A Cabanagem no palco

Um dos erros cada vez mais frequente na abordagem da Cabanagem é abstrair a época em que ela ocorreu, com seu ápice entre 1835 e 1840. O fenômeno fica reduzido à luta de classes, mas como se houvesse um fundamento político e ideológico que lhe daria a expressão de uma verdadeira revolução (40 anos antes da Comuna de Paris).

Por isso seus hagiógrafos a escrevem com o R maiúsculo de Revolução, como, de resto, monumental é a grandiloquência retórica dos que a divinizam, imaginando-se marxistas e sendo apenas mecanicistas de pouco rigor. Com os olhos e a cabeça de hoje enquadra-se um acontecimento de grande complexidade em sua época.

Em alguns talvez seja uma reação à visão do maior historiador da Cabanagem, Domingos Antônio Raiol. Para ele, a revolta popular que eclodiu em 7 de janeiro de 1835 resultou de uma sucessão de motins políticos, título do seu livro clássico, escrito 30 anos depois dos acontecimentos violentos e sangrentos.

Raiol era da Vigia, o núcleo europeu mais antigo do hinterland amazônico, que resistiu aos cabanos. Tinha o título nobiliárquico de barão do Guajará. Seu pai, um português, foi morto pelos cabanos. Possuía todos os motivos para um ajuste de contas. Ainda assim, grande parte da massa de documentos primários usados por todos os intérpretes da Cabanagem continuam a serem extraídos dos seus três volumes (cinco na versão original), que não são reeditados há mais de 40 anos.

Raiol era um aristocrata e monarquista. Mas queria a independência do Brasil e ver a sua terra livre do domínio absolutista dos portugueses. A principal causa dos motins, no seu entendimento, persistiu, apesar da conquista da autonomia nacional: maus administradores eram enviados do Rio de Janeiro, tão ruins, na média, quanto os que vinham de Lisboa.

A elite local era sufocada pelo bloqueio das vias de ascensão ao poder político. Esse era um ponto de união a personagens do outro lado, como Félix Clemente Malcher ou mesmo Eduardo Angelim. Eles achavam que o despotismo esclarecido podia melhorar as coisas para todos sem alterar substancialmente as posições na estrutura social.

A maior consulta a documentos de época já feita por qualquer dos estudiosos da Cabanagem, antes e depois dele, deve ter reforçado essa convicção do barão. A explosão popular o horrorizara. Embora em seu livro se possa identificar as causas da revolta do povo, ele se desinteressou da Cabanagem a partir do processo de “pacificação” comandado pelas tropas imperiais. Foi quando a sangria se tornou maior, sob o comandado do implacável brigadeiro Soares Andréa, que realmente ajustou contas passadas. Talvez não fosse a grande lacuna do livro do barão, que continuou a pesquisar e teria perdido o novo livro no qual trabalhava.

Outros, porém, podem ser escritos – e têm sido – a partir da rica documentação a que teve acesso e reproduziu na íntegra (razão de a leitura desta obra estupenda se tornar desgastante, pelo ir e vir em suas páginas, carentes de uma edição mais racional). Depois dele, muitos desejaram estar à altura do que a Cabanagem significou. Glorificaram-na com adjetivos e a aplicação mecânica de teorias e conceitos, mas esse templo foi erigido com tijolos de papel.

O sociologismo reducionista dessas obras, que aflige também a geografia, bitolada pela geopolítica de claro viés ideológico, que tudo explica com pouca demonstração factual e grande vazio informativo, se exemplifica em livros como os de Júlio Chiavenatto e Pasquale di Paolo. Simpáticos e altissonantes, sensíveis à participação dos humilhados e ofendidos, mas sem a densidade da obra máxima do barão.

O dualismo é automático, a partir da má compreensão da famosa frase do alemão Heinrich Handelmann, para quem a Cabanagem prescinde de maior aprofundamento para ser entendida: é a luta dos que não têm contra os que têm. E os que mais têm são os portugueses e seus descendentes. A identificação foi por classe e – para usar uma expressão já reconhecida como imprópria – de raça.

A peça teatral escrita por Nazareno Tourinho sobre a Cabanagem (editora Paka-Tatu, 66 páginas), recém-lançada, se integra a esse acervo. Não é por outro motivo que o prefácio coube a um dos fomentadores do fetiche historiográfico, o professor doutor Edmilson Rodrigues. Seu texto brada aos céus, é hiperbólico e agressivo. À parte decibéis impressos, tanto barulho não é capaz de gerar compreensão.

Sob a gestão do então prefeito do PT a Cabanagem virou uma aldeia carnavalesca e, com perdão do politicamente correto, parafraseando Stanislaw Ponte Preta, um samba do crioulo doido (ou do louro goiaba). É clichê para todo lado, conceitos abstratos e destituídos de sentido verdadeiramente histórico.

Louve-se o grande esforço de Nazareno Tourinho, talvez o mais antigo dramaturgo do país ainda em atividade, para oferecer ao público um roteiro esquemático e didático da Cabanagem. Certamente quando encenada, sua peça aumentará ou despertará o interesse de maior quantidade de pessoas para esse marco da história da Amazônia e do Brasil. Mas a Cabanagem continua a ser a esfinge a desafiar sua compreensão.

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