mas sem qualquer comentário. Teve o cuidado, porém, de assinalar todas as erratas.

A única reedição completa dos Motins Políticos é de 1970, promovida por José da Silveira Neto, quando reitor da Universidade Federal do Pará, sob a supervisão do amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis. É uma boa edição, mas complicada de ler, por causa da desconexão entre o texto principal e as numerosíssimas notas de pé de página.

É preciso sempre voltar páginas porque as notas avançam muito além do trecho ao qual se referem. A UFPA podia encomendar uma nova e ainda melhor edição para 2015, tendo como referência 1890, quando a obra foi concluída. Passados 125 anos, os Motins continuam a ser o momento mais elevado da historiografia paraense. Merecem a comemoração.

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