Cabanagem: a revolta social no Pará

Este primeiro texto é de 1978. Foi publicado na edição especial de aniversário de O Liberal daquele ano, em 15 de novembro. Nessa época eu era responsável por tais edições, sempre tratando de um tema relevante da história ou da conjuntura do Pará e da Amazônia. Reproduzirei outros textos da edição, que era dedicada ao processo político do Estado, com ênfase nas eleições, que eram então realizadas nessa data.

O Pará foi a primeira província brasileira a aderir às ideias da revolução constitucionalista do Porto, apenas seis meses depois que o movimento irrompeu em Portugal. Mas foi também a última província a aderir à independência nacional. Apesar disso, a dominação portuguesa permaneceu praticamente inalterada até 1835, quando eclodiu a Cabanagem, a mais sangrenta insurreição do império, o mais importante movimento popular da história do Brasil.

A participação da representação paraense nas cortes, em 1821, era tão flagrantemente a favor de Portugal e contra os interesses brasileiros que Fernandes Thomaz, o homem mais influente da política portuguesa, propôs que o Pará deixasse de ser capitania e se transformasse em província de Portugal, “pois se imensa distância nos separa, o amor fraternal, a igualdade de sentimentos nos unem estreitamente”.

Sugeriu ainda que fossem considerados beneméritos da pátria todos os que “tivessem concorrido para a regeneração do Pará”. A intenção real era promover a recolonização, já que, transformadas em províncias, as capitanias brasileiras poderiam ser regulamentadas pela maioria parlamentar portuguesa.

Mas nem era necessário recorrer aos portugueses natos para alcançar esse objetivo. Os representantes parlamentares paraenses na época da independência, dom Romualdo de Souza e Francisco de Souza Moreira, especialmente o primeiro, foram considerados pelo historiador José Honório Rodrigues como exemplos “da mais completa traição ao Brasil, da fidelidade mais absoluta às Cortes, da submissão total a Portugal”.

A falsa adesão

A adesão à independência, transformada em solenidade pelos próprios portugueses, nada significou para os nacionalistas do Pará. Logo que descobriram a manobra de Grenfell, que mentira anunciando que chegava a Belém antecedendo uma grande armada enviada pelo império, os negociantes chegaram a planejar a morte do militar. Mas logo perceberam não ser necessário: as armas, controladas pelo regimento imperial, eram entregues aos portugueses e bloqueadas aos brasileiros. A repressão no período culminaria em outubro de 1823 com o massacre dos participantes da rebelião do dia 15 nos porões do brigue Palhaço: dos 256 que foram presos, apenas quatro escaparam da morte.

Os paraenses jamais esqueceriam esse morticínio, do qual compactuaria o próprio enviado do governo nacional, John Pascoe Grenfell, militar mercenário. E de 1824 a 1831 seriam organizadas novas e violentas repressões do exército ainda colonizador contra possíveis iniciativas de insurreição popular.

A agitação política

Em 1831 o governo imperial decidiu enviar uma expedição ao interior do Pará a fim de acabar — “de qualquer maneira” — com a agitação política na província. Começaram então verdadeiras chacinas, que contribuíram para a apressada reorganização do movimento desarticulado pela prisão e, em seguida, a morte de Batista Campos. Em torno de Félix Clemente Malcher se juntariam jovens, artífices e burocratas da cidade, índios e negros.

Não por coincidência, o engenho Acará, de propriedade de Malcher, se transformou no centro das articulações: ali mandava a mais opressora das elites locais, a dos senhores de engenho, responsáveis pela importação de grande parte dos escravos chegados ao Pará. Os antagonismos sociais e a tensão política se encontravam ali perfeitamente representados. E dali partiu a luta armada. Em 1834, na luta contra o comerciante Afonso de Jales, o mais radical dos portugueses, os cabanos fizeram o primeiro ensaio do que viria a ser a insurreição.

Do campo à cidade

Reunidos os líderes — Eduardo Angelim e seu irmão, Geraldo “Gavião” Nogueira, Francisco e Antonio Vinagre, Félix Clemente Malcher e Lavor Papagaio — começou a arregimentação da massa. Caboclos, índios e negros são convocados para o exército dos rebeldes. Recebem como vestimenta uma farda vermelha, tingida com a casca de murici, e botas altas para evitar a mordida de cobras. As tropas, porém, são massacradas no engenho Acará, que é totalmente destruído.

Mas a conspiração recomeça em Belém e na ilha das Onças, quartel-general dos cabanos. Foi fácil recrutar combatentes: o número de negros e índios dispostos a participar de um movimento armado contra os dominadores portugueses era muito grande. Rapidamente foi se fechando o cerco sobre Belém. Insensível à explosividade dos problemas sociais à sua volta, a cidade vivia interessada nos acontecimentos mundanos.

No dia de reis de 1835, a população saiu às ruas com ânimo festivo para assistir uma peça no Teatro Providência. Enquanto o presidente da província, Lobo de Souza, dava brilho à encenação com a sua presença, os cabanos começaram a ocupar pontos estratégicos da capital. Grande quantidade de homens armados dividiu-se em quatro grupos: um se dirige ao palácio do governo, onde domina facilmente seis soldados ébrios e adormecidos; dois assaltam o quartel e também conseguem a rápida adesão da tropa; o quarto invade o prédio da Loja Maçônica e o depreda.

Guilherme Inglis, que matara vários cabanos na primeira fase do movimento, é a primeira vítima importante do assalto. O presidente Lobo de Souza, mais conhecido pelo apelido de Malhado, é morto num terreno baldio quando tentava ir da casa da amante ao palácio. A cidade é tomada.

O senhor de engenho e fazendeiro Félix Clemente Malcher é eleito primeiro governador cabano e Francisco Vinagre seu comandante das armas. Angelim recusa os cargos que lhe são oferecidos. Rapidamente Malcher, muito moderado, e Vinagre, representante das alas populares mais extremadas, se desentendem. Angelim tenta permanecer neutro, mas é preso num navio de guerra. Com a deposição e morte de Malcher, pelos próprios cabanos, Angelim é solto e se compõe com Vinagre.

Os líderes cabanos não se opõem a que o marechal Manuel Jorge Rodrigues, enviado pela regência, reassuma o poder legal. Entregam-lhe a capital a 26 de julho. Rodrigues acaba abandonando o projeto de pacificação e manda prender Francisco Vinagre e mais 300 cabanos. Angelim consegue fugir para o interior, já agora para organizar “uma guerra de morte ao marechal Jorge Rodrigues”. A violência das palavras de ordem dos líderes e a insatisfação dos combatentes demonstram que, desta vez, a rebelião irá até o fim.

Fase sangrenta

A 14 de agosto de 1835 os cabanos iniciam novo ataque a Belém, sendo recebidos pelas tropas legais, já alertadas. A cidade se transforma numa praça de guerra: combates permanentes são travados nas ruas, navios bombardeiam a cidade, a população foge às pressas para o interior. Morrem muitos cabanos, mas outros são arregimentados imediatamente por uma corneta de chifre, que não para de tocar, chamando voluntários. Os combates duram 11 dias e cada rua é conquistada com muito sangue. O marechal Jorge Rodrigues consegue escapar, mas um grupo de soldados, que não foi avisado da retirada, fica isolado na igreja do Carmo. Precedidos por escravos, os cabanos atacam com fúria. Só não há uma chacina porque Angelim intervém. Ao completar 21 anos, ele é eleito o terceiro governador cabano, depois de Francisco Vinagre.

Começa a fase mais crítica do movimento: ou porque percebem que os líderes não atenderão suas reivindicações, ou porque se consideram em condições de se vingar dos opressores, negros e caboclos passam a não mais obedecer às determinações dos chefes cabanos. A radicalização é agravada pelo rigoroso cerco feito a Belém; o regente paulista Diogo Antonio Feijó envia para a capital paraense mais três mil soldados, em 11 navios de guerra, que se juntariam às 13 embarcações postadas na barra de Belém, sob o comando do general Soares Andréa, velho conhecido (e inimigo) dos paraenses.

O cerco ameaçador dos navios provoca uma reação na cidade: os comerciantes portugueses encontrados pelos grupos mais exaltados são sumariamente executados nas ruas. Angelim, num manifesto divulgado nesse momento, afirma que a situação seria outra se não tivesse ocorrido o cerco, “pois as famílias, os empregados públicos e os negociantes ter-se-iam recolhido às suas casas, como tem acontecido nas revoluções passadas”.

Talvez ele manifestasse um desejo pessoal e de outros chefes, mas não o do grosso dos cabanos. Para os negros, principalmente, aquele seria o momento ideal de levar às últimas consequências a rebelião, que fora reprimida ao longo dos anos. Em todos os documentos que divulga nesta fase, Angelim parece mais preocupado em manter o movimento sob uma diretriz política, mas já predomina a revolta do povo — contra os seus opressores e, já agora, contra as indecisões dos líderes.
Uma oferta estrangeira

Além dos problemas internos, os cabanos se defrontam com uma complicação diplomática. Um navio inglês, que transportava grande quantidade de material bélico para um comerciante britânico estabelecido em Belém, foi atacado em Salinas. Os invasores saquearam a carga e assassinaram a tripulação. Só um marinheiro conseguiu escapar.

A Inglaterra intervém

Logo surgiram na baía três navios de guerra da marinha inglesa, com bandeira branca hasteada no mastro. O capitão Strong exigiu que Angelim mandasse hastear a bandeira britânica no lugar da brasileira, saudando-a com 21 tiros de canhão. Exigiu também a entrega dos salteadores à justiça da Inglaterra e o pagamento da indenização devida à companhia de navegação, “porque a Inglaterra não permite que os seus navios sejam molestados”.

Angelim se recusou a atender o oficial. Disse que só pagaria a indenização se o governo brasileiro não cumprisse a sua obrigação legal e entregaria os criminosos à justiça nacional. O capitão Strong aceitou essa posição. Nesse momento, segundo o historiador Domingos Antonio Raiol, que disse ter ouvido a história do próprio Angelim, teria proposto ao governo cabano dinheiro e ajuda militar para sua luta contra o governo imperial brasileiro e para separar a Amazônia do Brasil, transformando-a em vice-reinado britânico. Angelim recusou, ofendido, determinando a retirada da expedição inglesa. [Documentos do almirantado inglês, revelados quase 30 anos depois pelo pesquisador David Cleary, desmentem essa versão.

O cerco se tornara insuportável. A cidade despovoada, segundo o barão de Guajará, “apresentava por toda parte um aspecto sombrio e contristador. Os rebeldes se tinham descuidado inteiramente da limpeza pública. As ervas e arbustos invadiam as ruas, as praças e as estradas”.

Continua o relato do autor dos Motins Políticos: “As valas nem mais davam esgoto às ruas. Entulhadas de areia e lodo, formavam verdadeiros tremedais em vários pontos. Reconheceu-se então o grande estrago causado pela artilharia dos navios de guerra durante os nove dias de fogo no mês de agosto. As casas estavam abertas e em estado de ruínas, com raras exceções; umas quase demolidas, outras destelhadas e esburacadas ameaçavam desabar, não tendo muitas nem portas nem janelas: os facciosos as haviam arrancado para servir-lhes de combustível nos diferentes misteres da vida, durante os oito meses e dezenove dias que estiveram senhores da Capital”.

Ciente de que o cerco tornava a fome insuportável para os cabanos, Andréa não aceitou a proposta de acordo. Angelim teve se retirar de Belém, que foi retomada pelas tropas legais a 12 de maio de 1836. Andréa, contudo, só entrou na cidade quando ficou seguro de que do contingente cabano de cinco mil homens, restavam menos de 5% para proteger as mulheres e crianças.
Inicia-se então uma grande caçada a Angelim e seu grupo, perseguidos por 1.130 soldados mobilizados para sua captura. Cercado, o líder cabano se entrega. Outros grupos prosseguem nos combates, subindo o rio Amazonas. Tomam cidades, fazem muitas mortes, travaram duras batalhas. Em Óbidos eles têm que enfrentar a reação organizada pelo padre Sanches de Brito. Também em Manaus se forma sólida resistência, comandada por Ambrósio Aires. Bernardino Sena e Marapajuba, à frente de 1.200 homens, conseguem se apossar de Manaus, da qual são expulsos em fins de agosto de 1836. Bernardino Morre, enquanto Marapajuba foge com seus homens. É novamente derrotado nos rios Urubu e Autazes, onde morre.

Os remanescentes, sempre perseguidos pelas tropas do governo, alcançam Maués, onde se mantêm até 1839, quando o major Coelho de Miranda Leão tenta, sem êxito, a rendição do chefe cabano Gonçalo Jorge de Magalhães. Sem se render, ele e seus 800 homens são anistiados pelo imperador, no ano seguinte.

Maior de todos os morticínios

Quantas mortes a Cabanagem causou nos seus cinco anos de duração? Os números apresentados nos livros vão de 12 mil a 30 mil, que alguns consideram exagerados. Nessas hipóteses, as perdas representariam um quinto da população do Grão Pará e Rio Negro. Capistrano de Abreu diz que a província estava menos povoada do que um século antes. Pelo menos três mil cabanos foram mortos depois que a rebelião já estava controlada e dentro do presídio em que se transformou a corveta Defensora, fundeada na baía.

Mesmo os historiadores que não encaram com simpatia a Cabanagem condenam a violência dos vencedores e os interesses pecuniários do general Andréa. Sua primeira providência ao entrar em Belém, segundo João da Costa Palmeira, “foi pedir mais dinheiro ao governo, enquanto os cabanos economizaram (Angelim deixou com o arcebispo mais de 95 mil contos de réis, dinheiro do tesouro que pediu para ser entregue a Andréa, e 16 mil contos seus, confiscados imediatamente)”.

Andréa praticou também o que nenhum cabano fizera, mesmo na fase mais sangrenta da insurreição: mandou prender dois juízes de direito.

A Cabanagem foi, na verdade, o grito de emancipação política da Amazônia, com 13 anos de atraso da libertação nacional. Não levou à autonomia nem promoveu a reconciliação da província com o poder central, do qual se distanciaria ao longo do império. Nem poderia ser de outra forma: enquanto enviava negociadores para parlamentar com os líderes da revolução farroupilha, no Rio Grande do Sul, Feijó mandava a tropa esmagar sem piedade os rebeldes do Pará. Esta medida do tratamento dispensado pelo império não seria esquecido pelos paraenses.

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6 comentários sobre “Cabanagem: a revolta social no Pará

  1. Edineide Coelho 28 de setembro de 2014 / 19:35

    Lúcio,
    Parabéns pela louvável iniciativa, que é uma ótima oportunidade para mostrar ao mundo o que foi a Cabanagem. Momento importantíssimo de nossa história, retratado aqui por um olhar crítico, apurado, analítico e fidedigno à verdade dos fatos.
    Obrigada por mais essa valiosa fonte de informação.
    Estamos felizes por você estar retomando seu antigo projeto, que certamente vai se realizar do jeito que você o concebeu.
    Admiramos profundamente sua capacidade de trabalho e sua dedicação às questões amazônicas. É incrível como você se supera a cada dia. Nossa região tem muito do que se orgulhar pelo exemplo que você tem dado a todos nós, e que vai ficar como um imensurável legado para as futuras gerações.
    Que Deus lhe dê saúde e força pra você continuar firme na sua trajetória de luta por essa região que é a sua razão de viver.
    Edineide e Mariana.

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  2. Celio Simoes de Souza 29 de setembro de 2014 / 09:19

    Excelente, uma abordagem lúcida de um episódio da história do Pará não muito bem repassado às gerações, conquanto suas repercussões.

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  3. Thiago Oliveira 2 de outubro de 2014 / 12:08

    Lúcio, não lembro se você já escreveu um dossiê sobre cabanagem, caso não brinde-nos com essa publicação

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  4. Marilene Pantoja 3 de outubro de 2014 / 10:38

    Lucio, lembro quando, no final da década de 80, já me confidenciavas teu desejo de escrever sobre a Cabanagem. Em tuas inquietaçoes, te reportavas sempre a essa lacuna na história do Pará, que silenciou detalhes valiosos desse grandioso movimento. Diante de teu blog, vejo que, a despeito de tantas adversidades, que te exigem abdicar de tua precária zona de conforto, conseguiste implementar teu tão sonhado projeto. Fico feliz, não apenas pela valiosas informações que resgatarão parte da memória e identidade de todos nós, paraense, mas, sobretudo, por saber o que esse pequeno-grande passo significa para ti. Saiba que podes contar comigo; meu apoio é incondicional!!!!!

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    • Lúcio Flávio Pinto 3 de outubro de 2014 / 13:28

      Tem sido sempre assim, Marilene, desde que nos conhecemos. Seu apoio é uma fonte de estímulo e desafio para prosseguir e ir além. Desde que você me dedicou seu trabalho de conclusão de curso em geografia na UFPA, mais de 20 anos atrás Muito obrigado pelo seu entusiasmo e aprovação.

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