A grande história: quase desconhecida no Brasil

Segue-se a entrevista de David Cleary, o autor da descoberta dos documentos sobre a Cabanagem em Londres.

Como e quando você se interessou pela Cabanagem?

Desde que comecei a trabalhar na Amazônia e ouvi falar do episódio pela primeira vez, em 1984.

Como e quando chegou aos documentos do Foreign Office?
No verão de 1993, li Motins políticos, de Domingos Antônio Raiol, publicado há mais de um século, mas ainda o melhor livro sobre o assunto. Raiol menciona diversas vezes a presença de comerciantes e navios britânicos, e intervenções militares britânicas. Eu sabia de pesquisas anteriores, sobre outros assuntos, que os arquivos ingleses são bem organizados e não seria difícil achar o material consular nem o material naval. Munido com datas e nomes de navios britânicos tirados de Rayol, fui para o PRO [Public Records Office] e de fato, com a ajuda de um arquivista, achei o material consular em aproximadamente duas horas. Daí, tirei mais informações e consegui localizar vários pacotes de material relevante do Almirantado, também sem muitas dificuldades.

Acha que pode haver ainda, na Inglaterra e em outros países europeus, documentos inéditos sobre a Cabanagem? O que seria preciso fazer para localizá-los?
Sem dúvida. Acho que na Inglaterra achei a maior parte dos documentos; o material consular e militar é completo e bastante compreensível. A única lacuna é o material sobre um pedido de indenização feito pelos comerciantes britânicos de Belém, que é mencionado na correspondência, mas não achei o material. Talvez exista num arquivo brasileiro; adivinharia no arquivo do Itamaratí. Há sem dúvida material consular e naval na França, que também manteve consulado em Belém na época, acompanhou de perto os eventos, de lá e de Caiena, também mandou navios de guerra e teve um interesse direto territorial muito mais significante do que o britânico.
Jeanine Potelet, professor da Universidade de Paris-X Nanterre, já vasculhou os arquivos da marinha francesa, da mesma maneira que eu fiz em Londres para a Marinha Real, e publicou resumo fascinante no Boletim do Museu Goeldi, em 1990, incluindo até desenhos da cidade na época, feita por oficiais franceses. E deve existir mais material consular e naval em Lisboa, que de todas as fontes deve ser a mais fascinante, já que os portugueses foram os mais afetados pela eclosão da violência.
Existe material consular no Arquivo Nacional, em Washington, que já vasculhei, mas bem pouco, já que o cônsul americano da época não escreveu muito e um dos cadernos mais relevantes é ilegível — parece que molhou. Só precisa mandar um pesquisador competente, com capacidade linguística.
Este material é, sem dúvida, fácil de localizar. Sou antropólogo, não historiador, e mesmo assim achei o material em questão de horas. Isso num arquivo bem organizado e catalogado, é claro, mas arquivos consulares e militares geralmente o são. Já existe um trabalho relevante na França, o que significa que estes materiais franceses também são fáceis de localizar.
Quanto a Portugal, não sei, e eu mesmo ia até fazer uma busca em Lisboa, mas acabei saindo do mundo acadêmico, pelo menos por enquanto, e não deu tempo. Mas comparado com muitos episódios desta época da história brasileira, a Cabanagem é relativamente bem documentada, e somente uma pequena fração da documentação relevante já foi levantada.

O que você considera mais importante na documentação que encontrou em Londres?
Ela esclarece definitivamente a natureza da participação da Inglaterra na Cabanagem, e dos países estrangeiros, de modo geral, que tem sido um ponto polêmico, porém pouco documentado, na historiografia. E de longe o fato mais importante é a correspondência secreta, que mostra como o governo imperial tentou armar uma intervenção militar estrangeira no próprio território brasileiro, um fato extraordinário e inédito.
Quais as causas, diretas e indiretas, da Cabanagem, no seu entendimento?
Direta, uma briga política entre facções da elite regional, e a decisão de uma facção de armar o povão. Indiretamente, um contexto de tensão racial e exclusão econômica, e de ódio contra os portugueses, que sobreviveu, embora em formas mais brandas, durante décadas depois da Cabanagem. Essa é uma das coisas mais interessantes e menos escritas na história da Amazônia.

Você acha que a Inglaterra, se quisesse, podia ter se aproveitado da proposta apresentada pelo regente Feijó para se estabelecer na Amazônia e transformá-la em mais uma das suas colônias? Por que isso não ocorreu?
Militarmente, sem dúvida. Tinha capacidade e o fato de que não o fez demonstra muitas coisas interessantes sobre a natureza do imperialismo britânico na época. Não o fez porque, em primeiro lugar, não precisou. Já dominava o comércio exterior do Brasil. Seus comerciantes trabalhavam no Brasil sem muito impedimento, consequência do lugar privilegiado que a Inglaterra conquistou no Brasil a partir da época da transladação da família real portuguesa, em 1808.
Era mais eficiente do que construir um império à portuguesa quinhentista. Ou seja: controle de pontos estratégicos no litoral e domínio das rotas marítimas. O imperialismo britânico funcionava assim até a segunda metade do século 19, quando os vitorianos estragaram tudo com suas ideias tolas de missões civilizadoras. Quando os seus comerciantes foram ameaçados, reagiram, como no caso da Cabanagem.
Mas acredito que o arquivo britânico demonstra, com a maior clareza possível, a primazia dos interesses comerciais sobre os políticos. Quem quiser imaginar complôs ou segredos para desmembrar o país, como ainda se vê até hoje em alguns círculos militares e nacionalistas, que se ache nos arquivos do próprio governo brasileiro da época, porque existem!

Os cabanos estabeleceram um governo popular em Belém quatro décadas antes da Comuna de Paris. Você concorda em que essa precedência faz da Cabanagem um movimento precursor, uma antecipação ao seu tempo? Que avaliação você faz dos governos cabanos?
Não sei responder muito bem a esta pergunta, porque uma resposta adequada deve ser baseada em documentos, e não os examinei ainda, embora devam existir alguns no Arquivo Público, em Belém. Acho difícil comparar a Cabanagem e a Comuna. A Comuna teve a participação de muitos ideólogos alfabetizados, o que não foi o caso da Cabanagem. As raízes da Cabanagem estão na história social e econômica da Amazônia nas décadas desde a época pombalina — eu olharia mais para trás para explicá-la, não para o futuro. E não sei até que ponto que eu chamaria os governos cabanos de verdadeiramente populares. As lideranças — os Vinagre, Angelim — jamais foram populares, por exemplo. Às vezes, acho que a tradição esquerdista da historiografia brasileira procura exemplos de governos populares quando a realidade era bem mais complicada.

Como você situaria a Cabanagem no contexto da sua época?
A maior e, de longe, a mais interessante das rebeliões provincianas que sacudiram o país ate a década de 1840. Uma janela direta para a especificidade do norte do Brasil, comparado com o resto do país; a complexidade racial, com a presença indígena, a maior influência da presença portuguesa, e a vingança contra eles, proporcionalmente mais violenta. O fato de que nunca foi uma rebelião separatista, no sentido de querer se separar do Brasil. A profundidade do ódio pessoal entre duas facções de elite, ambas escravocratas, ambas privilegiadas economicamente, e ambas demonstrando uma absoluta falta de astúcia ou de vontade de negociar, provocando uma conflagração que era (e é!) sem precedentes, em termos de escala, na história do Brasil. Uma tragédia shakespeariana.

Por que é tão pobre a bibliografia sobre a Cabanagem? De quais leituras você obteve informações importantes para sua compreensão?
Não sei, e sempre me estranhei sobre isso. Tem o Raiol, que continua a fonte fundamental, e o livro de Vicente Salles, Memorial da Cabanagem, que, embora não concorde com tudo o que diz, é um livro de primeira qualidade. Tem a obra de [Jorge] Hurley, na década de 1930, que resgatou uma série de documentos importantes. O resto da bibliografia é, me desculpe, extremamente provinciana, marcada por preconceito ideológico e uma falta de interesse em localizar ou analisar os documentos do episódio, primeiro dever do historiador. Nem todo mundo pode pesquisar na Europa, mas há muitos documentos ainda no Arquivo Público do Pará, que os pesquisadores e estudantes locais deviam estar trabalhando, e não estão — ou, se estão, não estão publicando.

A Cabanagem, mal conhecida e muito falada, tornou-se um mito para os habitantes da Amazônia?
Sim, porque houve o descaso de não levantar os documentos e fazer um historia bem feita, com a exceção de Raiol e Salles. Mitos florescem na ausência de pesquisa.
Os centros mais importantes do Brasil praticamente desconhecem a Cabanagem. A situação continua a mesma, hoje, apesar de tudo o que se fala sobre a Amazônia?
Sim, infelizmente. A história da Amazônia continua sendo um campo de pesquisa que não atrai o número de pesquisadores que a sua importância merece. E o resultado da ignorância da sua história está aí: políticas públicas mal concebidas, muitas vezes repetindo os erros pombalinos do passado, e investimentos desastrados pelas entidades multilaterais e estrangeiras, que conhecem a região bem menos do que seus comerciantes da época da independência. Uma das coisas deprimentes é que às vezes a documentação mostra que os comerciantes, diplomatas e militares da década de 1830 eram mais sagazes do que seus colegas de hoje.

Vai ser preciso um brazilianist ou um amazonólogo estrangeiro se interessar pelo tema e publicá-lo fora do Brasil para que os nacionais descubram a Cabanagem?
Não. Não há falta de pesquisadores brasileiros e amazônicos competentes. Espero que não.
Você pretende continuar a se dedicar ao assunto ou ele é algo lateral no seu esforço de pesquisa?
Nem tanto como eu quero. Trabalho numa entidade ambientalista que tem outras prioridades. Mas tudo o que faço é de certa forma vinculado com meu conhecimento da história da Amazônia, e neste sentido nunca deixarei a trabalhar com a Cabanagem. Espero um dia achar o tempo de escrever mais uns artigos, ou talvez um livro, reunindo as fontes estrangeiras e as comparando com material brasileiro, enfocando o papel dos estrangeiros no episódio e o ele que demonstra sobre a natureza do imperialismo na América Latina e a Caribe da época. Mas não sei se — e quando — terei tempo de fazer isso. O melhor para mim seria orientar um historiador brasileiro, de preferência paraense, sobre o tema. Assim, eu sentiria que levando estes documentos para o Pará estava, de certa forma, ajudando a fortalecer a historiografia local, em todos os sentidos.

Que projeto você está desenvolvendo atualmente relacionado à Amazônia?
Trabalho na TNC do Brasil, sigla de The Nature Conservancy, uma entidade ambientalista. Basicamente, procuro fortalecer a capacidade institucional dentro da Amazônia para lidar com vários aspectos de questões ambientais na região. Quando os meus dois nenens me permitem, escrevo um livro sobre a história ambiental da Amazônia, que espero publicar dentro de cinco anos. A editora está sendo paciente.

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